Durante muito tempo na música eletrônica, bastava um bom line up no evento para ser sucesso de vendas. Quanto mais artistas renomados e maior a sonzera, maior era o interesse do público. Nos últimos anos, esse cenário vem mudando gradativamente, acompanhando a mudança de cultura do público consumidor e uma nova forma de divulgar as festas.
É cada vez mais comum ver eventos anunciarem primeiro um conceito, uma identidade visual, uma narrativa, uma cenografia ou até mesmo um universo temático antes de revelar todas as atrações. A música continua sendo a essência do evento, mas deixou de ser o único fator capaz de convencer alguém a comprar um ingresso.
Essa lógica pode ser observada em praticamente todos os segmentos da cena. Enquanto grandes festivais investem em cenografias monumentais, narrativas e produções audiovisuais de alto impacto, festas do circuito underground também passaram a construir identidades muito bem definidas, apostando em locais pouco convencionais, curadorias sonoras específicas, comunidades engajadas e propostas que reforçam um sentimento de pertencimento. Independentemente do porte do evento, a busca é a mesma: oferecer algo que dificilmente possa ser reproduzido em outro lugar.
Um local inédito, uma narrativa bem trabalhada, um palco ou um audiovisual que conte uma história. Tudo isso pode vender um ingresso tanto quanto uma boa curadoria.
Nesse contexto, criar uma conexão genuína com a comunidade passou a ser tão importante quanto contratar grandes artistas. Afinal, quando o público se identifica com os valores, a estética e a proposta de uma label, ele deixa de comprar apenas um ingresso e passa a fazer parte de uma experiência coletiva.
Essa transformação acompanha uma mudança no comportamento do consumidor no geral, não só no ambiente da música eletrônica. As pessoas passaram a valorizar não apenas o produto ou serviço que estão adquirindo, mas também as experiências que podem proporcionar.Uma pesquisa da Mastercard, realizada com mais de 16 mil consumidores em 24 países, aponta que 63% da Geração Z aumentaram seus gastos com experiências, como viagens, shows e eventos ao vivo. O levantamento reforça uma mudança no comportamento de consumo, em que memórias e conexões passam a ter mais valor do que a aquisição de bens materiais.
Os festivais agora buscam vender uma atmosfera, uma locação cuidadosamente escolhida, uma identidade visual marcante, iluminação imersiva e a possibilidade de compartilhar momentos com pessoas de um determinado nicho. Os universos mágicos do Tomorrowland, os efeitos visuais da Afterlife, a energia do Universo Paralello, o conceito por trás do Muriqui Sounds são exemplos que mostram como a experiência se tornou parte essencial da identidade de um festival, indo muito além dos artistas que compõem o line-up.
Um levantamento global da Euromonitor International reforça essa tendência ao apontar que 77,3% dos consumidores consideram muito importante viver experiências no mundo real, enquanto 66% buscam vivências personalizadas e alinhadas ao seu estilo de vida.
As redes sociais tiveram um papel importante nessa mudança. Plataformas como Instagram e TikTok transformaram festivais em ambientes altamente compartilháveis. Palcos monumentais, instalações artísticas, ativações interativas e espaços ‘instagramáveis’ passaram a fazer parte da estratégia dos eventos, porque ampliam o alcance da marca de forma orgânica e consequentemente atraem um público consumidor sedento por viver experiências exclusivas.
No mercado de eventos, essa tendência ganhou ainda mais força no cenário pós-pandemia. Após a quarentena, o público voltou a valorizar intensamente os encontros presenciais. Ao mesmo tempo, os custos de produção aumentaram significativamente.
Já no Brasil, essa dificuldade foi potencializada ainda mais pela desvalorização do real frente ao dólar e ao euro. Por conta disso, em vez de concentrar boa parte do orçamento no line up, o investimento na experiência do público se tornou uma boa estratégia para agregar valor ao evento.
Hoje, em alguns casos, o público compra o ingresso antes mesmo da divulgação completa do line-up. A decisão de participar deixa de estar ligada apenas a um DJ específico e passa a envolver tudo o que aquela label representa.
Essas mudanças mostram que os festivais passaram a competir tanto pelos artistas, quanto pela experiência que conseguem proporcionar. Em um cenário cada vez mais competitivo, a exclusividade, subjetividade e singularidade se tornaram tão importantes quanto montar um line-up consistente.
Se antes o line-up era praticamente o único argumento de venda de um festival, hoje ele divide espaço com uma série de elementos capazes de tornar um evento memorável. A música continua sendo o coração da experiência, mas a decisão de compra passa cada vez mais pela história que aquela festa conta, pelo senso de comunidade que constrói e pela sensação de viver algo único.
Por Paulo Rollemberg e Adriano Canestri
