Estreando pela dsrptv rec, Palmer fala sobre trajetória e novo EP

Por Lau Ferreira

Foto de abertura: divulgação

Natural de São Paulo, Raphael Palmer nutre maior fama pelo seu trabalho à frente da Tropical Twista, gravadora de música eletrônica com tempero étnico e orgânico. Uma mistura de DJ, produtor musical, produtor cultural, engenheiro de dados e designer, Palmer, como é mais conhecido, costuma agregar seu passado como guitarrista e flautista às suas produções, igualmente de verve folclórica e experimental.

Chamado “Conjunction”, seu mais novo EP vem por um selo que tem bastante a ver com sua proposta enquanto artista, o dsrptv rec, que chegou na sexta-feira, 18, ao seu quarto lançamento. Para sabermos mais sobre Palmer e o release, batemos um papo por e-mail com ele, que respondeu diretamente de sua nova casa na Chapada dos Veadeiros – GO.

HM – Raphael, conta pra gente: quem é Palmer e qual a sua história?

Primeiramente, muito obrigado por me receberem! Meu nome é Raphael Palmer, tenho 32 anos e sou uma mistura de engenheiro de dados, designer, DJ, produtor e label head do selo nacional Tropical Twista Records. Minha jornada musical começou na adolescência, quando aprendi a tocar guitarra e flauta transversal. Toquei em bandas de rock/metal progressivo com amigos, mas meu gosto musical sempre foi muito fluido, passando por cover de Guns & Roses até música celta.

O eletrônico só entrou na minha vida no início de 2015, quando caí de paraquedas no aniversário de quatro anos da Carlos Capslock, em São Paulo. Desse dia em diante foi um caminho sem volta. Minha perspectiva de música mudou completamente, me apaixonei por todos os aspectos da música eletrônica, não só pela música em si, mas por todo o ambiente das festas, o poder terapêutico das pistas, a voz política da cena, a inclusão social. Sem saber direito aonde ia me levar, eu verdadeiramente me joguei de cabeça nesse mundo.

O desejo de virar DJ veio da sensação que eu sentia enquanto estava dançando de madrugada em alguma pista. Sabe aquele sentimento de voltar pra casa de alma lavada e pernas dormentes? Eu queria proporcionar isso pros outros também. De lá pra cá eu tive o prazer de tocar em muitas das festas que eu frequentava como público: Sonido Tropico, Voodoohop, MBR, SP na Rua, além de festivais como Pulsar e Respect. Eventualmente, a vontade de criar uma festa/coletivo próprio acabou surgindo, daí nasceram projetos como a Quack e Festa Autônoma Temporária.

Começar a produzir meu próprio som também veio de forma natural. Eu já tinha uma certa facilidade com música devido aos meus anos como guitarrista e flautista, então foi só uma questão de aprender a mexer nos equipamentos e softwares. Há alguns anos virei sócio do Felipe Delgado, criador da Tropical Twista, e isso me abriu muitas portas e permitiu que eu me conectasse com muitos artistas que eu admiro.

Hoje, lidero a gravadora sozinho e divido meu tempo entre geri-la e evoluir minhas produções, além de trabalhar com engenharia de dados e design gráfico. Me mudei de São Paulo para a Chapada dos Veadeiros em 2019 e a vida no mato definitivamente ajuda a equilibrar todas as atividades. E lógico, também estou ansioso para voltar a tocar em festas quando a situação do país melhorar.

HM – Como surgiu a ideia da Tropical Twista, e como é a sua rotina de trabalho em relação a ela?

A gravadora foi criada em 2015, pelo Felipe Delgado. A ideia sempre foi distribuir e divulgar música eletrônica experimental de forma acessível, abrangente e sem se preocupar com fronteiras, rótulos ou gêneros. Em 2018, virei sócio do Felipe que, recentemente, decidiu focar em outros projetos pessoais, então venho levando o selo sozinho desde então.

Minha rotina de trabalho atualmente está bem focada no V/A de aniversário, que será lançado em breve em comemoração aos seis anos. A compilação terá em torno de 20 artistas, todos brasileiros, e vou devolver cem por cento dos lucros do Bandcamp de volta pros artistas, para ajudar um pouco nossos músicos que vêm sofrendo tanto nessa pandemia.

Para mim, esse V/A também simboliza e oficializa essa troca de comando da label, que está passando por um processo de reorganização sob meu olhar. Tem sido um trabalho bem intenso, pra dizer o mínimo, mas super gratificante!

HM – E como são seus trabalhos como designer e engenheiro de dados?

Sou formado em engenharia da computação e trabalho com ciência de dados há mais de dez anos. Ao mesmo tempo, sempre fui apaixonado por design e artes gráficas, então eu equilibro meu tempo entre tudo isso e, de certa forma, uma atividade acaba ajudando a outra.

Consigo usar meu conhecimento em análise de dados e design gráfico para aprimorar meu trabalho com música. Há também o fator financeiro. É muito difícil se sustentar somente com arte no Brasil, e música eletrônica requer equipamentos, então ter empregos paralelos me ajuda a financiar meus sonhos.

HM – Como rolou o convite para o novo EP da dsrptv rec? Você e o Tha_guts são amigos já há um tempo, não é mesmo?

Conheci o Augusto (Pereira, o Tha_guts) quando ele lançou o EP “Muddy” pela Tropical Twista. Sinto que nos demos bem instantaneamente, ele é uma pessoa muito organizada e dedicada, além de um artista talentosíssimo.

O convite pro EP veio há algum tempo, bem quando ele estava criando a label. Eu havia mostrado algumas faixas minhas e ele gostou bastante, então começamos a arquitetar um lançamento.

>> “Conjunction” no Beatport << 

HM – O que você pode nos falar sobre a ideia, o conceito por trás do EP? Houve algum tipo de direcionamento para fazer um som que casasse com a proposta da dsrptv?

“Conjunction” representa a união entre a Lua e Saturno. Gosto de unir várias coincidências ao redor de um tema, e procuro um conceito que as represente. “Saturnine” está para Saturno assim como “Selene” está para a Lua.

Na época em que terminei esse EP, coincidentemente estava ocorrendo a conjunção de Saturno com a Lua; resolvi olhar a posição dos planetas no dia que eu nasci e Saturno também estava em conjunção com a Lua. Essa conjunção simboliza a união de duas energias opostas, a natureza da lógica contra a natureza das emoções, é um disruptive aspect.

A proposta das faixas casou bem com o conceito do selo. O único direcionamento que recebi foi pra dar uma atenção especial nas texturas, característica marcante nos lançamentos da dsrptv.

HM – Conta um pouco pra gente sobre quem é Kadum e como foi colaborar com ele em “Selene”.

Conheci o Kadum quando ele enviou demos para ouvirmos na Tropical Twista. Achei o som dele incrível e inclusive estamos nos detalhes finais de um EP dele na gravadora. Ele é um músico extremamente talentoso, principalmente com instrumentos de sopro.

Eu já tinha gravado a flauta para “Saturnine” e queria adicionar esse elemento em “Selene” também, mas não estava satisfeito com o que eu havia feito. Então enviei a música pra ele e o convidei para tocar flauta em cima da música da forma que quisesse. Amei o resultado e acho que foi a cereja do bolo.

HM – Como se deu a escolha por Stroka para produzir um dos remixes?

Sou fã de carteirinha do som do Leo há muitos anos. Desde a primeira vez que ouvi o live dele em 2015, ele sempre me inspirou muito, é uma referência enorme de produção pra mim. Então é verdadeiramente um orgulho imenso ter um remix dele no EP.

HM – Como você enxerga o resultado final do EP?

Eu não poderia estar mais feliz, acho que o EP está exatamente como tem que ser. Ambos os remixes expandem os conceitos das músicas perfeitamente, navegando pelas bordas do tema sem perder sua essência.

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