Alerta para o setor de eventos: impacto do clima em diferentes regiões do mundo exige medidas de precaução e adaptação

Na última semana, o cancelamento do Defqon. 1, na Holanda, levantou novamente o debate sobre o impacto do clima no setor de eventos. A menos de 24h do início do festival, a organização se viu em uma situação delicada após o Instituto Meteorológico dos Países Baixos emitir um alerta de calor extremo para o fim de semana, com os termômetros atingindo mais de 40° pela primeira vez no país.

A organização, portanto, não teve outra saída senão cancelar o evento. Eram esperadas mais de 58 mil pessoas. Mesmo com medidas de prevenção adotadas é um risco muito grande e responsabilidade enorme submeter pessoas dançando, bebendo e utilizando substâncias (legalizadas na Holanda) sob uma condição extrema como essa.

Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), a Europa é hoje o continente que aquece mais rapidamente do planeta, enquanto episódios de calor extremo, tempestades intensas e outros eventos meteorológicos severos vêm aumentando em frequência.

Eventos climáticos severos não são mais exceção

O caso do Defqon. 1 não é isolado. No último ano, eventos em diferentes países tiveram programações interrompidas por eventos climáticos diferentes.

O Tomorrowland Winter, que acontece nos Alpes Franceses, foi interrompido por algumas horas devido uma nevasca. 

O Coachella, nos EUA, precisou encerrar a programação no primeiro dia mais cedo devido a rajadas de ventos que colocavam em risco a estrutura do palco e consequentemente milhares de pessoas na pista.

Na Espanha, o Primavera Sound teve que encerrar um dos dias mais cedo pela forte chuva e rajadas de ventos.

O Burning Man sofreu novamente. Dessa vez, com rajadas de vento e uma tempestade de areia que destruiu acampamentos e deixou as pessoas presentes sem enxergar nada.

São diferentes acontecimentos climáticos em diferentes áreas, o que acende um alerta urgente para produtores de eventos de todo o mundo. Agora, as condições meteorológicas são uma parte chave da organização de qualquer festival ou festa. 

Há poucos anos, um produtor podia acompanhar a previsão de chuva na semana do evento. Hoje, o planejamento precisa considerar ondas de calor, tempestades elétricas, fumaça de incêndios florestais, ventos extremos, enchentes e até nevascas, dependendo da região onde o festival acontece, além de contar com a imprevisibilidade.

Qual a previsão para os próximos meses?

Só em junho, Alemanha, Holanda, Polônia, República Tcheca, Hungria, Dinamarca, Reino Unido, Áustria e Suíça bateram recordes de temperatura com os termômetros se aproximando dos 40°C ou ultrapassando esta marca.

O verão começou no dia 21 de junho e se estenderá até 23 de setembro. A previsão do Copernicus, serviço climático europeu, é de que as fortes ondas de calor se estendam por toda a temporada, além de chances do fenômeno El Niño se desenvolver ao longo do segundo semestre, o que afeta eventos climáticos em outras regiões.

Estados Unidos e Canadá, por sua vez, enfrentam a onda de calor semelhante à Europa aliada a outros eventos perigosos. Tempestades, descargas elétricas constantes, possíveis incêndios florestais, enchentes localizadas e ventos fortes são uma preocupação dos órgãos meteorológicos.

E agora, produção?

Em um cenário como esse em que o mundo está em alerta, produtores de eventos de todos os tipos devem tomar como prioridade máxima a segurança do público. Medidas de prevenção se tornam cada vez mais urgentes e devem ser feitas com responsabilidade, como: 

– monitoramento meteorológico em tempo real;

– planos de evacuação e protocolos de segurança;

– estruturas resistentes a ventos extremos;

– áreas de sombra e hidratação gratuita para enfrentar ondas de calor;

– locais com boa ventilação e climatização;

– vender uma quantidade de ingressos que deixe o ambiente seguro, sem superlotação;

– seguros específicos para eventos climáticos.

De uma vez por todas, o setor precisará andar lado a lado com planejamento climático, inteligência meteorológica e protocolos de segurança. Os eventos extremos estão mudando a forma como os festivais são concebidos. O clima passou a influenciar desde a contratação de seguros e o dimensionamento das estruturas até a definição de áreas de sombra, pontos de hidratação, protocolos médicos e planos de evacuação. Esses episódios mostram que o clima passou a influenciar diretamente a viabilidade operacional e financeira dos grandes eventos. 

A cena no Brasil precisa se preparar

O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) confirmou o retorno do El Niño para os próximos meses no Brasil. Há uma previsão de 63% de um El Niño muito forte no trimestre novembro-dezembro-janeiro, que seria um dos mais fortes nos registros desde 1950.

Este fenômeno impacta o país de diferentes maneiras. Nas regiões Norte e Nordeste, além do calor elevado, há o risco de estiagens e impacto nos recursos hídricos, enquanto no Sul do Brasil as chuvas intensas e alagamentos viram um ponto de alerta.

O verão europeu está apenas começando e ainda há mais de dois meses de festivais pela frente. Até o fim da temporada, a indústria global do entretenimento provavelmente terá novos exemplos — positivos e negativos — de como lidar com um clima cada vez mais imprevisível. Para o Brasil, que ainda se prepara para o próximo verão sob a influência do El Niño, o momento é de observar, aprender e antecipar medidas. Em um cenário de eventos meteorológicos cada vez mais extremos, a capacidade de adaptação deixa de ser um diferencial para se tornar um requisito básico para a realização de qualquer grande evento. 

Por Adriano Canestri

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