Por Lau Ferreira
Foto de abertura: divulgação
Nesses tempos nebulosos, a indústria da música eletrônica — como a do entretenimento, de forma geral — foi uma das mais afetadas. Artistas estão tendo que se reinventar e se virar para achar outras formas de renda e ficar em evidência, e o resultado prático é que diversos nomes começam a se tornar mais notáveis a partir de iniciativas bem alinhadas e que conectam música nova com um público que tem saudades das pistas de dança.
Um exemplo disso é Edu Schwartz. O catarinense, natural de Jaraguá do Sul e baseado em Floripa, é DJ desde 2005, quando tinha apenas 15 anos. Começou a se arriscar na produção aos 22, mas, foi só em 2020, que efetivamente passou a lançar música oficialmente. De lá pra cá, destacou-se nas pistas do Warung, onde passou a atuar com frequência, além do Warung Day Festival, e assinou releases com gravadoras como Warung Recordings, Roaming Leaves e The Purr. Entretanto, seu movimento mais importante foi a criação de seu próprio selo, Words Not Enough, em parceria com o amigo AWKA.
Debutando em agosto do ano passado com o EP “Quite Like You”, do argentino Valdovinos, a label traduz a essência musical de seus criadores, focando em organic house e sons para warm up. Além disso, tornou-se uma plataforma não apenas para promover músicas que gostam, mas, também, criando um intercâmbio com artistas do mesmo cenário de toda a América Latina, como Bodaishin, jovem promessa argentina que figurou com um remix no EP “Creator of Souls” — quarto e mais recente release da WNE, que traz duas originais de Edu.
Batidas desaceleradas, ruídos ambiente, som introspectivo e um conceito muito bem amarrado que remete a espiritualidade, tribos antigas e conexão com a natureza definem a estética de Schwartz e de sua gravadora. Para entender mais desse novo e promissor projeto, batemos um papo rápido e à distância — respeitando todos os protocolos, é claro! — com o próprio Edu.
HM – A pandemia afetou o mundo inteiro, e o setor da música eletrônica sofreu consequências muito duras. Como foi esse período pra você? Sabemos que culminou também com o surgimento da Words Not Enough. Conta pra gente essa história!
Está sendo um período muito chato. 2020 era pra ter sido um ano super ocupado, com várias gigs, e do nada nos encontramos sem nada e sem data para retornar. Porém, neste período de incertezas, eu tinha uma certeza, não poderia ficar parado esperando as coisas retornarem ao normal.
Assim, eu e o Diego [Alves Canellas, o AWKA] começamos a amadurecer a ideia de criar nosso próprio selo, e com a ajuda do Leo Janeiro, em poucos meses colocamos em prática esse sonho. Tem sido um trabalho muito legal, estar inserido em um mercado que tanto gostamos, e ter contato com muitos artistas que admiramos é muito recompensador.
HM – Não é de hoje que existem incontáveis gravadoras de música eletrônica por aí. Em determinado momento, parece que quase todo artista acaba virando headlabel. Por que abrir uma gravadora? O que alguém que está inaugurando um selo deve ter em mente?
Ter um selo é um ótimo meio de você se inserir dentro de uma cena com que você se identifica. Ele te conecta com outros artistas de uma forma diferente do que as festas que os DJs estão acostumados. Outros artistas podem querer abrir uma label para poder lançar as suas próprias músicas. Para ser bem sucedido nesse meio você tem que traçar objetivos claros, apostar naquilo que você acredita e não pensar pequeno.
“Quite Like You”, de Valdovinos, é o primeiro lançamento da Words Not Enough
HM – Quais os principais objetivos com a Words Not Enough?
O primeiro objetivo é espalhar a música que gostamos para o maior número de pessoas possível. Segundo, mas, não menos importante, é dar suporte em quem acreditamos. Queremos dar oportunidade a muitos novos artistas que ainda não são conhecidos, bem como ajudar a consolidar a carreira de outros que já são respeitados no nosso cenário.
HM – Vocês têm abraçado o conceito de organic house/downtempo, que está cada vez mais em voga no cenário mundial. Como aproveitar esse hype, sem deixar de lado a sua essência?
É verdade que o organic house está em alta, mas não vejo como um hype, é um estilo que sempre teve o seu público. A música eletrônica, por ser muito cíclica e ter muitas subvertentes, sempre estará com alguma em evidência. O que você produz ou o que toca tem que ser a sua verdade.
Nunca faça algo pra ser igual a de um DJ/produtor que você gosta. Todos temos influências de alguém, porém viver à base da imitação nunca te fará ser alguém admirado. Descobrir novos caminhos e novas influências é parte essencial para o seu amadurecimento como artista.
“Theme of a Multiverse”, do alemão Nhii, saiu em janeiro
HM – Tanto você quanto o AWKA são dois DJs que curtem muito fazer o warm up. De certa forma, é possível dizer que a WNE é voltada a sons para esse momento das pistas?
Sim, a WNE tem como foco o organic house, porém, ela é um pouco mais que apenas isso. Hoje, a música eletrônica tem tantas influências que fica até difícil de rotular um estilo. Por esse motivo, eu e o Diego decidimos que o nosso quesito principal para lançar uma track seria o seguinte: é uma música com que nos conectamos e que se encaixaria em algum dos nossos sets? Se a resposta for sim, ela passou no teste. Como somos DJs versáteis, nada impede que algumas tracks que tenham mais energia e sejam apropriadas para outros horários do line up não sejam bem-vindas na nossa label.
HM – Em quatro releases, já podemos notar a internacionalidade da label, com lançamentos dos argentinos Valdovinos e Bodaishin, e dos alemães Slow Hearts e Nhii. Como funciona a curadoria? A aceitação do selo tem sido maior na gringa do que no Brasil?
Eu e o Diego não pensamos pequeno quando decidimos criar a WNE. Estamos em contato com muitos artistas já estabelecidos na cena para ter uma maior visibilidade mundial e, ao mesmo tempo, estamos apostando em novos artistas nacionais para criar raízes no Brasil também, como Chiari, Peve, Souto e Nelli.
Por enquanto, é um pouco difícil afirmar que a maior aceitação vem de fora, já que as festas não estão acontecendo, então, o contato com o público é muito reduzido. Esperamos que quando essa situação da pandemia passar, possamos dar início ao nosso projeto de showcases da label, para que os nossos artistas possam se apresentar e assim criar uma proximidade maior com o público, passando toda a experiência sonora que amamos.
O segundo lançamento da WNE foi “Truly Enchant”, com faixas dos headlabels Edu Schwartz e AWKA e remix do alemão Slow Hearts
HM – O que podemos esperar no futuro próximo do DJ, produtor e headlabel Edu Schwartz?
Estou muito focado no estúdio durante a pandemia. Não tenham dúvidas de que muitos lançamentos legais irão sair no decorrer do ano! Não vejo a hora de poder voltar a dividir tudo isso de dentro de uma cabine e com uma pista lotada. Com a WNE, temos ótimos lançamentos a caminho, e muitos artistas incríveis terão a oportunidade de mostrar suas músicas para o mundo. Não percam!
