NFT: Entenda a nova tecnologia que pode revolucionar a forma de fazer arte na era digital

Por Rodolfo Conceição

Foto de abertura: divulgação

Você deve ter visto notícias recentes sobre NFT e criptoarte, e possivelmente não entendeu muita coisa, pois o conceito é um pouco complicado. No entanto, se as previsões se confirmarem, essa tecnologia baseada no mesmo conceito de blockchain usada pelo Bitcoin deve ser não só o futuro da indústria cultural, como uma excelente fonte de renda para artistas independentes de todo o mundo.

Mas afinal, o que é esse tal de NFT? A sigla quer dizer non-fungible token, ou código não-fungível em tradução literal. Dizemos que determinada coisa é fungível quando ela é passível de ser gasta e substituída por outra idêntica. Fazendo o pensamento inverso, um token não-fungível é algo único, que não pode ser substituído. Assim, uma arte digital deixa de ser apenas um arquivo e passa a ser exclusiva, com um código único registrado em blockchain que o identifica e garante sua autenticidade. E é isso que pode transformar um arquivo JPG em um item vendido em leilão por US$ 70 milhões (quase R$ 390 milhões na cotação de hoje).

Uma obra de arte como a entendemos tem seu valor justamente do fato de ser autêntica e escassa, características que muitas vezes se perdia no mundo on-line do copia e cola. Mas, com o NFT, hoje, qualquer artista pode inscrever uma obra (a palavra original é mint, o verbo cunhar, que significa converter um metal em moeda) em sites como OpenSea e estipular um preço na cripto moeda Ether. Quando uma venda é feita, ela é registrada no blockchain da Ethereum, tecnologia que permite registrar e rastrear transações, como um livro contábil distribuído entre milhares de computadores e acessível para qualquer pessoa verificar.

Agora, você deve estar se perguntando por que um produtor musical faria todo esse processo e quem compraria, não é mesmo? O NFT é o próximo passo para a independência dos artistas e a descentralização das grandes plataformas de streaming. A tecnologia é ideal para oferecer material exclusivo e limitado para fãs e colecionadores. Um produtor musical pode entregar uma cópia física, artes e memorabilia personalizada, acessível a qualquer pessoa do mundo. Pelo lado do fã, é uma volta daquela cultura de colecionar itens e apoiar diretamente seu artista preferido.

Apesar do NFT não ser novidade no mundo da música eletrônica, o produtor Clarian North fez história recentemente por ser o primeiro artista a colocar um álbum em leilão no OpenSea. Ele está vendendo o disco de synth pop Whale Shark da forma mais literal que você pode pensar: quem comprá-lo estará adquirindo também os direitos de autoria e publicação da obra e poderá fazer o que bem entender com o disco, como licenciar para uso comercial, reproduzir, editar, remixar ou simplesmente deletar todos os arquivos e fazerem a única cópia do álbum desaparecer para sempre…

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Foto: divulgação

A banda Kings Of Leon perdeu o posto de primeiro álbum oferecido em NFT para Clarian por um dia. O álbum mais recente da banda, “When You See Yourself”, foi vendido por duas semanas em NFT, que permitia o download digital e incluía uma versão limitada em vinil. A iniciativa rendeu mais de R$ 10 milhões à banda.

Se você não percebeu, o NFT abre um mar de possibilidades para artistas independentes poderem monetizar sua base de fãs e a comunidade de colecionadores de criptoarte de formas criativas, ao oferecer por exemplo entradas para eventos futuros, acesso ao backstage, conteúdos exclusivos, brindes. Aqui, no Brasil, já tem quem empreenda e fature com a ideia, como Taynaah Reis, criadora da criptomoeda Seeds que acaba de lançar a primeira plataforma de NFTs brasileiras, a All Be Tuned, com uma proposta de apoiar artistas e ainda reverter 30% da renda das vendas a instituições já apoiadas pelo projeto original do criptoativo Seeds.

Ao “cunhar” sua obra em blockchain, é possível também estipular um percentual que o criador receberá a cada venda posterior. E aqui abrimos um parênteses; já que as obras são precificadas em Ether, a segunda principal criptomoeda do mundo atrás do Bitcoin, seu valor em “moeda de verdade” flutua a preço de mercado. Em outras palavras, o comprador tem um ativo que pode valorizar muito. Para ter uma ideia, o valor do ETH subiu 600% somente no ano passado.

Para além da possibilidade financeira, meu lado geek me faz até vislumbrar um ponto em que será possível, através do uso de blockchain ou tecnologia semelhante, rastrear precisamente qualquer arquivo de áudio para registrar o número de reproduções e melhorar o pagamento de direitos autorais para artistas, melhorando os sistemas de remuneração de plataformas de streaming ou até do recolhimento do Ecad, por exemplo.

Fato é que a tecnologia está cada vez mais presente na rotina do artista e quem está explorando essa novidade já está colhendo frutos. Além dos exemplos já citados, nomes como Aphex Twin, Deadmau5, Grimes e Mike Shinoda do Linkin Park estão faturando alto vendendo peças de arte digitais, fotos e vídeos exclusivos, além é claro, de música.

Então, não se espante quando o verbo cunhar (ou talvez “mintar”, já que adoramos um anglicismo) entrar de vez para o vocabulário de todo artista.


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