Warung Day Festival 2019, um dia para não passar despercebido!

Por Jonas Fachi

Foto de abertura: Gustavo Remor

Entre diversos acontecimentos marcantes, a sexta edição do Warung Day Festival poderá ser lembrada por uma espécie de solidificação do evento em Curitiba. Após a consolidação em 2018, a edição de 13 de abril de 2019 trouxe um passo a mais, em que não apenas o “melhor dia do ano” faz parte da rota cultural da cidade, como também ganhou enraizamento no imaginário coletivo local de que é algo que veio para ficar. A data no calendário se tornou indispensável, seja economicamente – através do giro hoteleiro e gastronômico que milhares de pessoas trazem ao município e região – seja através da geração de valor a uma das capitais mais importantes do país, que possui como premissa acompanhar a contemporaneidade do mundo e seus avanços.

Ao longo desses seis anos, o Warung Day criou uma conexão com a Pedreira Paulo Leminski através do espírito balinês advindo da Praia Brava, que parece ter se apropriado do local. Fica até difícil imaginar outros eventos dentro daquele espaço que não sejam as tendas emblemáticas e as decorações orientais, que dão uma alma singular ao lendário templo do rock lembrado com muito orgulho pelos curitibanos.

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Foto: Gustavo Remor

Batendo novamente recorde de público, esta edição apresentou um line up mais desafiador do que outros anos frente a forte cultura eletrônica sulista. Por não haver um grande medalhão ou âncora como chamado principal, todas as pistas foram planejadas para serem mais homogêneas, dando espaço para o crescimento da ideia de experiência cultural. Pode-se dizer que esse foi o verdadeiro destaque: a percepção de que a música era apenas um dos elementos de um leque atrativo bastante extenso. É obvio que a música e os artistas que a representam sempre possuirão um papel central, porém, o contexto da experiência de passar 12 horas em um lugar especial tem tomado tamanha relevância, que a curadoria optou esse ano por trazer uma escalação menos estrelada, mas com uma entrega musical que não deveu em nada para qualquer outra edição.

Minha intenção era estar no evento o mais cedo possível. Consegui entrar por volta das 14h através do sistema de retirada de acessos a imprensa pelo portão três, que estava tranquilo e rápido. Devido ao incentivo do festival, deixei para almoçar nas barracas de comidas logo após ao portal principal. Este é um ponto já tradicional de alimentação que fica distante do núcleo do evento. Compreendo que esse tipo de comida dentro de um festival tão grande precisa ser o mais prático e rápido possível, entretanto, acredito que as equipes escolhidas esse ano poderiam entregar produtos com um pouco mais de qualidade. Creio que essa seja minha única ressalva em todo o evento.

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Foto: Gustavo Remor

Andando pelo local, logo percebi uma inovação fundamental; os caixas ambulantes dentro do evento. Com atendentes muito prestativos, rapidamente era possível comprar bebidas ou comidas sem filas, com aceitação de cartão de crédito sem demora ou falhas de sistema. Esse é um passo que não deve voltar atrás, deixando no passado as enormes filas nos caixas estáticos.

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Foto: Gustavo Remor

Após passar pelos dois belos dragões que recebiam o público para as primeiras fotos, desci para iniciar os trabalhos de apreciação musical. O sol era intenso, reverberando por todos os cantos da Pedreira e adentrando a pista do Warung Stage até bem próximo dos DJs. Ainda assim, um bom público já acompanhava com animação o set dos catarinenses Danee & Edu Schawrtz. Com a força do poderoso sistema de som da marca francesa L-Acoustics, eles imprimiam um estilo muito característico e em conformidade com a proposta deste palco – sonoridades dançantes, com balanço e alguma profundidade. A grande novidade desse ano sem dúvidas se deu pela nova formatação da tenda do W Stage, conhecida como TFS; abertura maior, mais alta e sem pilares de sustentação no meio. Os camarotes fechados estavam mais baixos e mais próximos do grande público e o camarote aberto se dava novamente em cima dos contêineres que fechavam a lateral da pista.

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Foto: Gustavo Remor

Na sequência, peguei outro b2b que sempre gosto de ouvir, primeiro porque se trata de prestigiar duas lendas do Warung e segundo pela bagagem musical que eles carregam. Conti & Leozinho não deixaram por menos; pegaram meia pista e entregaram cheia após duas horas de um house progressivo com muito groove, como é a pedida para festivais. No final, eles fecharam o set com “Love In Traffic” – clássica de Satoshi Tomiie que possui toda uma simbologia com a identidade do Templo.

Corri para o Pedreira Stage onde Albuquerque comandava seu set. Esse foi o primeiro palco que o público foi quando chegou. Com uma excelente leitura do que seria ideal para uma tarde ensolarada e sem perder o feeling de uma pista que exige mais rapidez e intensidade, ele jogou seu ritmo forte com hi hats abertos, porém variando com uma certa progressão que me agradou bastante. Em tempos de techno estático e sem alma, Albuquerque caiu muito bem nessa pista.

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Foto: Gustavo Remor

Às 17h, finalmente o festival estava totalmente cheio e todas as pistas em estado de ebulição. Cheguei ao Garden Stage quando acredito ter sido um dos melhores momentos no festival. Não apenas porque quem estava se apresentando era Gui Boratto, mas também pelo clima agradável do sunset com uma leve brisa e uma naturalidade nos fluxos corporais dos ravers que parecia mais conectada a verdadeira ideia do evento.  

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Foto: Gustavo Remor

Fazia muitos anos que não assistia um dos meus artistas favoritos. Gui é como vinho, quanto mais o tempo passa, mais ganha sabor e elementos novos, que, no caso dele, se tratam de seu extenso acervo musical. Em 2018, Gui lançou seu quinto álbum de estúdio e obviamente músicas novas não faltaram se misturando com outras antigas e clássicas até o final do set! Ouvir duas horas de um de seus heróis musicais acaba tendo um impacto emotivo maior, pois a todo momento eu me pegava ouvindo músicas de diferentes épocas da carreira desse gênio paulista que mudou para sempre a forma como os produtores brasileiros são vistos pelo mundo. Entre tantas que poderia mencionar, vou deixar como marco a minha favorita do seu último álbum Pentagram, “Forgive Me”.

Quando percebi já era noite, tempo para outra refeição e hora de retornar ao Pedreira Stage para ouvir dois artistas que acompanho há muitos anos, especialmente pelas mãos de Sir John Digweed. A lenda britânica os suporta constantemente com lançamentos de um techno linear e pesado, porém, com camadas viajantes e vocais muito bem elaborados. O set dos espanhóis Pig&Dan foi do jeito que eu imaginei. Sem se mostrarem muito para pista, apenas foram mixando repetidamente uma pegada muito bem cadenciada, que após a segunda hora fez todos dançarem freneticamente com os olhos fechados; missão difícil.

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Foto: Gustavo Remor

As 20h30 iniciou no Warung Stage um dos artistas que mais tinha curiosidade em assistir. Oliver Koletzki sempre circundou minhas playlists de produções e sua gravadora é uma grande referência de música de excelente qualidade. Seu estilo introvertido e 100% focado nos equipamentos logo demonstrou que ele iria tocar um set previamente imaginado e muito bem definido; independente do humor da pista. Tocar após um DJ como Gabe não é simples, ou você acompanha o ritmo mais acessível ou recomeça a pista do zero. Sem surpresas, Oliver optou pela segunda opção. Seus primeiros 30 minutos foram de músicas muito marcantes, porém com pouco ritmo. Acredito que ele se estendeu demais em sua auto- introdução, porém, a segunda hora conseguiu fazer seu set evoluir em uma direção mais adequada a um festival. Gostaria muito de tê-lo ouvido em um club com um poderoso sistema de som e muito tempo para desdobramentos mais complexos de mixagem e construção sonora. Por fim, preciso ser sincero; esperava mais dele como DJ, ainda que suas músicas fossem maravilhosas e de meu agrado. Pensando com o coração de um público que estava sedento por muita energia, faltou uma entrega maior nesse aspecto.

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Foto: Gustavo Remor

Consegui ainda correr para o Garden e pegar os últimos 15 minutos de Gerd Janson e os primeiros de DJ Koze. Ambos tinham sonoridade para me fazer ficar e ouvi-los, porém meu planejamento era de ver o que Joris Voorn era capaz em uma pista de festival; que é sua especialidade.

O experiente holandês não decepcionou! Logo em sua primeira música deixou muito claro que o ritmo alto e as mixagens rápidas e surpreendentes iriam fazer parte da mesa. Joris é o tipo de DJ que dificilmente irá falhar; sabe ler a pista e entrega o que ela precisa. Seu carisma é rapidamente absorvido pelo público e seus efeitos nas mixagens me fizeram lembrar Ali Dubfire. O estilo de música até lembra um pouco o iraniano, porém com pitadas mais progressivas e melódicas, que são capazes de colocar uma pista de 5 mil pessoas em euforia introspectiva.

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Foto: Gustavo Remor

Em minha série para o blog do Warung Day, deduzi que por ser o último DJ da pista principal, Joris jogaria diversos clássicos que fariam todos se emocionarem. Entre tantas músicas de destaque, escolhi algumas que marcaram bastante na pista. “Bonobo” de Oliver Giancomotto foi a primeira que me despertou grande atenção, por sua sensação mais obscura. Logo mais à frente, o cartão de visitas dos vocais veio com “I Had This Things” de Yotto com remix de Joris, uma de suas obras mais reconhecidas. Encaminhando para segunda parte do set, finalmente os clássicos começaram a surgir. Without You” da banda U2 no remix de Chus Lopez trouxe um ar nostálgico e fez o público cantar junto. Outro remix seu para Yotto na faixa “Walls” também foi reconhecida por todos. Porém, o melhor estava guardado para o final. Não tive dúvidas quando ouvi One more Time”, de Daft Punk, em um remix bem dançante, que estava presenciando um dos grandes momentos em todos esses seis anos de Warung Day. Ver uma pista inteira cantando um dos maiores clássicos da dance music valeu por todas as horas.

Na finalização do set, Joris mostrou toda sua versatilidade ao puxar supreendentemente um dos maiores clássicos do techno em todos os tempos: “Spastik”, de Plastikman. Foi para os mais atentos exportarem para fora as últimas energias depois de muitas horas de música em alto nível. Joris encerrou seu set deixando um rastro de energia emocional por todos os lados e a sensação de que poderia se estender por mais algumas horas.

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Foto: Gustavo Remor

Como já havia demonstrado desde a primeira edição, o Warung Day Festival surgiu para ser referência de qualidade em todos os aspectos de sua realização, atraindo como nenhum outro festival no país incríveis 3 mil participantes estrangeiros de diferentes partes do mundo. Em épocas de constantes frustações com marcas que vêm ao Brasil apenas para realizar eventos financeiros, o Warung Day de Curitiba sobra em termos de organização, atendimento, estrutura e respeito ao público. Que venha 2020, já estamos aguardando.

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