Uma nova pesquisa britânica realizada pela Psychology of Music aponta que mulheres entre 40 e 65 anos continuam frequentando a cena de música eletrônica de forma ativa e consciente, encontrando nela benefícios profundos para a saúde mental, física e emocional — mesmo enfrentando preconceitos etários e de gênero.
O estudo, realizado com 136 mulheres clubbers (idade média de 47,6 anos), revela que a participação na cena vai muito além da nostalgia. Para a grande maioria, o clubbing se consolidou como uma prática central de bem-estar e pertencimento.
A principal motivação relatada pelas participantes é cristalina: a música. Mais de 56% colocaram o DJ, o artista ou o som como a razão número 1 para sair de casa. Em seguida aparecem o convívio com amigos já existentes, a atmosfera e o senso de comunidade. Encontros sexuais, por outro lado, aparecem como o motivo menos relevante (94% ranquearam em último lugar).
Quase 82% das entrevistadas frequentam a cena há mais de 20 anos. A maioria vai a clubes, mas também circula por festivais, festas em casa e, em menor escala, raves ilegais. Cerca de 20% ainda saem mais de uma vez por mês.
Os números sobre bem-estar impressionam: 91% das mulheres afirmam que o clubbing contribui positivamente para sua saúde geral. Dançar é descrito como forma de terapia, escape da rotina, “reset” mental e até experiência espiritual. Muitas relatam que, sem essa rotina de nightlife, sentem letargia, depressão e perda de identidade.
A grande maioria (92%) diz se sentir “em casa” nos eventos de EDM. Muitas relatam que a idade se torna irrelevante quando o elo é o amor pela música e pela dança. Ainda assim, nem tudo é harmônico: 21% já sentiram em algum momento que “não deveriam estar ali” por causa da idade, e parte delas evita clubs mainstream dominados por público jovem e cultura de bebida pesada, preferindo ambientes underground ou festivais com público mais diversificado.
Comentários positivos sobre “ainda estar na pista” são comuns (58%), mas olhares julgadores e a sensação de visibilidade incômoda também aparecem, especialmente para quem vai sozinha.
Apesar de 74% se declararem seguras nos eventos, quase metade (44%) já sofreu assédio físico (apalpadas ou pior) em algum momento da vida na cena. O assédio é associado principalmente a ambientes mainstream e consumo excessivo de álcool. Para se proteger, as mulheres adotam estratégias claras: vão em grupo, frequentam eventos onde conhecem DJs, promoters e seguranças, e escolhem com cuidado o tipo de festa.
A cena segue sendo um espaço poderoso de conexão. Quase 83% fizeram amizades duradouras e 77% têm amigos de todas as idades graças ao clubbing. Algumas, porém, relatam que com o passar dos anos fazem menos esforço para criar novas amizades, preferindo curtir a noite com o círculo já consolidado.
As autoras destacam que as motivações das mulheres mais velhas não são tão diferentes das de outros públicos: música, comunidade, dança e bem-estar. O que muda são as barreiras culturais ligadas à interseção entre idade e gênero. Enquanto homens mais velhos muitas vezes ocupam posições de poder (DJs, promoters, donos de clube), as mulheres ainda precisam negociar constantemente o que é considerado “comportamento apropriado” para a idade.
O estudo conclui que a cena de música eletrônica tem um potencial enorme de inclusão, mas ainda reproduz normas etaristas e sexistas em certos espaços. Entender essas experiências é fundamental para que a indústria noturna crie ambientes mais acolhedores, seguros e diversificados — beneficiando não só as mulheres acima de 40, mas toda a comunidade.
Por Adriano Canestri
