Por Jonas Fachi
Foto de abertura: divulgação
Os efeitos negativos da pandemia ainda ecoarão por alguns anos em meio a um cenário de crise global onde a vida noturna terá que renascer das cinzas. Desde março de 2020, DJs, produtores, managers, club staff e toda uma cadeia que envolve a cena musical se viu, de repente, sem renda. Sem opções, muitos se reinventaram e acabaram até se redescobrindo profissionalmente. Foi o que aconteceu com o brasileiro Pimpo Gama, DJ e produtor de destaque nacional com mais de 20 anos de carreira.
Como era de se esperar, muitos produtores aumentaram a produtividade no formato home office, e mais músicas precisaram do trabalho final de mixagem e masterização – processo de acabamento no qual a música é enviada a um estúdio profissional ou a um engenheiro de áudio que realiza os processos técnicos necessários para deixar o trabalho pronto para ser reproduzido em qualquer sistema de som com o máximo de qualidade.
Pimpo já fazia alguns trabalhos como engenheiro de áudio antes da pandemia e vinha estudando sobre o assunto há alguns anos, porém, a obrigação de todos ficarem em casa o fez se aprofundar e acelelar a complexa curva de aprendizagem para se tornar um profissional procurado por grandes produtores. Com uma precisão que surpreendeu até grandes mestres do assunto como Gui Boratto, Pimpo começou a “bater” a masterização de grandes estúdios americanos e europeus no comparativo, ou seja, o seu trabalho final feito em seu estúdio em Florianópolis estava ficando melhor do que o dos grandes players do mercado. Não a toa, ele se tornou engenheiro de áudio do Vintage Culture, e já fez trabalhos com nomes da cena comercial como Diplo e Calvin Harris.
Diante disso, a House Mag resolveu conversar com o multifacetado artista gaúcho para entender melhor como tudo isso aconteceu e e para falar melhor sobre esse trabalho tão importante dentro da dance music, afinal, aquela música com brilho intenso e batida macia que chega aos seus ouvidos na pista de dança, não seria possivel sem o trabalho final de mixagem e masterização. Confira!
HM – Olá Pimpo, muito obrigado pela entrevista. Fale um pouco da sua história antes de chegar onde está hoje, sua trajetória como DJ e produtor.
Olá amigos, muito obrigado pelo reconhecimento e pela oportunidade de trazer um pouco desse meu lado que até então era desconhecido por todos. Eu sou gaúcho e já há alguns anos moro em Florianópolis – SC, atuo como DJ e produtor, e sou aficionado por música, tecnologia, mixagem, masterização.
Sou DJ há mais de 20 anos, produtor de música eletrônica há outros tantos também e, por muito tempo, fui entusiasta de tudo que envolve produção musical e todos os seus processos, rotinas de estúdio, e essa paixão por muitos anos sempre dividiu meu coração com tocar.
A qualidade do som, produção, gravação, masterização, sempre foi um assunto que estudei diariamente, inicialmente pra aplicar nas minhas músicas, e depois de um tempo sempre tive o sonho de quem sabe um dia largar tudo e ficar fazendo só isso. A pandemia acabou me dando essa oportunidade de ficar mais em casa e aplicar todo meu conhecimento nas músicas dos outros artistas.

Pimpo Gama – Foto: divulgação
HM – Será que sem a pandemia, você talvez jamais teria focado e se descoberto como engenheiro de áudio?
Eu acredito que tudo era uma questão de tempo, fazer isso sempre foi aquele sonho distante, cada música minha era um grãozinho na construção dessa nova “forma” de escutar e interpretar o som. Já tem alguns anos que eu sabia que conseguiria chegar na qualidade que eu queria para as minhas próprias músicas, porém, não tinha experiência para caso fosse necessário trabalhar na obra de outro artista, tendo a mesma percepção e facilidade.
Durante alguns anos, eu comecei a ajudar amigos produtores a melhorar a finalização das músicas deles, sem cobrar nada, para ir cada vez mais entendendo a forma de cada um pensar e, também, entender as dificuldades que eu teria caso um dia optasse por me profissionalizar nisso.
Quando começou a pandemia, talvez ainda no primeiro mês, surgiram algumas oportunidades para mixar sons legais e, até hoje, não fiquei um dia sem fazer isso.
HM – Para conseguir mixar e masterizar músicas em alto nível é preciso uma sensibilidade muito acima da média. Você acredita que isso é dom ou um processo de repetição e esforço que podem ser alcançados por outros que já trabalham com suas próprias músicas?
Sabe aquela receita básica que escutamos em qualquer tutorial YouTube? Tenha paciência, estude, pratique todo dia, repita, refaça 10, 20 vezes se necessário, compare, respeite seu tempo e, certamente, o resultado vem.
Comigo não foi diferente, minha última mix certamente ficou melhor que há de três meses, e que também já estava melhor que as anteriores.
HM – Sabemos que muitos produtores acabam estudando e se aprofundando para fazer suas próprias masterizações e mixagens provisórias para testar na pista de dança ou pela falta de recursos para pagar um grande estúdio profissional. Qual foi o passo além que você acredita ter dado para seu trabalho começar a ter resultados comparáveis e até superiores aos dos maiores engenheiros de áudio do mundo?
Boa parte da resposta é bem o que está na pergunta, além de todo estudo e prática que tive durante anos, eu sempre tive como aliado ser DJ e ter oportunidade de testar o que eu fazia nas festas.
No momento em que decidi pensar profissionalmente nisso, eu comecei a me preparar para não depender de shows ou outros fatores para ter certeza de que o que eu estava mixando e acreditando realmente funcionaria em qualquer lugar.
“Hoje, os produtores me confiam uma parte muito importante da sua obra, que é dar o valor necessário a cada elemento que ele escolheu, tornar a mensagem clara e fazer com que isso funcione bem em qualquer lugar, seja no radinho, TV, celular e, também, na pista de dança”.
Com isso estudei (e sigo estudando) muito sobre todos os processos da produção, gravação, edição, acústica, a parte física do som até detalhes do comportamento do cérebro e ouvidos. Sem dúvidas, isso faz diferença no resultado final.

Foto: divulgação
HM – Quando se fala em estúdio e masterização, pode-se imaginar uma enorme quantidade de parafernalhas analógicas, equipamentos sofisticados de ponta, entretanto, o quanto é realmente importante ter estúdios de milhares de dólares para alcançar um trabalho de excelência? Fale um pouco sobre as ferramentas que você utiliza.
Bom, esse é aquele assunto sem fim, hardware analógico vs plugins. Eu passei por diversas fases e setups diferentes no meu estúdio, por muito tempo gastava tudo o que eu ganhava tocando em equipamentos, tanto na produção quanto para mixagem e masterização.
Temos o costume de pensar que tudo que é mais caro é melhor, porém, no áudio essa regra às vezes pode dar errado.
Eu já fiquei por anos guardando grana para comprar um mega compressor de masterização, que seria o `game change` na minha música, um grande equalizador. Eu listava as lojas de equipamentos por ordem de preço para ver direto os mais caros, mas, na prática, isso nem sempre funciona.
Eu poderia ficar horas e horas falando sobre isso, porém, resumindo, hoje, se eu tivesse que começar do zero, eu me preocuparia em estudar sobre tudo, entender o que cada coisa faz, a aplicação e os motivos que levam a isso, para primeiro dominar tudo isso dentro do computador.
A diferença do hardware para o plugin que o emula é sutil, e pra 99% das pessoas isso pouco importa ou poderia falar que seria imperceptível. Um bom entendimento dos plugins, uma sala com uma acústica boa, um bom fone de ouvido são o suficiente para chegar a resultados incríveis.
HM – Você mencionou que já fez trabalhos para outros gêneros, do sertanejo ao gospel. O quanto esses estilos distintos te ajudaram a melhorar a percepção na música eletrônica? Eles são mais fáceis ou difíceis de alcançar o resultado comercial de alto nível?
Sabe que eu acho isso um pouco engraçado, às vezes as pessoas que me acompanham um pouco no estúdio ficam assustadas porque acordo mixando um techno, de tarde masterizo um disco gospel, depois uma música infantil (na verdade eu também acho um pouco estranho). [rs]
Isso talvez seja meu lado “zen” da vida, eu me encanto tanto com o som, em como resolver cada coisa que me incomoda, e meu foco vai para onde eu quero. Quando pensamos no cantor, as pessoas vão pensar na letra da música, no timbre da voz, e quando estou mixando ou masterizando, eu busco coisas completamente diferentes, como onde eu vejo ele na sala, se todas as palavras estão em perfeito entendimento, se em algum momento ele não desafinou, se não tem barulho da boca, e fico horas e horas trabalhando na faixa, e no final não sei sobre o que se trata. [rs]
Às vezes escuto sons que trabalhei na rádio e alguém me fala, você que mixou isso? Aí eu fico pensando será? Porque, na verdade, direciono minha atenção nos processos que preciso dominar e resolver.
E é claro, tudo, tudo que aprendemos e experiências que vivemos de alguma forma refletem no que você transmite na sua música quando se senta para produzir.
HM – Você pretende canalizar toda a sua energia nesse mercado agora em diante, ou ainda tem desejo de estar em cima do palco e lançando músicas como artista?
Essa pergunta mexe com tanta coisa, tantos sentimentos. Quando chegou a pandemia, eu estava vivendo o momento mais incrível da minha vida na música. Minha música “Let’s Play it Again” era um hit, eu estava com collabs prontas para 2020 com alguns artistas e produtores do mundo, aqueles que mais admiro, turnê no exterior marcada, então ficou aquele gostinho de quero mais.
O palco e a estrada são ferramentas incríveis para a engenharia do som de música eletrônica também, muda totalmente a perspectiva de visão do trabalho ouvindo a música ser tocada. Então, certamente, tenho muita coisa para fazer ainda.
HM – Como você se vê daqui há 10 anos dentro da indústria musical?
Se sua pergunta fosse no início da pandemia, talvez eu nunca arriscaria responder que em 10 anos estaria trabalhando com artistas tão incríveis como estou hoje.
Uma coisa que a maioria das pessoas que trabalham com algum tipo de arte tem oportunidade é de eternizar seu nome e sua história na vida das pessoas. Espero que em 10 anos, de alguma forma, grandes coisas que estamos fazendo pela música sejam lembradas.
