(EXCLUSIVA) Solomun, mais real do que nunca: produtor conta detalhes de Nobody Is Not Loved

Por Lu Serrano

Foto de abertura: Chino Moro

Solomun integra um seleto grupo de produtores que fazem poesia. Possuem um processo de construção musical que vai muito além de kicks, syths, timbres, mas uma melodia que percorre narrativas e sentimentos. Uma inspiração movida a pessoas reais, ao olho no olho, a pulsação que percorre as veias dos apaixonados pelas pistas de dança e pela música. Um romântico à moda antiga que não dispensa o calor da presença!

Em tempos cada vez menos analógicos, o produtor preserva as vibrações e, após 12 anos do lançamento do seu primeiro álbum, “Dance Baby”, apresenta seu novo trabalho, mais real do que nunca, movido à interações e fortes mensagens sobre o poder da música.

Ao todo, entre as 12 faixas de “Nobody Is Not Loved”, que se cruzam em perfeita harmonia entre as frequências do dancefloor e as nuances adjacentes a esse território musical, oito são colaborativas, sendo cinco delas acompanhadas por um delicado material audiovisual produzido especialmente para cada single.

Mladen Solomun conversou com exclusividade com a House Mag e contou detalhes sobre o álbum lançado por sua nova gravadora, NINL, abreviação de “Nobody Is Not Loved”, criada especialmente para permitir a livre criação do produtor, despida de expectativas ou imposições.

Capa da 34ª edição da revista impressa da House Mag, Solomun também explicou sobre a sua ausência na temporada de transmissões, sobre o que tem feito durante esse período e deixou uma mensagem especial para os fãs brasileiros.

Como bons anfitriãos, sugerimos que essa entrevista seja “degustada” ao som de “Nobody Is Not Loved”. Aproveite do início ao fim!

HM – Você tem trabalhado no seu segundo álbum, “Nobody Is Not Loved”, pelos últimos três anos. Conta pra gente sobre ele e sobre esse profundo mergulho sonoro que você nos deu. Qual a delicada mensagem, e sempre rica em detalhes, por trás?

Desde o início, o meu objetivo foi não fazer um álbum puramente de dança. É claro que eu sempre estou de olho na pista de dança porque é de onde eu venho, mas diferentemente do meu primeiro álbum, onde eu trabalhei quase inteiramente sozinho, em “Nobody Is Not Loved” eu quis colaborar com diferentes artistas e experimentar gêneros externos mas adjacentes ao meu território musical.

Resumindo, basicamente a mensagem já está criptografada no título: “ninguém não é amado”. A questão é: quem seria capaz de tal afirmação? A resposta: apenas a própria música.

 

“A música tem o poder divino de trasncender cada pessoa, não importa quem seja, de onde venha ou no que acredite. A música luta contra todos os poderes que tentam suprimí-la ou que tentaram ao longo da sua história”.

 

HM – Existem várias colaborações neste novo trabalho. Você é um produtor que sempre abre as portas para novos e “velhos” parceiros. Conta pra gente sobre as collabs no seu novo álbum.

Tem sido um prazer absoluto colaborar com diferentes artistas no álbum. De fato, quase dois terços do álbum (8 de 12 tracks) são collabs! Eu geralmente começo fazendo os instrumentais sozinho, com alguém específico na minha mente. Claro que para esse projeto havia algumas pessoas que eu já sonhava em trabalhar junto há um bom tempo. E então, eu trabalho, trabalho e ajusto até sentir que isso é algo que o artista que eu tenho em mente também poderia se encaixar.

Para algumas faixas havia ideias de texto gerais flutuando, para outras nós tinhamos as letras finalizadas, e para outras deixamos os artistas vagarem livremente. “Planningtorock” é um exemplo e agora se tornou uma das minhas faixas favoritas do álbum! A energia é tão genuína, que me emociona toda vez que eu a ouço.

“Tuk Tuk”, por exemplo, foi inspirada inicialmente pela vibe e estética de Rosalía (a cantora). Nós entramos em contato com o seu management mas não funcionou porque ela estava no meio do processo de produção do seu álbum. Em um curto período de tempo ela se tornou extremamente famosa e isso não encaixava tão bem mais. De qualquer forma, eu queria faixas com potencial de versatilidade, o que eu acho que deveria ser permitido em um álbum, mas não com qualquer grande nome do mainstream no mundo – você não quer que esses nomes abafem a faixa em si.

Então, uma outra cantora da Espanha me chamou atenção, começamos a conversar, encontrar, mas, entretanto, ÄTNA, com que estávamos gravando outra faixa, fez um improviso no instrumental de “Tuk Tuk” que simplesmente nos surpreendeu, então nós escolhemos ir para essa direção e continuar com Inez em “Tuk Tuk”.

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Solomun e Jamie Foxx – Foto: divulgação

Jamie Foxx é uma exceção, é claro, pois ele é um ator reconhecido mundialmente, e não primeiramente como cantor. Em “Ocean” eu não queria trabalhar com um grande nome do r&b por exemplo.

HM – No meio do processo de produção do seu novo álbum, fomos interrompidos por uma pandemia global. Como isso refletiu no trabalho final? Houve mudanças no álbum ou em alguma área da sua produção criativa?

Na verdade, o processo de produção já havia começado há alguns anos. Nós estávamos no processo de finalização da criação do álbum e nas últimas etapas de finalização e polimento da faixa, prestes a distribuir e lançar. Então, a pandemia veio e ninguém realmente sabia quanto tempo iria durar, então pausamos por um momento. Mas, vendo que estava se tornando cada vez mais imprevisível, decidimos seguir em frente. Nós tínhamos tudo pronto e planejado, trabalhamos por tanto tempo nisso que decidimos apenas seguir. Já era tempo.

HM – “Nobody Is Not Loved” foi lançado em maio, pela sua nova gravadora. Conta pra gente sobre seu novo selo com a BMG.

Bom, nós estávamos conversando com algumas gravadoras para ver onde iríamos lançar o álbum, e o processo demorou bastante. Tivemos várias propostas excelentes, mas de alguma forma, nunca parecia ideal. No final das contas decidimos criar uma nova gravadora chamada NINL (abreviação de “Nobody Is Not Loved”) para esse projeto, afim de nos despir de todas as expectativas e conotações que algo desse tipo possa ter.

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Foto: divulgação

Tenho a minha própria equipe principal, pessoas que venho trabalhando por anos e anos, e que têm a mesma visão que eu tenho, e foi o passo mais libertador que poderíamos ter dado para isso. Além disso, temos uma forte ligação com toda a infraestrtutura de distribuição da BMG, o que é ótimo.

HM – A ideia inicial do lançamento do álbum era um clipe para cada faixa. Como eles se conectam um ao outro? Você pretende extender para todas as 12 tracks?

Na verdade, a ideia era ter um video para cada single, cinco no total (“Home”, “Kreatur der Nacht”, “Tuk Tuk”, “Ocean” e “Night Travel”), não cada faixa do álbum. Para mim, é a primeira vez que eu realmente uso o recurso do filme para contar a história do meu álbum. É uma experiência completamente nova e estou me divertindo trabalhando com grandes filmmakers ao redor do mundo.

E não apenas isso: a ideia é que depois de ter a música para ouvir e os vídeos para assistir, estamos planejando uma exibição junto com o Art Basel para realmente proporcionar para as pessoas a experiência de “Nobody Is Not Loved”.

HM – O primeiro single e clipe não poderiam ter vindo em melhor hora. “HOME”, lançado no ultimo ano, trouxe um forte sentimento e reforçou a importância do calor de estarmos “em casa”, com os corpos vibrando na mesma energia. O clipe tem váras salas e clubs icônicos pelos quais você já passou. Como você escolheu cada local? Como foi ver esses espaços vazios?

 

“O que importava para mim era escolher ambientes nos quais a música acontecesse. Não apenas música club, mas todos os gêneros, como a música clássica no Elbphilharmonie em Hamburgo, ou punk rock em algum local de Berlin, porque a música está em todo lugar”.

 

Claro que o foco está nos clubs, porque são nesses espaços que eu particularmente tenho mais conexão. Lugares que eu já toquei, que eu já me diverti muito. Então, o Warung Beach Club foi uma escolha natural para mim, eu tenho tocado lá por mais de dez anos e para mim é um dos melhores clubs do mundo.

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Foto: divulgação

Acho que todos podemos concordar que ver isso, ver algo que nos foi tirado, evocou um sentimento de memória, melancolia, desejo, até mesmo dor e tristeza.

HM – Enquanto diversos artistas se comunicaram através de lives, você preferiu esperar pelo momento em que você pudesse estar presente, ainda que de forma diferente, como os tempos atuais exigem. Por que você fez essa escolha? Como foi voltar depois desse tempo para a transmissão na Suíça? Como você se sentiu?

Foi muito confuso para todo mundo, para mim inclusive, eu realmente não sabia como lidar por um bom tempo. Tenho visto grandes colegas que começaram a fazer livestreams em suas casas ou em clubs vazios – e é claro que pensei em fazer essas transmissões várias e várias vezes para dar à mim e às pessoas lá fora um pouco de alegria e esperança. Porém, decidi não fazer uma transmissão ao vivo isolada porque não acredito que o digital possa substitutir o analógico.

É claro que sou amigo das possibilidades digitais, se elas complementam ou amplicam o mundo real e analógico. Mas, se elas deveriam substituir o mundo analógico eu vejo que não posso concordar com isso.

“Talvez eu seja muito antiquado ou muito romântico. Eu não consigo me imaginar tocando em uma transmissão ao vivo sem sentir as pessoas, suas reações, suas necessidades, suas vibrações – sem a fusão”.

 

Eu e meu time temos trabalhado com a possibilidade das pessoas se reconectarem através da música para organizar um evento. Tentamos fazer uma parceria com um supermarcado em Hamburgo, tivemos sinal verde para criar uma experiência para 80 pessoas em um conceito especial no qual todos foram testados, mas, infelizmente, as autoridades não permitiram no final.

Durante esse tempo, estivemos em contato também com nossos amigos do Nordstern Basel, e sabíamos que dois meses depois teríamos a chance de fazer o que nenhuma autoridade alemã permitia na época: um pequeno evento com público real e transmití-lo ao vivo.

Porque eu acredito que a beleza de uma transmissão não está em ver a performance do DJ, mas, também, ver a interação entre o DJ e a multidão. Quando há esse ímpeto entre os dois, quando as pessoas estão engajadas e se perdendo na música – é o que eu amo. Era incrível estar de volta.

HM – O que você tem feito ao longo desse período sem eventos e turnês? Você conheceu novos artistas e sons?

Eu estaria mentido se eu dissesse que não gostei desses momentos mais tranquilos no primeiro lockdown – apenas para acalmar e relaxar. Mas essa paz e tranquildade não durou muito tempo porque, claro, essa coisa toda está durando muito tempo e eu sinto falta de fazer turnês e tocar. Tentei voltar para outra coisas como finalizer o álbum, para o qual felizmente tive mais tempo. Eu também mergulhei completamente na realização dos vídeos, claro, em colaboração com grandes diretores e produtoras.

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Foto: Solomun/Instagram

HM – Mal podemos esperar para retornar para a nossa “casa”. Você conseguiria pensar em uma faixa que não poderia faltar no seu primeiro show quando tudo voltar? Tem algum significado importante? Qual a faixa e por que?

Essa é uma pergunta difícil porque eu ainda não sei onde ou quando esse retorno vai acontecer. Pode ser daqui há um mês, mas, também, pode não ser, quem pode realmente dizer. Mas o que eu sei é que um simples kick drum nunca teve tanto significado como nesse caso.

HM – Os fãs brasileiros estão com saudades. Você pode enviar uma mensagem para nós?

Essa é uma pergunta que sempre me deixa melancólico, porque o sentimento é absolutamente mútuo. Só posso esperar e rezar para que em breve tenhamos a chance de compartilhar belos momentos.

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