The Art of Clubbers apresenta Carlos Capslock

Por Dada Scáthach

Foto de abertura: Annyl Lynna por Cognição Eletrônica

A festa que hoje é uma das principais referências na cena underground de música eletrônica passou a re-significar perímetros urbanos em 2011. O personagem Carlos Capslock, de Paulo Tessuto, também nomeia o rolê que é conhecido pela autenticidade excêntrica, grandes aglomerações e experiências únicas. Em seus nove anos, continua ganhando notoriedade ao ir contra o previsível e inovar espaços dentro e fora das paredes.

O que começou como brincadeira entre um grupo de amigos amantes de clubs, hoje, toma conta das redes sociais com mais de vinte mil seguidores fiéis. Dependente da indústria farmacêutica, nerd e designer de teclados na era do touch screen, a figura loira que foi encontrada na internet abriu portas para que outras pessoas também pudessem remodelar parâmetros através da arte e criar novas versões de si mesmas, deformando e levantando opiniões.

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Foto: Cognição Eletrônica

O movimento underground sempre foi convidativo. A proposta de encarar a cidade como um polo a ser explorado levanta questões sobre a utilização de espaços públicos e o dever da construção urbana como fortalecedora de conexões interpessoais. Unindo pautas e realidades diferentes, as festas conhecidas pelo som sintético são ambientes preenchidos por conteúdos mais profundos do que se vê nas roupas, luzes e batidas estranhas. Foi nessa mistura de essências que Tessuto viu a chance de ser um colaborador do nicho e apresentar novas visões de fervo.

“Todes estamos em estado de evolução constante, temos que nos desconstruir todos os dias e aprender com nossos erros e a nos reeducarmos quanto a tudo que nos foi proposto e ensinado num modelo patriarcal, racista, homofóbico, sexista e opressor. A cena eletrônica pode me colocar em contato com cada vez mais pessoas que vivem uma realidade diferente da minha e assim me fazendo enxergar todas as dificuldades que eu não vivo por ser uma pessoa privilegiada,” diz Tessuto à HM.

As edições idealizadas por ele – e que somam 150 cooperadores no backstage -, têm uma curadoria minuciosa a fim de criar a estética específica do rolê. Artistas visuais e performers como CeCe Grace, DI VINA KASKARIA, Elloanigena Onassis, Modular Dreams, OKOFÁ AKA Renato Sabino, Ronalda Bi, TRINITAS e Walmir Sparapane mostram a aproximação da realidade com o mundo lúdico, levando a resultados que causam reflexão sobre o preenchimento da capital com corpos e corpas distintes. Para Mondrian, a natureza necessita do artista enquanto for imperfeita – o artista, sendo assim, age como chave para mudanças.

Os DJs residentes (Belisa, Due, Ella de Vuono, L_cio,  Max Underson, Paco Talocchi, Shadow Movement, Stroka, Tessuto, Sebastian Voigt) comandam o som que balança entre o house, techno, pop disco, juntamente com outros artistas da cena nacional e internacional – como Belisa e Michael Mayer. Apesar da ansiedade e preocupação pré-rolê, a conclusão é sempre especial.

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L_cio e Sebastian Voigt – Foto: Felipe Gabriel

“Para a construção da identidade da Caps eu me espelhei muito [em] Berlim e Amsterdã. Essas duas cidades se relacionam diretamente com São Paulo por serem cidades onde muitos artistas residem e serem notórias pela vida noturna extremamente ativa”. As narrativas construídas unem-se aos universos singulares que ocupam galpões e ruas de SP. Mantendo-se antenada na política, a festa não só satiriza o(s) momento(s) atual(is) a fim de distrair, como também trabalha a conscientização dos clubbers em prol uma sociedade mais inclusiva, igualitária e menos preconceituosa. 

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Paulo Tessuto – Foto: Cognição Eletrônica

O maior desafio ao enfrentar o isolamento causado pelo Covid-19 é inovar em alternativas para manter a staff e o público com o espírito em caixa alta. Recentemente, esse momento foi registrado no primeiro documentário da Troikka Studio, Puta Dor, e conta com a participação do idealizador ao lado de festas e coletivos como Mamba Negra, Teto Preto e Masterplano.

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