Planet Glen 03: como quebrar conceitos e desenvolver seu próprio estilo?

Por DJ Glen

Um ponto que sempre ouço as pessoas dizerem ao meu respeito é que minha personalidade está presente em todas as minhas tracks, sendo fácil identificá-las. Em algum momento, isso não foi um elogio propriamente dito e, às vezes, ainda ouço que sempre uso os timbres parecidos que saem do interlocutor como uma crítica, mas chegam aos meus ouvidos como um elogio, pois me esforcei muito com o tempo para desenvolver este “sound design”.

Criar algo único não é tão difícil assim, mas, desenvolver algo único e que as pessoas gostem ou aceitem, aí já é outra história e tem haver com suportes, sim, suportes de quem já viu muito mais do que seu público desejado. As lendas da música não surgem do dia pra noite e não estão aí por acaso, praticamente todas elas têm uma importância grande para um todo global e já viram muitos e muitos ciclos acontecendo na música, entre novos estilos e clássicos fazendo aquela onda artística sinuosa que aprendemos na escola (se você não matava aulas).

Uma coisa que todos estes gigantes da música que estão anos no mercado fizeram e fazem sempre é ouvir novos talentos. Eles estão aptos a verem qualidades em uma demo que uma pessoa normal não enxerga e por isso é importante focar o trabalho em achar o seu grande supporter.

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Foto: Recreio Clubber

Para entrar em um mercado competitivo, será muito mais fácil se vier com uma inovação, pois exige menos investimento e ela será aceita se tiver um cara grande, de outro universo, falando que é bom, assim até mesmo quem não acha bom, vai começar a achar e isso acontece o tempo todo, opiniões musicais mudam sempre, pode procurar dentro da sua cabeça mesmo, quantas músicas já ouviu e não gostou e depois por algum motivo começou a amar?

Tudo isso é bem óbvio e nem precisamos refletir muito pra concluir, mas, e agora, como atingir esses gigantes? Todo músico tem suas referências e se quer agradar algum big name em questão pesquise suas pérolas, assista entrevistas também, todas que existirem, analise como ele pensa, se possível compareça a algumas apresentações e fique analisando friamente seus movimentos, cheque as qualidades dos sons que ele toca e por aí vai. Conhecendo profundamente o artista e seus gostos vai encontrar uma maneira de agradá-lo. Dentro disso não esqueça de se basear em alguns trabalhos já realizados e disfarce as partes que copiar na caruda, acredito que com um conhecimento médio de produção uma hora o suporte virá, de um jeito ou de outro.

Do suporte até chegar ao lançamento de um EP, ou tocar nos festivais das gravadoras das lendas vai um longo caminho. Provavelmente, não existe nenhum gênio musical num quarto fechado que dependa única e exclusivamente do talento para alcançar um objetivo sem correr atrás, então o jeito vai ter que ser analisar a maneira como a gravadora trabalha novos artistas, respeitar o método de crescimento dentro dela, um pouco de sorte e aí sim um talento saudável para ter com o público da gravadora a aceitação que vai fazer o newbie crescer, às vezes pode ser até bem rápido, o mundo da música guarda também algumas surpresas.

Normalmente, uma gravadora grande lança um ou dois EPs por mês, e alguns VAs (vários artistas) durante o ano. Salvo exceções, os artistas novos entram em um VA, tendo destaque em um VA vão pra outro VA, e outro VA, até fazerem algo notável que nos testes já se mostram cobiçados entre os DJs e muito bem aceitos na pista, aí é um alerta de bomba que a gravadora estava esperando e assina-se o EP. Com o EP lançado indo bem, a relação esquenta possibilitando um outro futuro EP ou abertura nas portas de outras gravadoras similares, a concorrência valoriza o artista ainda mais e seguindo a lógica da evolução nas tracks e um futuro promissor, o teste passa a ser presencial, com o DJ Set sendo contratado em algum evento próprio.

No evento o artista tem que vender tickets ou no mínimo agradar muito em sua apresentação, que fará ele voltar e está feito o ciclo, que pode ser quebrado a qualquer momento por esfriamento das produções ou concorrência mais evoluída, segue o baile. É bom cada artista com um certo tamanho no mercado abrir a própria gravadora e trilhar um caminho paralelo independente, é o que normalmente acontece, inclusive foi assim com os big names e assim você pode ser o big name que as pessoas sonham em ter um suporte e que fazem a diferença em como as pessoas absorvem a sua música.

O exemplo de cima já aconteceu comigo algumas vezes, somente uma delas chegando até o ponto de ser convocado três vezes para me apresentar em outro país (Dirtybird). Cada vez que isto aconteceu eu senti a opinião das pessoas mudarem sobre o meu trabalho.

Em 2009, eu era praticamente um louco fazendo sons no meu quarto e que quase ninguém gostava, até que ganhei um concurso de remixes do Resident Advisor, isso foi bem grande na época mas pouquíssimos sabiam a grandiosidade do feito no Brasil e foi internacionalmente que o respeito rolou de fato. Respeito que fez naquela época os maiores DJs do mundo conhecerem o meu nome e tocarem o remix até hoje! Abriu portas em outras gravadoras e fiquei lado a lado com produtores que eram lendários. Tenho certeza que este conhecimento fez um DJ em especial ficar de olho em todos os meus lançamentos e foi onde a segunda track minha rodou o mundo, o Boogie Mafioso, nas mãos inicialmente do Maceo Plex que em 2013 estava decolando. Esta track muito provavelmente foi a porta de entrada para lançar em um VA da Dirtybird, pois quando mandei a demo pra lá eu sabia que o Claude VonStroke conhecia meu trabalho e logo de cara ele respondeu que tocou tanto a track que tinha feito um edit próprio e que considerava como se fosse um clássico da Dirtybird, mesmo tendo sido lançada por uma gravadora minúscula de São Paulo.

Só fui ter uma track com a assinatura da DB em 2015 e com ela segurei muito espaço que tinha conquistado com o “Boogie Mafioso”, em 2016 assinei outra, em 2017 outra, e 2018 fui convidado a tocar no festival nos EUA, com minha track sendo o tema principal e assim dando um crescimento absurdo pra minha carreira por aqui.

Em 2019 veio a bomba, “Another Planet”, uma track desenvolvida para uma pista brasileira com necessidade de ter um nível internacional e ser destaque de festival que conquistou o mundo, provando que o motivo de todos estarem de olho nos talentos que estão aqui, na minha opinião, é a dificuldade de sobreviver em um meio tão agressivo musicalmente e não sei se posso dizer, terra sem lei de direitos autorais e chuvas de bootlegs, que estão finalmente vendo um fim.

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