Há um mês após publicarmos o primeiro conteúdo escrito por DJ Glen aqui na House Mag, no qual ele relembrou sua história com a Dirtybird. Agora, o DJ e produtor voltou inspirado para falar justamente deste tema: inspiração. Ajeite-se na cadeira e curta a leitura, porque com certeza você poderá tirar bons insights deste conteúdo.
Inspiração! Cadê você!?
Por DJ Glen
Muitos anos já se passaram desde que comecei a aprender a produzir. Neste processo (que leva a vida toda), uma quantidade razoável de material, alguns possivelmente bons e casos extraordinários foram concluídos. Mas, e aí? Como faz pra continuar produzindo e evoluindo? A resposta está na frase anterior: focar no aprendizado. Então, cada oportunidade de fixar as ideias em uma track é uma evolução, e isso é bem inspirador. Posso ter ido longe demais na filosofia da coisa, então, vou dar alguns exemplos de situações que me inspiram.
Quando estava começando a produzir, não sabia absolutamente nada de música, eu ficava observando as tracks que mais gostava e tentava entender o que estava acontecendo ali. Conforme ia tentando recriar partes da música, aprendia como o produtor poderia ter feito e, neste processo, sempre terminava uma track. É bem assim até hoje e isso não se chama cópia, mas, referência, não existe música sem referência e, logo, quanto mais músicas novas e diferentes eu ouvir e estudar, mais minhas próprias produções ficarão ricas e criativas.
Por esta lógica percebi que as referências que eu tinha também tinham as suas próprias referências, que era mais interessante ainda se caso eu quisesse soar tão original quanto minhas referências. E ainda havia as referências das referências das referências [risos], e assim por diante. Grato pelos livros escritos sobre música.
Algo que percebi com anos estudando diversos estilos musicais, é que todo gênero tem suas obras monumentais, que, certamente, deram à ele notoriedade. E quando vejo alguém reclamar de algum gênero inteiro, ou até odiar, sinto uma pena tremenda da ignorância e falta de pesquisa do cidadão, porque tudo tem sua hora e lugar ideal para ser ouvido e o profissional que tem o poder de visualizar e escolher isso é o DJ. Não existe música ruim, ela só precisa estar na hora certa e no lugar certo, tocada para as pessoas certas. Lembrando que toda regra tem exceção e, algumas vezes, a hora certa é nunca e o lugar certo é bem longe daqui.
Não vou negar que em toda minha adolescência odiei axé e sertanejo pop, ainda olhava para as pessoas que consumiam aqueles estilos, as danças, e achava o meio vulgar de comunicação sexual patético, foi uma grande evolução pessoal o dia que ouvi um som ou outro dali que tivesse alguma grandiosidade, mas, de certa forma, este ódio foi um divisor de águas social, porque eu nem conversava com alguém que eu soubesse que fazia aquelas danças horríveis, bom que já passou.
O direcionamento social é um fator primordial na hora de ter as ideias mágicas, toda música é uma mensagem direcionada à alguém, se o produtor não tiver uma mensagem pra falar, é melhor estudar mais. Na música dance, a mensagem pode ser muito simples, dance. Existe uma imensa grandiosidade em fazer fazer as pessoas dançarem, mas será que somente isso vai fazer seu trabalho ser inesquecível?

Foto: Flash Painting
Há uma grande massa de pessoas querendo fazer mais pessoas dançarem, e o jeito de se destacar na multidão e arrumar uma maneira de, além da dança (no meu estilo de produção), atingir a alma da pista e criar aquele momento único, difícil de explicar, mas, que pode ser chamado simplesmente de vibe.
É sabido que os dois hemisférios do cérebro agem de maneira diferente, mais ou menos sendo um pela razão e outro pela emoção, este equilíbrio deve ser seguido na hora de produzir um som. A música é matemática que produz sentimentos, tá aí o equilíbrio que faz a evolução técnica do produtor influenciar mais nas pessoas que ele atinge, mas se ele desequilibrar e não ter uma mensagem de vida para elas, é vago.
Uma maneira de ficar mais criativo é tirando a monotonia da sua vida, mesmo que em coisas pequenas e mecânicas que fazemos na rotina, se quiser criar coisas novas não podemos seguir o mesmo caminho que já seguimos antes. Valorizo muito as experiências como forma de trabalho, sabores novos na comida, viagens a lugares novos, conhecer pessoas diferentes e quanto mais isso é distinto do que sou acostumado a fazer, mais minha cabeça trabalha formas de chegar em um resultado musical único e, claro, com uma mensagem a se passar.
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Um ponto essencial que atrapalha muito a criatividade e inspiração é a maldita zona de conforto, eu tomo muito cuidado com ela, está relacionada com monotonia e rotina, quando me sinto muito à vontade com que estou fazendo, confiante, é quando na verdade estou ficando pra trás, assumir riscos faz parte da evolução e se tens problema com feedback negativo, talvez, seja um ponto a evoluir. O mundo da música é recheado de pessoas que sentem prazer em te jogar pra baixo, negando as qualidades de algo que quebra conceitos e fazendo o autor desacreditar do próprio trabalho, essa é uma força que os artistas têm que fazer contrária a este movimento, se preparar, pois acontece com todo mundo e se não acontecer, desconfie.
No final é apenas música, não existe objetivo, é tudo um caminho, desde a produção à execução e o melhor que podemos fazer é curtir cada momento do processo e se divertir, pois essa é a melhor mensagem que uma track de dance music pode transmitir.
