Por Maria Angélica Parmigiani
Foto de abertura: ZOOE
Mesmo 2020 sendo um ano meio fora da curva para todos nós, em algum nível, não podemos só enxergar o lado negativo das coisas. Há sim coisas importantes e valiosas acontecendo ao nosso redor o tempo todo. Com certeza, quando o ano começou, Higor Nezello não imaginava que comemoraria seus 10 anos de carreira em meio a uma pandemia global. Ok, não é o melhor cenário, mas, isso não pode tirar o mérito de celebrar suas conquistas e se orgulhar do caminho traçado até aqui. É um ciclo importante e merece ser registrado sem baixo astral, frequência essa que não combina com o artista em questão.
Nezello é um dos idealizadores da festa independente Seas, bastante famosa no litoral catarinense, integra o cast de artistas da D Agency, e já teve a oportunidade de tocar em clubs como Warung, Vibe, Terraza, El Fortin e P12 Jurerê, para citar alguns. Por essa razão, hoje vamos quebrar o protocolo e trazer uma entrevista em um formato diferente do convencional, revelando histórias e fatos sobre ele que são inéditos, tudo em um clima leve e divertido para romper um pouco desse clima que nos cerca.

Warung Beach Club – Foto: divulgação
Brincamos com um “ping pong” de perguntas e respostas com ele e o resultado é uma sequência super divertida e, ao mesmo tempo, inspiradora e honesta por parte dele!
HM – Como foi o seu primeiro contato com a música eletrônica? Lembra quem tocou na primeira festa que você foi?
Ruan Suiço, artista veterano de Joinville, era amigo do meu irmão e tive mais contato próximo, aprendi a tocar com Jeison Torres, também grande artista da região. Após isso, na primeira festa que fui, quem estava tocando era Gui Boratto, Gustavo Bravetti e Aninha, na Adore.
HM – Quando você sentiu que isso seria mais que só diversão? Qual a experiência te fez enxergar a discotecagem de uma nova ótica?
Quando percebi que quem está ali para te ver tocar muitas vezes não te conhece, certamente essa pessoa pagou para se divertir e você tem responsabilidade de fazer isso, me vi no direito de tornar isso mais sério e ter responsabilidade sobre a felicidade e momentos de cada um que está presente no local no qual me apresento. Percebi isso quando certa pessoa me reconheceu na pista do Warung
Essa pessoa me perguntou se eu era o Nezello, que havia tocado em Jaraguá do Sul. Após eu dizer que sim, ela falou que foi uma das melhores festas da vida dela, que se divertiu muito e foi onde ela conheceu o seu primeiro amor. Aí vi a grande influência que nós artistas temos na vida de cada um que se conecta conosco de alguma forma.
HM – Qual foi a primeira experiência como DJ e como foi esse dia?
Foi numa festa de aniversário privada, o artista contratado era Victor Ruiz (não muito conhecido na época) e Vogue (Gui Arruda). Foi especial e trágica [risos]. O aniversariante não colocou ingressos à venda e com a correria de organizar toda a festa no club da cidade (Mansão Music Theater), esqueceu também de avisar seus amigos e convidados do aniversário/festa. Sim, isso mesmo [risos]. Por fim, por ser uma data que o club geralmente estava aberto, algumas pessoas apareceram e liberaram a venda de ingressos na hora. Não sei se chegou a ter 30 pessoas no evento.
HM – Quem são seus ídolos nesse rolê (nacionais e internacionais)?
Todos aqueles que fazem por amor e sabem da sua importância como referência no processo criativo de alguém que o idolatra.
HM – Qual foi o maior desafio no quesito preparar a pista para entregar para um super DJ?
Fazer com que minha apresentação seja notada e assistida de forma intensa e detalhada, mas, sem que ofusque ou que o artista em evidência perca seu brilho. Porém, de forma mais intimista, tento criar momentos que fiquem na memória de quem assistiu, mesmo após a apresentação deste artista.

Warung Beach Club – Foto: divulgação
HM – Como foi que você caiu na produção de eventos?
Comecei a tocar com 16 anos em uma festa de um amigo (Jean), no final, eu ajudava a fazer também o evento dele acontecer abraçando a causa e não só tocando. Após alguns meses, recebi o convite de realizar os eventos da House Mag em Joinville, ainda com 16 anos. Depois de seis edições, foquei na carreira e me mudei para Balneário Camboriú e aí, entrei de cabeça nos projetos de produção dos próprios.
HM – O que te levou a criar a Seas? E quais são os diferenciais que hoje você enxerga na festa?
Estar saturado apenas de festas pensando nos DJs que tocam e que esquecem da experiência para gerar ao consumidor dos eventos. Hoje, vejo que a temática e storytelling da marca faz com o que criamos tenha vida e uma história verdadeira por trás de cada edição.

Seas 2 anos – Foto: ZOOE
HM – Nesses 10 anos de carreira, algum erro que você tenha cometido que serviu como uma grande lição?
Foque em ajudar o próximo, mas não a ponto que você esqueça de você. Assim como em todo o mercado, existem pessoas que estão só esperando para lhe fazer de escada. Foque nas que sabem que precisam dar as mãos para ir mais longe e não nas que querem subir, pular degraus a qualquer custo (vale também pra vida real).
HM – E o aprendizado mais valioso até o momento? Pode até ser mais de um.
Certa vez, ao pedir várias vezes para tocar em um super club da região, o dono do club e também DJ, Rafael Ferreira, me deu a seguinte letra: “Higor, para de pedir para tocar e dê seus passos primeiro gerando conteúdo de alguma forma que faça certo movimento de pessoas ao redor do seu trabalho, com isso, eu irei enxergar o `seu barulho` e te chamo pra tocar, ok?”. Me fez entender que devo fazer mais e pedir menos.
HM – Uma música que te marcou tocando?
Gui Boratto – “No Turning Back”
HM – E uma que te marcou na pista?
Silicone Soul – “Right On!”
HM – Um set que você escuta há 10 anos, tem?
Um que não me larga e recebi a indicação pelo Boghosian há uns seis anos, podcast do Move D para a Dissidance.
HM – Quem você sonha em ver/ouvir da pista? (Sem ter que trabalhar nesse dia)
Marc Rebillet
HM – Quem você sonha em trazer para a Seas?
Stimming
HM – Quem são os grandes parceiros que nesses 10 anos você acha legal citar?
Minha família, amigos fora da música que apoiam em cada apresentação lá da pista, staff que trabalha full time para que tudo saia perfeito, artistas que compartilham do mesmo propósito que o meu. Seria errado da minha parte citar nomes, até porque não caberiam aqui, mas por ordem são essas.
HM – Gig dos sonhos no Brasil e fora dele?
Time Warp, Dekmantel, Day Zero, Coachella, Burning Man, Rock in Rio, Lollapalooza, Amnésia, Diynamic, entre tantos outros.
HM – O que você escuta quando não está ouvindo música eletrônica?
Jazz, blues, MPB, rap e hip hop old school.
HM – Uma dica para os novos profissionais que estão ingressando na empreitada: DJ e na produção de eventos.
Relacionamento vale muito mais do que dinheiro, conheça pessoas, ajude-as ao monte, saiba quem são os verdadeiros e faça que o seu sonho se torne o delas também. Peça ajuda, não ache vergonhoso ou errado pedir. Muitas pessoas estão apenas esperando um pedido para se reacender no propósito que pode ser o delas também.
HM – Maior xabú que você teve que contornar? Como lidou? Como resolveu?
Certa vez, tocando na minha residência na Epic Club em Jaraguá, ao tocar junto do TouchTalk, antes estava entrando com uma música deles no meu set, olhei pra trás sem me dar conta e olhei para a expressão no rosto deles e me liguei que estava fazendo merda. Em 40 segundos de música loopei e já tentei ver a próxima para que o público não notasse que era a deles e não queimar a música mais hit dos artista da noite (que papelão né? eu sei kkkk).
No fim deu tudo certo e não fiz essa m… Consertei o mais rápido que pude. O aprendizado é que você pode errar, quantas vezes for necessário para aprender com o erro, mas, quando errar, você deve corrigir rápido, rápido mesmo, sem que o público perceba [risos, mas, de nervoso].
HM – Maior feito na produção de eventos até hoje do qual você se orgulha?
Ter feito com quatro pistas e com três gêneros distintos, com moda, gastronomia e interações um evento para quase 3 mil pessoas com uma label independente.
Seas 2 anos – Foto: ZOOE
HM – Qual sua filosofia de vida?
Se dedique ao máximo e faça até cansar, não descanse até fazer, pois tudo feito com amor, é arte.
HM – No que você acha que será melhor para o “novo mundo”?
Que as pessoas não pensem que o peso do fardo de alguém é maior ou menor que o seu, e sim, que cada pessoa tem sua batalha própria que não diz respeito há ninguém.
HM – Uma dica valiosa que você daria para o Nezello há 10 anos?
Absorva as opiniões recebidas, mas, siga o seu feeling vindo do coração e não tenha medo de expor sua arte.
Foto: divulgação
