Por Dada Scáthach
Foto de abertura: divulgação
O coletivo que carrega o calor no nome ocupa a cidade de Florianópolis desde 2019. BRASA, como é chamado, garante a temperatura adequada para aqueles que gostam de suar nas festas: usando arte, som e referências brasileiras, o rolê aponta para pautas importantes a serem discutidas, como o consumo de drogas e prevenção ao suicídio.
A articulação de jovens através da cena eletrônica vem se expandindo e conquistando novos fãs. A ideia ferveu as mentes pensantes de Luwp e Chroma, que a tempos discutiam sobre a necessidade de aumentar a visibilidade de artistas do nicho com propostas variadas. Em conjunto com Dumach, a fantasia tomou forma e passou a questionar padrões que normalizaram a exclusão de indivíduos como mulheres, pessoas negras e aquelas em situação de vulnerabilidade social. Atualmente, o grupo também conta com a produção de Celéstia, Vinicius Mugnol e Lucas Selau.

Foto: divulgação
Reconfigurar as estruturas de acolhimento como universos festivos, coloridos e cheios de energia faz arder o coração daqueles que encaram a balada como refúgio. Apesar disso, dificuldades podem ser encontradas como em qualquer transgressão.
Um dos principais conflitos surge a partir da acessibilidade nas festas. A procura por lugares onde a proposta possa ser desenvolvida (quase) não recebe apoio da prefeitura de Floripa e o aluguel desses espaços envolve muito dinheiro. Como alternativa contra tal elitização, os clubbers se instalam nas regiões centrais de forma subversiva e certeira. Os seis idealizadores sempre levam em consideração o trajeto a ser feito pelo público e a população que reside onde quer que o evento aconteça.

Foto: divulgação
Também pode ser considerado um desafio falar sobre tabus nesses ambientes. A redução de danos, por exemplo, cobre grande parte do teor informativo apresentado nas redes e urge em atingir mais e mais leitores, promovendo a consciência individual e comunitária na hora do fervo.
É importante lembrar que, em junho deste ano, o Relatório Mundial sobre Drogas lançou um relatório no UNODC mostrando o aumento alarmante do consumo de substâncias químicas: 30% a mais em uma comparação de 2018 com 2009. O estudo também revela que mais de 35 milhões de brasileiros sofrem com algum transtorno relacionado a tal uso, e que os jovens são destaque.
“A crise do Covid-19 e a retração econômica ameaçam agravar ainda mais os riscos das drogas, quando nossos sistemas sociais e de saúde estão à beira de um colapso e nossas sociedades estão lutando para lidar com esse problema”, diz Ghada Waly, diretora executiva do UNODC.
Em uma pesquisa feita em 2018 pelo DrugAbuse, nota-se que 57% dos 976 participantes foram a eventos e usaram álcool ou drogas. Desses, 67,5% afirma ter sido em raves. Nesse mesmo cenário, a substância com o número de consumo mais alto é o álcool (54,9%), seguido de maconha (29,3%) e ecstasy/MDMA (25,6%).
“A música ressignificou muita coisa […] em diferentes tempos das nossas vidas, e foi ela em conjunto com outros tipos de artes que nos proporcionou esse encontro enquanto coletividade”, diz Luwp.
Entre aqueles que entraram na fogueira, estão os DJs Nikkatze, Gezender, Hellora, Metamorfo, G / O, Stasya (em parceria com a Drona, de São Paulo) e performers como Beatriz Delfino Kara Catharina, Nevexz, Julha Franz e Rotten. No próximo dia 23, BRASA usará a fibra ótica para canalizar a experiência através do Zoom, apresentando um line com 14 artistas locais e performances de Maiteh Carraro e Arawn. No contexto (preocupante) em que estamos, BRASA conseguiu contornar o isolamento e usou da facilitação do mundo virtual para realizar bookings que antes eram inviáveis.
A intervenção servirá como fonte de arrecadação para os projetos Casa Transvivência (que acolhe a comunidade trans em sócio vulnerabilidade) e Menstruando Sem Tabus (fonte de distribuição de kits de higiene para aqueles em situações delicadas entre uma esquina e outra).
Os curadores têm como requisito principal a ânsia pelo novo. “A gente adora ouvir e colocar coisas inusitadas na pista de Floripa, e conseguimos fazer os clubbers daqui terem contato com outras sonoridades que fogem do 4×4 nos últimos eventos on-line”. Os ideais dos artistas geram faíscas marcantes e dão uma estética única, e plural ao mesmo tempo, aos dates.
