Por Dada Scáthach
Foto de abertura: Marcelulose e Fer na Plano 2 anos – Vinícius Luz
O sol se põe no céu de Porto Alegre enquanto o Coletivo Plano ocupa as ruas da capital prestes a encarar uma nova noite – outra não tão longa o suficiente para gastar toda a energia. A brisa fresca que balança as roupas leves dos clubbers carrega também o som que ecoa dos amplificadores, dando boas vindas a quem quiser aglomerar e ficar até o after. Em 2020, a turma comemorou seus três anos de subsistência mesmo durante o isolamento social, insistindo em novas apostas no ciberespaço.
A intervenção urbana conta com a produção de quatro jovens audaciosos. Fernanda Rizzo, Fernando Ribeiro, Sérgio Barsotti e Gabriel Scorza apostam na cena que se tornou uma plataforma de expressão e acessibilidade a pesquisas de arte e música. A facção questiona o território nacional lançando novos hinos e conquistando a pátria, desenhando na mente as icônicas Vorlat, Mamba Negra, Voodoohop e Coletivo Arruaça como inspiração.

Plano 2018 – Foto: divulgação
A cena eletrônica trata entre suas pautas sobre a deselitização da cultura e a tempos dá foco para corpos e corpas de diferentes realidades. Propondo transgressões inteligentes para infringir padrões e boicotes culturais, o plano é apontar para o que emburrece a massa e promover intervenções que amparam e dão visibilidade a diversas bandeiras.
O coletivo agrega quem estiver a fim de contribuir com a experiência e entende a inevitabilidade de criar e estimular trocas interpessoais, como na roda de conversa “Cultura e Arte em Tempos de Crise”. Marcou presença, também, nos encontros “Arruaça: a representatividade na cena underground de PoA” e “Arruaça Ocupa: direito à cidade”. Levar as batidas até as esquinas também inclui diálogo entre os produtores, comércio local, aqueles que têm a rua como abrigo e quem mais sentir o ar livre. A manutenção do espaço público como uma construção conjunta, e admirável, ganhou cada vez mais notoriedade no município gaúcho.
A falta de suporte da Prefeitura de PoA levou o grupo a reformular os eventos que até então só aconteciam do lado de fora das paredes. A repressão policial não interferiu em nenhum date aberto, mas, passou a cobrar taxas. Obviamente, os donativos on-line e a caixinha de arrecadação “apoie o rolê” passaram a ser insuficientes. Assim, eventos fechados começaram a movimentar a conta bancária dos envolvidos no backstage e dos artistas residentes.

After Bloco Sem Plano 2020 – Foto: Py Salles
A regência do município falha em estimular ações e temas vindos dos sons sintéticos. De qualquer forma, o trabalho de conscientização a todos é mantido. A boa relação entre os participantes favorece o bom desempenho das equipes de segurança nas festas onde qualquer tipo de assédio, discriminação e violência devem ser comunicados à direção.
Mesmo eclética e precisa o suficiente, o line up de residentes desenvolve, em conjunto, uma curadoria de profissionais de dentro e fora da bolha, incentivando iniciantes ou compartilhando espaço com aqueles que têm mais bagagem. As performers La Puta Ines, Baby Cruel, Julha Franz, ou DJs como Carol Mattos, Gabto, Carlim, Paulete LindaCelva, Romana, PEDRO PEDRO, Shinoby, Eric XD e artistas visuais e audiovisuais, como Py Salles, Clara Vasques, Yuri Jungles e Valenzuela, ajudaram na criação de ambientes lúdicos e efêmeros: resultado nítido da proposta mista do underground.
Enquanto novas possibilidades são estudadas para esse momento, o endereço @ColetivoPlano se torna um espaço de discussões sócio-políticas com entrevistas do “Plano Convida”, que também divulga playlists com convidados especiais. Já o aniversário de três anos do movimento deu pane na placa mãe do servidor público com apoio da LabXP e Funcion!
As produções visuais e os sets de Anti (SCAPA / Fugácida, SE/PE), SUPOLOLO (MASTERp la n o, BH), Kenyᐱ (RJ), Nogayra (PoA), OKOFA (SILVER/tape / Balsa, SP), NEISS (HOT) e J09srk (PoA) estamparam o layout interativo do ShotGun. Nesse meio tempo, o wall of fame hackeou a fiação de casas no Brasil inteiro e questionou as definições de público e privado.
Em PUTA DOR, o coletivo discorreu sobre redefinições da presença física. O primeiro filme independente da Troikka Studio, que mostra a adaptação de performers, DJs e produtores das cenas de música eletrônica de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Porto Alegre no contexto da nova pandemia, terá o primeiro trailer transmitido durante o #FestivalGraveBH no próximo dia 19, também pelo shotgun.live.
Curiosidade Plana
Através da aproximação com Bruno Barros (LabXP), o Coletivo Plano desenvolveu uma campanha de arrecadação para a Cozinhar e Servir: distribuição de alimento e cobertores para quem está em situação de vulnerabilidade em Porto Alegre/RS. Todo o valor arrecadado pelo site apoia.se/cozinhareservir até o final do ano será destinado para a instituição.
