Por Gislene Barral
Foto de abertura: Alexandre Mendes
Um ser em constante busca e que se pergunta quem é. Essa poderia ser a senha de abertura da casa de Gabriel Boni e da última entrevista de Guilherme Xac para o Estúdio Aberto. No entanto, essa busca interna levou a caminhos práticos bem definidos e sólidos para Boni, profissional, artista e empreendedor, que se formou dentro e a partir do universo da música eletrônica e que tem inspirado pessoas. A inspiração é transmitida nesta entrevista como trabalho sério, dedicação à música, amor ao próximo, disponibilidade para as constantes aprendizagens e carreira sólida, mas, sempre em ascensão.
“Crie um projeto”, é o conselho de Boni para direcionar a carreira e a vida de quem deseja se lançar no universo da música eletrônica. Criar seu projeto, explica ele, não é questão de fazer um nome, lançar um som, mas se impor um autoexame de rumos e propósitos de vida e se definir diante dele.
“Seja o que for fazer na vida com a música, faça amando, pois nada vale mais que seu tempo”, afirma Gabriel Boni.
O que esta entrevista-depoimento de Boni coloca em questão são atitudes, escolhas, oportunidades, projetos, tomadas de decisão, enfim, o que o indivíduo faz com o que a vida lhe oferece. Com esse olhar, o encontro com esse artista pode ser visto como um espaço de reflexões e aprendizado. Mas o que tem isso a ver com música eletrônica? A música e a vida andam juntas, ou pode ser seu lifestyle, pelo menos assim é para Boni.

Foto: Alexandre Mendes
Nascido e criado em Brasília, o entrevistado diz que seu primeiro contato com a música eletrônica se deu a partir dos aplicativos, que se abriam como se fossem uma enciclopédia do que acontecia na cena rave. E a conversa flui como instigante melodia embalando os ouvintes com momentos mais suaves, como aqueles em que Boni conta como o sonho de ser pai se materializou no pequeno Davi ou diz que encontrou na música eletrônica a família que buscava; entrecortados por outros que soam mais ríspidos, quando a conversa flui para os desafios que teve de enfrentar em seu percurso de formação dentro de seu grupo. Mas Boni se sente produto de uma formação em que tudo que viveu é importante para quem ele é.

Gabriel Boni e o filho Davi – Foto: Alexandre Mendes
Por volta dos 14 anos, Boni descobriu que a música eletrônica era o que daria sentido à sua existência. Fez dela seu projeto profissional e de vida, transformando-a em um acontecimento cercado por música de todos os lados. O DJ e produtor lembra também sobre a importância que os espaços urbanos tiveram em seu crescimento, sua formação em diferentes quadras de Brasília, os rolês de skate pela cidade, as experiências nos eventos e nas turmas mais diversas das quais fez parte.
Com seu espírito artístico e empreendedor desde a adolescência, a imersão gradativa de Boni na criação musical e no empreendedorismo no mundo da música eletrônica se iniciou com as experiências no entorno das raves, onde ia para curtir a música, mas acabava mergulhando no todo. Sua disponibilidade e interação eram totais: queria participar e compreender tudo daquele mundo – música, dança, experiências. E para viver e sobreviver no entorno dos festivais, neles se mostrou polivalente: Boni ficava do início ao final da festa e não recusava nenhum trabalho, fosse na decoração, na venda de camisetas e objetos na feira ou na praça de alimentação. Tudo ali lhe interessava e ainda gerava recursos financeiros para a aquisição de materiais e equipamentos para seu ofício. Com essa visão global do mundo onde decidiu viver, nada lhe escapou, por isso jamais esqueceria de falar sobre sua primeira rave, o primeiro DJ que viu, seu primeiro live.

Foto: Alexandre Mendes
Ao se descobrir parte desse mundo e ter nascido para ele, sua vontade de tocar foi maior do que todos os desafios encontrados. Quando não estava nas festas, Boni vivenciava a cena musical em seu laboratório diário, ouvindo música, buscando entender cada elemento da criação e produção musical. Boni se diz produtor por ser fruto do mercado, mas confessa que sua paixão é ser DJ. Sua busca por trazer inovação e sonoridade, quebrar paradigmas na criação e investir na pesquisa musical começou quando menino, baixando música nos aplicativos. Por isso, se tornar DJ foi um movimento natural e gradativo. Ele relembra quando faltou um DJ em um festival na Ilha dos Botos, em Maranhão, e se dispôs a tocar e ali fez a sua primeira apresentação, que, por sinal, foi tão bem sucedida que, naquele mesmo evento, foi alçado para o main floor. Ele conta como foi a sua inserção no mercado com a sua própria gravadora, conciliando seu lado músico com o de empresário da cena eletrônica.
Boni revela como vivenciou tantos desafios no decorrer da sua vida, mas o enfrentamento ao que chama de “traumas” teve maior importância quando resultou em fracassos e erros. Sua paixão por experiências o gratificou com as vitórias, os ganhos, o sentimento de competitividade, mas os maiores aprendizados foram com os erros, pois foram eles que lhe obrigaram ao autocontrole e à percepção da sua capacidade de liderança e de autocrescimento, exigindo-lhe compreender a importância do outro e da criação de movimento. Hoje, seus contratos com importantes gravadoras e a oportunidade de viajar pelo mundo se devem ao autocontrole e às aprendizagens adquiridas em networkings e nos festivais.

Foto: Alexandre Mendes
Quando indagado sobre de onde vem o amor fora do comum dos fãs pelo artista, ele atribui esse sentimento às suas atitudes. Para ele, sua carreira é mais baseada em atitude do que na própria música. Isso porque sabe que o artista representa uma atitude, com seu modo de ver, de falar, de vestir, de se posicionar perante tudo. E assim, sempre quando termina de tocar, lhe vem à mente aquela criança que invadiu um backstage e foi falar com o ídolo que lhe virou as costas e o feriu em definitivo. Então ele procura fazer o contrário do que viveu: chama o fã, abraça, fala sobre a vida. Diz ter encontrado sua verdade em sua essência, por isso consegue colocar amor em suas apresentações.

Foto: Alexandre Mendes
Em uma análise breve, Boni aponta a falta da arte e da educação musical na formação de gerações brasileiras e mostra o compromisso da música eletrônica em proporcionar uma educação musical que provoque a expansão da percepção, da consciência, até mesmo por permear a música orgânica nos mais variados estilos. Boni discorre sobre os equipamentos, programas e recursos usados para a sua produção musical, de acordo com as situações e circunstâncias. Também fala das novidades, que são muitas, como o novo show que acabou de estrear, com muito audiovisual e interações, das tracks, das novas apresentações e dos lançamentos.
Sua imensa capacidade de trabalho e liderança fazem com que Boni não veja dificuldade em tocar carreira e empreendimento juntos. Com esse espírito de unir entretenimento a trabalho e agregar pessoas, ainda administra o seu empreendimento SOMA – Som, Imagem, Amor – complexo de entretenimento que envolve vários tipos de espaços colaborativos: estúdio, áudio, cinema, espaço gourmet, fotografia, gravadora, editora, promotora de eventos corporativos, trabalhando juntas 13 agências.
Para finalizar a entrevista, Gabriel Boni não poderia deixar de falar do acidente que envolveu o veículo em que sua equipe viajava a trabalho. Essa experiência traumática é ressignificada pelo artista que se viu naquela tragédia confrontado questões sobre o que é mais importante na vida. A demanda que se coloca é sobre oportunidade e resistência: o que as pessoas fazem com o que a vida lhe oferece. Sabiamente, Boni transformou tudo isso em amor: pelo ser humano e pela música, que acredita ser a chave da paz, a cura de todos os males.
Vale muito a pena vê-lo e ouví-lo em um episódio dividido em quatro partes. Assista!
