Ben Klock recomenda: não me rotulem. Review!

Por Jonas Fachi

Fotos por Ebraim Martini e Gustavo Remor

As noites de techno puro sempre marcaram presença durante os verões do Warung e sem dúvidas a mais atrativa desta temporada era a vinda do alemão Ben Klock. Desde sua emblemática estreia em pleno carnaval de 2014, Ben se tornou uma peça de destaque no calendário anual do club. Tocando no Garden, ele deu seu cartão de visitas com um set hipnótico e intenso de duas horas –  somente no vinil. De lá para cá, é interessante ver como ele foi se mostrando cada vez mais a vontade comandando uma pista que é reconhecida por seu astral emocionante. Certamente, o Templo lhe confronta com uma atmosfera completamente diferente de seu club formador, o Berghain. Lá, ele é visto quase como um semi-deus dentro da obscura pista do lendário club berlinense. Aqui, sua base de fãs busca experimentar um pouco da famosa engrenagem musical mecânica, séria e massacrante dos artistas de seu país.  

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Entretanto, o fato é que Klock não pode se resumir ao estéreotipo imaginativo do “DJ alemão frio e sem expressão’’ que as pessoas gostam de cultivar. Na verdade, ele difere bastante disso, surpreendendo por seu enorme carisma e jeito de interagir com o público. Aliás, de todas as vezes que o vi tocar, essa foi de longe a que ele mais estava “solto”. Podia-se vê-lo com uma energia ascendente, sorrindo e curtindo seu próprio set. Antes de voltar a falar do headliner da noite, vamos destacar como foi o warm up.

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Eli Iwasa

Entrei no club por volta das 23h e subi para apreciar a sempre aclamada residente Eli Iwasa. Figurando como um dos principais artistas de techno do país na atualidade e esbanjando carisma, ela não economizou no ritmo durante boa parte de seu set. Sabíamos que era uma noite em que o DJ de abertura já poderia abrir a mão e apresentar músicas mais quentes. Ainda assim, ela manteve-se coerente com o horário, alternando entre momentos ácidos e obscuros. Perto de entregar a pista, Eli baixou o bpm de forma inteligente, segurando os ânimos de um público que já estava sedento por energia.

Por falar em público, me peguei olhando ao redor com certa surpresa e ao mesmo tempo felicidade em ver uma enorme quantidade de faces jovens que aparentemente detinham poucos anos de pista. Elas vibravam e criavam fluxo energético alinhado com a alma do club. Sinal de que o Warung continua renovando sua base sem perder o feeling mágico – ainda que em noites de techno. Para ser honesto, não bastam mais do que duas noites no Templo para se compreender como funciona as coisas dentro da pista.

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Eli Iwasa

Voltamos a ele. Ben é um DJ forjado na cena clubber, gosta e sabe como iniciar um set, independente de quem tenha tocado antes e o que tenha sido deixado como lastro para continuar uma noite de techno. Confesso que não ouvi o set de Renato Ratier de perto, apenas do Temple Drinks percebi que o bpm estava bem alto. Comentei com minha namorada que não se trata de quem toca “mais rápido” e sim de como se conduz a pista dentro de um estilo que é essencialmente pesado e envolvente. Aliás, envolver a pista tocando algo linear não é simples. A meu ver, o grande erro dos DJs que se predispõem a tocar techno sem ter entendimento de construção de set, é acabarem caindo no limbo da “massividade”, onde o som repetitivo se torna um fardo para os clubbers: a hora não passa!

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Ben Klock

Quando assumiu às 3h30, Klock respondeu exatamente como eu previ. Reiniciando a atmosfera do zero com algo mais cadenciado, comprimido e com ritmo moderado. Sua primeira meia hora em pleno meio da noite foi assim. Era preciso dar um começo para o meio e final fazerem sentido. O primeiro grande destaque de seu set foi com “Hypokondriak” de ninguém menos que Plastikman. Um clássico de 1998 de Hawtin com remix de Len Faki em 2019. 

A partir das 4h, Klock passou a dominar a mente e a energia dos clubbers com batidas fortes e rápidas. Destaque para “Rave Shower” de Johnny Island. Em seguida, surge um vocal sedutor e ao mesmo tempo gélido, típico das faixas de techno alemãs. Se tratava de “Sixth Sense” da lenda Josh Wink feat Ursula Rucker e remix de Shlomi Aber.

Às 5h entra “Another Club” do ícone Radio Slave com remix de Charlotte de Witte. Sem dúvidas uma das melhores faixas da noite fazendo todos vibrarem através de seu ritmo insano.  Esse é o tipo de faixa que delimita um novo passo no set de um artista. Ela é o que gosto de chamar de “track coringa”. Depois que é introduzida, não tem como voltar atrás, o DJ é obrigado a procurar outras a futuro que a acompanhem. Fazendo automaticamente o set ganhar outro patamar.  

“Pleasure Unit” de Tim Taykir & DJ Slip com remix de Bloody Mary Drum às 5h20 reforça exatamente minha colocação anterior. Nesse momento, era possível ver todos integrados na condução magistral e quase poética de um dos melhores DJs da atualidade. Ben brinca com sua apurada sensibilidade em mixar faixas que tem linhas de baixo variadas e linhas de bateria escorregadias se misturando com leves toques tribais.

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Ben Klock

Às 6h em ponto ele empurra “Subzero”, seu maior clássico de estúdio e um verdadeiro hino. Essa música parece ter sido feita para servir como uma bandeira em alto mastro representando a cultura musical de sua cidade. Ela pode ser ouvida em uma manhã de outono caminhando pelas ruas de Berlim, afinal, sua singularidade ajuda a entender um clima onde o sol apenas brilha, mas não esquenta. É verdade que estavamos na praia, verão, porém o cinza do lado de fora acima do oceano pedia por uma música quase mórbida e levemente viajante. Tudo casou perfeitamente.

Às 6h25 Klock jogou “Prototypes” de M Of M. Faixa lançada em 2005 pela Kompakt e que trouxe uma linha de baixo longa, cheia e quase progressiva. Era algo distinto de tudo que ele havia apresentado até então. Por um lado, nos falava sobre sua enorme versatilidade, por outro, caiu como uma luva no momento final. É isso que os grandes DJs fazem, não deixam se prender a apenas um único tipo de música.

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Ben Klock

Por falar em versatilidade, que tal ouvir das mãos de um artista genuinamente underground um clássico pop/dance? (com edição apropriada para o artista, é claro). Bem, foi isso que ele fez quando fechou sorrateiramente com “Free” de Ultra Nate.

 Praticamente pulando junto com todos e transmitindo sua energia contagiante, Ben Klock  viu toda uma pista até então imersa em seu submundo subir para o lado de cima da rua para dançar e cantar com uma eferverscência quase tão luminosa quanto a Times Square.

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Ben Klock

O clássico de 1997 foi um dos fechamentos mais surpreendentes que eu já presenciei em mais de uma década frequentando o club. Um final que deixa um recado bastante importante: “não criem rótulos em cima dos artistas, aproveitem a música’’.

Clique aqui e confira a playlist completa com vídeos da noite.

 

 

 

 

 

 

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