Adriatique apresenta set repleto de clássicos no Warung. Review!

Por Jonas Fachi

Fotos: Gustavo Remor e Ebraim Martini

Novembro começou no Templo da música eletrônica com o retorno do duo Adriatique como atração máxima no Inside, além da estreia no Garden de outra dupla que surgiu pouco mais de um ano e vem obtendo um crescimento impressionante, Artbat. Em 2019, tenho deixado um pouco de lado esse tipo de noite no club afim de centralizar minhas energias nos grandes expoentes. É neles onde encontro o nível de entrega de set que meus ouvidos sugerem. Entretanto, algumas noites no Warung envolvem muito mais do que música, elas também servem para marcar momentos importantes na vida de seus frequentadores. Era um desses para este colunista.

Devo salientar que eu adoro as produções de Adrian Shaia e Adrian Schweizer, afinal elas estão constantemente em sets de alguns dos meus DJs favoritos, John Digweed, Sasha, Hernan Cattaneo, Sven Vath, entre outros, selecionando-as como faixas prioritárias em seus sets. Fui para o club com o intuito de aproveitar a noite de forma menos analítica e mais descontraída ao lado de pessoas especiais, era isso que importava. De qualquer forma, tenho certa desconfiança quanto a capacidade de construir sets inteligentes e envolventes que produtores de alto nível como eles apresentam quando se deparam com uma pista pesada e interessada como a do Warung. Vou discorrer mais sobre isso ao longo do review.

O fato de buscarem tocar mais do que o habitual é sempre louvável, visto que o club tem como característica fundamental a disponibilidade dos artistas principais usarem o máximo de tempo possível, fazendo com que a experiência do seleto público da casa seja a mais completa possível.

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Iniciado em 2008, o projeto Adriatique tem lançado por diversos selos importantes, porém, eles ganharam notoriedade a partir de 2014 com músicas que constantemente passaram a fazer parte da case de artistas do primeiro escalão. Hoje, pode-se dizer que eles representam o que tem de mais fino em matéria de produção musical dentro do estilo denominado como melodic house & techno pelo Beatport. Com uma base de fãs considerável no Brasil, estavam retornando ao Templo como headliners para um extended set de quase cinco horas.

Acessei a casa por volta das 23h e após ver alguns minutos do set de Traffic Jam no Garden, subi para a sacada do Inside ainda vazia. Aproveitei o warm up de Edu Schwartz lá do fundo da pista no primeiro momento. Percebendo que a música estava boa, adentrei a pista para sentir as ondas sonoras com mais intensidade. Já ouvi Edu algumas vezes no Warung, mas este foi de longe o seu melhor warm up que pude presenciar. Set com cadencia até meia noite e com intensidade na medida até entregar a pista às 1h30 para os Adrians de Zurique (meia hora de atraso). No final, Edu estava jogando músicas em um estilo bem próximo dos nomes da noite, conseguindo arrancar os primeiros aplausos e demonstrações de euforia, mesmo com o sound system mais baixo.

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Edu Schwartz

Os suecos assumem sem qualquer introdução e logo na primeira música fazem a pista dançar fervorosamente. A disparidade do volume do sistema de som foi gritante. Talvez seja um ponto a se discutir como politica da casa. Por vezes alguns DJs tem som alto para apresentar seu trabalho desde o começo, outros não. Parece não haver um padrão para os artistas que tem a difícil missão de preparar a pista.

Depois de subir a energia, trouxeram um de seus melhores lançamentos do ano através do remix para “Tremors: Nemesis” de Delha de France. Olhei para os lados e vi pessoas se emocionado com essa linda faixa. Na segunda hora o destaque vai para “The Golden Vice” de Rodrics, marcando uma hora com musicas mais limpas e menos introspectivas. Durante o set eles estavam muito concentrados e com um nível de afinidade musical bastante apurado, isso não é simples de alcançar em uma dupla. Perto das 3h15 surge a faixa que eu mais aguardava ouvir deles. “Craft” é uma daquelas músicas que dificilmente saem do set, sempre vai funcionar.

Às 4h, no meio do set, entra “Plastic Head Tv” de Fairmont, talvez a melhor música da noite por deter um vocal maravilhosamente marcante e difícil de esquecer. Foi um ótimo contra ponto a energia obscura que vinha se criando até então. Eram 4h40 e Adriatique deu o primeiro aceno de uma série de clássicas que iriam introduzir até o final do set: “Retorn to Oz” de Mano Le Tough.

Eu particularmente adoro ouvir músicas antigas de diversas épocas sendo colocadas de forma coerente dentro da ideia do set. Às 5h a faixa “Cabora” de Angelov ditava mais um pouco de intensidade. Em seguida, um dos maiores clássicos da dance music entra em ação para minha surpresa, afinal não esperava ouvir deles algo tão old school, “What Else is There” de Royksopp e remix da lenda Trentemoller.

Às 5h25, outra daquelas que o vocal soa familiar desde a primeira palavra. Tratava-se de “I Feel Loved” da banda Depeche Mode em um remix que eu nunca tinha ouvido. Entramos na fase final do set com “Dream Vision” de Agents Of Time, uma faixa que tem uma personalidade muito forte e sempre fica na cabeça pós festa.

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Adriatique

Às 6h em ponto outro momento que levou todos a um estado supremo de emoção. Ver toda a pista na mesma sintonia, alguns eufóricos, outros, como eu, apenas sentido a leveza emocional de “Time” de Pachanga Boys. Música que já foi tocada pela manhã por outros artistas e que capta perfeitamente a verdadeira mágica do Templo. Por mim, a festa teria terminado ali! Na última meia hora, a dupla manteve o ritmo leve, para nos momentos finais jogar A MÚSICA que foi uma espécie de virada de chave na carreria deles, os colocando em outro patamar. Quando remixaram “Atlas” de Marc Romboy & Stephan Bodzin em 2016, eles acessaram um prateleira de importância enquanto produtores que leva muito tempo para alcançar.

Se pudesse resumir as cinco horas de set, diria que a dupla possui série de qualidades que justificam receber uma pista do peso do Warung para um extended set. Poderia destacar a personalidade musical muito bem desenvolvida, coragem para tocar sons diferentes, valorização da história da dance music e uma seleção de faixas de dar inveja. Tudo isso sendo mostrado entre momentos super explosivos, outros com tons obscuros e emocionais. Até ai, perfeito, variações necessárias dentro de um set longo. Entretanto, para meu gosto pessoal, ainda falta neles aquele atributo que na minha visão é o mais importante de todos: consistência rítmica.

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Adriatique

A forma como apresentam tanto conteúdo de tamanha riqueza me deixou com a mesma frustração de quando assisti outros artistas da mesma geração como Mano Le Tough, Dixon e Tale Of Us. Eles tem pouca preocupação com a construção do set em si, preferindo trabalhar em blocos de momentos rápidos sendo quebrados por momentos de baixa e alguns breaks longos demasiadamente. Não é fácil conseguir manter a pista vibrante em um extended set, porém, penso que só com os anos de prática e entendimento os darão o feeling de pista necessário para então jogar como os grandes mestres da arte do Djling fazem – deixar um rastro de insanidade coletiva difícil de apagar.

Como poucas vezes, aproveitei o set todo sem sair da pista nenhuma vez, com espaços para dançar e uma energia singular ao meu redor dando um sentimento especial. Ficou impossível de descer para conferir Artbat e o sempre ótimo Leozinho no encerramento do Garden. Adriatique já tem data para retornar ao Warung no encerramento do verao em março de 2020.

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