Por Jonas Fachi
Fotos por Gustavo Remor e Ebraim Martini
No dia 12 de julho, um anuncio inesperado do Warung Beach Club fez com que um estrondoso alvoroço se iniciasse entre os fãs de Hernan Cattaneo no Brasil. A partir de então, todos estavam em contagem regressiva para o desembarque do show case da label Sudbeat em pleno feriado de Independência. Uma noite que seria protagonizada por alguns dos principais personagens que circundam as produções, os sets e a própria gravadora do “El Maestro”.
Situada em Buenos Aires, a label se tornou ao longo da última década uma das principais forças motrizes que colocam em evidência a nível mundial um estilo que é a cara do povo sul americano: o house progressivo. Três pilares fundamentais da label foram confirmados de uma só vez: Soundelixe, a veia produtora simbolizada pelo experiente duo formado por Baunder e Oliverio; parceiros de Hernan no estúdio a muitos anos. Um segundo pilar representado por Graziano Raffa, italiano radicado em Buenos Aires e braço direito de Hernan no gerenciamento da label, escolha das diretrizes, filtro de demos, e tudo que envolve uma gravadora que tem alcance internacional. E, por fim, o pilar que representa a renovação da cena Argentina e seu futuro pelas mãos e talento refinado de Mariano Mellino. A proposta caiu como uma luva – comemorar 10 anos de gravadora no principal palco das Américas e ainda fazer um contraponto com a data clássica de Cattaneo no final de ano.

Adentrei o club por volta das 22h e um bom público já transmitia toda a energia do Templo para Soundelixe. Um warm up com tonalidade deep, porém claramente com níveis de profundidade nas melodias e arranjos, tirando assim um pouco do clima de receptividade e impondo com sutileza perfeita um convite para já começarmos a dar os primeiros mergulhos pelo consagrado estilo argentino de trabalhar com música.

Gostaria de dar dois destaques que foram tocados em sequência no set deles: Martias Larosa e Martin Gardoqui na faixa ‘’YOU’’ (Baunder edit), que conta com o sempre reluzente vocal da brasileira Sarah Chilant; e Nacho Varela e Cruz Vittor na belíssima faixa “Have a Name”, às 22h15 e 22h20, respectivamente.
Às 23h30 assume o comando o back to back de Raffa e Mellino. O sorriso em seus rostos por estarem realizando o sonho de comandar o pistão do Templo era contagioso e todos na linha de frente queriam demonstrar apoio e sintonia. Nas primeiras músicas cada um tocou o que sentia ser mais seguro, deixando claro o estilo diferente de cada artista.

Conforme passou a primeira hora, o set se ajustou e ganhou mais carga emotiva, ainda que preservando uma cadência necessária que o horário demandava. Em diversos momentos, eles se soltaram e fizeram a pista vibrar e aplaudir, entregando uma alta carga de energia às 1h30. Nem preciso destacar músicas no set deles, você pode ouvir por si próprio abaixo.
O que faz um artista ser reverenciado por onde passa? Como ele consegue atravessar gerações de clubbers e despertar em todos eles o mesmo sentimento? É sempre interessante ouvir o líder de um time de alto nível assumindo o comando e mostrando desde a primeira música o porquê é quem é: “Agora é comigo, nunca se esqueçam quem é Hernan Cattaneo”.

Com batidas quebradas e sinths carregados no mesmo clima eufórico com que o b2b deixou a pista, Hernan puxa para frente toda a atenção. Na primeira hora foi trazendo o ritmo um pouco mais para baixo, apenas para recomeçar com mais controle emocional. Os destaques ficam por conta da clássica “Fallstar” de Guy J, com remix atualizado de Subandrio, e o primeiro vocal marcante através de RÜFÜS DU SOL em “New Sky”, com remix de Edu Imbernon.
Às 2h40, um jogo de sintetizadores com um toque emotivo e vocais recortados chama atenção das minhas recordações mais profundas. Eu conheço esse estilo, sim, era Sasha em seu mais novo lançamento “Ripcord”. Que faixa!
Às 3h era o momento de impor sonoridades mais pesadas e uma das músicas que mais me chamou atenção neste ano entra em cena. Ainda não oficial, “Day Of Light” de Guy J fez um daqueles momentos em que o clima de tensão surge debaixo para cima, entorpecendo nossa mente.
Às 4h já sentia que a pista tinha mais espaços, o filtro necessário para então Hernan começar a mostrar sua verdadeira e mais impressionante habilidade estava feito. Era hora de acelerar e depois “planchar”. Essa expressão é comumente utilizada pelos argentinos para se referir a pista completamente “adormecida”, onde o tom eufórico da lugar a um estado de imersão coletiva. É nessa fase do set que Hernan mostra todo seu arsenal de sequências de músicas que te empurram com o poder das linhas de baixo massacrando todo o sistema nervoso. Mais destaques para “Distortion” de Zac e Bakka e “Denial” de Reset Robot, com edit de Antrim. Esse horário é crucial, muitos não resistem, e assim não recebem a redenção final onde a magia toma conta da pista.

Passei vários dias tentando buscar uma explicação convincente, didática e que encaixasse perfeitamente para descrever como Hernan pensa e age durante o meio do set. Encontrei em um de seus maiores ídolos (meu também) uma quase perfeita. Quando o comando da pista está no auge, na hora que a conexão atinge seu melhor momento, é como se Hernan balançasse a pista exatamente como o lendário Barcelona de Pep Guardiola fazia com seus adversários. O time que encantou o mundo de 2008 a 2012 tinha uma ideia de jogo muito clara, porém extremamente difícil de executar. O time adiantava as linhas de defesa, ficava tocando a bola de um lado para o outro até fazer as peças se movimentarem para assim abrir um espaço ideal. Então, como num passe de mágica, aceleravam a troca afim de deixar um dos jogadores na melhor condição possível de arrematar. Este quase sempre era ninguém menos que Lionel Messi!

Essa concepção de jogo talvez seja a melhor maneira que já encontrei para explicar como funciona a engrenagem dentro da construção de set de Hernan. Não se trata apenas de trabalhar progressivamente com início, meio e fim, mas também de criar momentos para deixar todos sempre conectados. Nesse caso, podemos dizer que o público na pista era o “adversário” e a ideia é tentar surpreende-lo, furar suas defesas mentais não apenas uma vez, mas repetidamente até que a força da consistência rítmica os faça se perderem em campo, deixando assim suas almas expostas para serem exploradas da melhor forma.
Foi assim quando o Barcelona meteu cinco gols no Real Madrid de Mourinho em 2010 ou quando aniquilou o Santos de Neymar na final do mundial em 2011. Deixar a pista completamente dominada, em estado de submissão (planchando) total a uma ideia impossível de vencer. O Barcelona de Pep deixava seus adversários mentalmente convencidos de que “não dá para parar esses caras”. Hernan deixa seus expectadores atormentados, fazendo entregarem suas almas a sua consistência impossível de vencer. Durante cerca de 20 a 30 minutos todos ficam anestesiados, então, em uma virada sorrateira, ele acelera a mixagem e introduz algum toque mais explosivo ou melódico, dependendo do momento da noite. Isso se repete até o amanhecer, uma chuva de gols e jogadas sincronizadas perfeitas.
Entrando às 5h30, o grande destaque vai para “Where Is home”, de Guy Mantzur e Khen. Uma música que não é rápida, mas que tem um break explosivo capaz de reacender o clima e dar o aviso de que momentos mais agitados estavam por vir novamente. Depois de mais algumas músicas quietas, e como já sabemos, armando mais um grande momento, Hernan coloca um tom mais anestesiante através de “Tachyon Dream”, de Gabriel Ananda, John Digweed e Nick Muir. Era a música certa antes de uma melodia singular às 6h surgir e imediatamente fazer toda pista despertar de uma só vez. Sem dúvidas um dos grandes momentos da noite através de “Blue Shadow”, de Chaim. Uma daquelas músicas que nunca ficam velhas e que foi tirada da manga quando ninguém apostaria para este horário.
Percebemos que já era dia do lado de fora, e um traço ainda mais emotivo pedia passagem. Era o vocal da noite com Skylar Grey na faixa “The Last Day” (Id remix) da lenda Moby. Eu podia sentir a pista tentando cantar junto mesmo sem saber a letra. Ficou notável que seria uma sequência de tirar o folego até o encerramento, com uma música renascendo dentro da outra, só mais uma das habilidades únicas de mixagem que Hernan possui.
Como alguns haviam previsto, o horário de funcionamento do club novamente está sendo puxado para mais cedo devido a motivos de força maior, infelizmente. Para encerrar, nos é apresentado o icônico mantra de Darpan – “Blessing”. Um vocal que transmitia através das palavras uma enorme sensação de paz de espirito. Esse tema é a abertura do álbum “Sunsetstrip”, de Hernan lançado esse ano e foi colocado por ele com um mashup absurdamente convidativo a dançar euforicamente mais, que reviravolta! Para manter as últimas energias acessas, uma das faixas mais marcantes que o Maestro jogou pela manhã nos últimos anos, “Bitter Sweet Symphony”, da banda The Verve com remix de Amonita e Makebo. Às 6h30, pontualmente, fecha com uma faixa autoral (também do último álbum) chamada “Wind Down”, uma melodia marcante e emocional ao extremo.

Certa vez, o campeão do mundo pela seleção Argentina Jorge Valdano disse que Lionel Messi, “Es Maradona todos los dias”, pois o astro do Barcelona joga há muitos anos como o Maradona de junho de 1986 no mundial do México. Muitos atribuem essa como a melhor alegoria possível para explicar a genialidade consistente de Messi. Usando essa referência, eu arriscaria criar uma nova alegoria na tentativa de traçar a história de outro argentino lendário. Se Messi joga como Maradona todos os dias, Hernan joga como Messi todas as noites. Entretanto, existe uma diferença, este argentino consegue ir além! Hernan também é Xavi, é Iniesta, é Busquets! A espinha dorsal que regia um dos maiores times de todos os tempos sendo protagonizada por um único ser. Ainda mais quando joga no “Camp Nou brasileño”.
