O que a trollagem do Tiesto com a máscara do Marshmello nos diz sobre o cenário atual da música?

Por: Lucas Arnaud

Todos foram supreendidos quando Marshmello (cuja identidade seria secreta, mas a qual nós já demos altas pistas por aqui) anunciou durante seu set no Eletric Daisy Carnival 2016, em Las Vegas, que iria retirar sua máscara e finalmente acabar com todo o misterio criado em volta de sua figura. Chegado o esperado momento, eis que surge, por baixo da bizonha máscara branca em formato de marshmellow, ninguem menos que… TIESTO! Imagine o “bug nas idéias” que isso gerou nos fãs que estavam presentes. Depois de, por um breve momento, todos terem achado que de fato Tiesto era Marshmello, muitos começaram a cair na real: houve ali uma “trollada” e das boas. Mais que isso, fora executada uma genial tacada de marketing.

Tal ocorrido pode nos mostrar muito sobre a direção na qual mercado ou a cena EDM tem ido. Primeiramente, vamos analisar a situação de Tiesto. O artista não apareceu nos palcos apenas no set do Marshmello. Apareceu durante seu próprio set (obviamente), e também durante o set do DJ e produtor de carreira meteórica Jauz. Já contamos, portanto, 3 grandes aparições de Tiesto no mesmo festival. Essas constatações ficam ainda mais interessantes quando analisamos o contexto de tais aparições. Tiesto, que é um DJ “das antigas” e que começou seu trabalho no trance, faz aparições em sets da “meninada” que traz o que há de mais novo e da moda em música eletrônica, como é o caso de Jauz e de Mashmello. Note que essa tendência já vem a algum tempo. Podemos citar, por exemplo, quando Tiesto se juntou a Oliver Heldens e a Tony Junior durante o Amsterdam Music Festival 2015, para lançar colaborações com cada um.

O que o fato de “um DJ pioneiro do trance colaborar com os que criam o que há de mais novo na EDM” nos diz? Se você leu o título dessa matéria, pode inferir: muito mais do que você imagina. Para criarmos um link entre o cenário atual (que foi exemplificado acima) e o passado, vamos primeiro relembrar um pouco sobre a carreira de Tiesto.

Tijs Michiel Verwest, nome real de Tiesto, nasceu em 17 de janeiro de 1969, e fundava ja em 1997 a “Black Hole Recordings”. Apenas um ano depois, já colaborava com Ferry Corsten no projeto de trance Gouryella. Em 2001, lançou seu primeiro álbum solo “In My Memory”. O sucesso de sua carreira e de seu estilo trance (que à época, era vanguardista em se falando de música eletrônica) culminaram com o primeiro lugar no ranking da DJ Mag por três anos seguidos (2002, 2003 e 2004). Em 2004, foi o primeiro a DJ a tocar em uma olimpiada, em Atenas. Em 2007, seu álbum “Elements of Life” ja deixava evidente a maturidade alcançada em seu estilo trance.

Todavia, em 2009, ao lançar seu novo álbum “Kaleidoscope”, Tiesto formou parcerias improváveis. “Quer dizer” então que o lord do trance lançou um álbum de música eletrônica com artistas pop como Calvin Harris e Nelly Furtado!? Exato. Apesar das colaborações inexperadas, as tracks do álbum seguiam ainda a linha original de produção de Tiesto (trance, progressive trance), apesar de flertar com estilos mais populares de música eletrônica.

A partir de 2011, Tiesto gerou uma quebra de expectativa (das graaaandes!) em seus fãs de longa data. Com o lançamento de seu álbum Club Life (que mais tarde também daria nome às seus álbuns de coletânia de tracks de suas labels) e A Town Called Paradise, ficou claro que o produtor realmente havia abandonado o trance. Por outro lado, músicas com pegada totalmente pop como “Red Lights”, apesar de se desvirtuarem totalmente do estilo do produtor, renderam-lhe discos de ouro (gold singles) nos EUA. Enquanto sofria severas críticas sobre sua mudança, Tiesto conseguiu que sua carreira nunca saisse do topo. De 2005 a 2011, esteve 4 vezes em #2 e 3 vezes em #3 no ranking da DJ MAG. Seu álbum “A Town Called Paradise” foi lançado por sua própria label, Musical Freedom Records, que adquiriu nova roupagem quando começou a ser administrada pela Spinnin Records. Tiesto consolidou seu estilo no EDM/pop, começando a colaborar com produtores inovativos no ramo. Nessa nova fase, o produtor colaborou com Diplo, Showtek, Hardwell – por volta de 2012 a 2014. A partir de 2015, Tiesto colaborou com produtores ainda mais novos/novatos na cena, como KSHMR, Oliver Heldens, MOTi e Mike Williams.

O que fez o produtor basicamente renegar seu próprio estilo? Ele mesmo responde, em entrevista à DJ MAG em 2014 (tradução livre): “Atualmente ninguem liga para maioria dos produtores que continuaram a produzir o mesmo estilo trance que produziam antigamente. É bom estar sempre em contato com essa criançada que tem aparecido e produzido house music. Essa nova geração de jovens de 16-18 anos que produz house estariam desconectados da minha produção, se eu tivesse continuado a produzir trance”.

Considerando apenas o ponto de vista que Tiesto explicita na entrevista, entendemos que a mudança em sua carreira foi em prol das gerações de fãs que virão. Todavia, podemos também entender o quão foi estratégica tal mudança. Em 2012, Tiesto volta a rankear #2 na DJ Mag, indo para #4 em 2013 e #5 em 2014. É incrível como um DJ com tanto tempo de carreira manteve-se entre os melhores do mundo – e o segredo por traz disso é a versatilidade de seu estilo, além do acerto nas parcerias com a “galera nova” da cena da música eletrônica. Notamos ainda mais esse caráter estratégico quando notamos que Tiesto se tornou sócio e artista da Red Light Management em 2013, empresa que também cuida da carreira de Jauz e de Mashmello. Ou seja, Tiesto literalmente lucra com a grandeza e versatilidade de sua própria carreira, com os releases em sua label Musical Freedom Records (inclusive ao promover e colaborar com novos artistas) e com a Red Light Management.

De posse de todas essas informações, podemos entender o quão interessante e geniais são as repercurssões as aparições de Tiesto no EDC 2016.

Outro DJ e produtor que tomou atitude semelhante a Tiesto foi Armin Van Buuren, com algumas diferenças. Apesar de ter focado sua carreira nos ultimos anos em pop e EDM (e não em trance, que produzia originalmente), Armin ainda ajuda e suporta toda uma cena trance contemporânea, através do A State Of Trance (podcast) que, apesar de quase ter sido descontinuado 2014, mantem-se firme forte até hoje. Armin também é dono da label Armada, que lançou muito de seus hits.

Tanto Armin quanto Tiesto, com suas mudanças de estilo, geraram muitas críticas, principalmente de fãs de longa datas. Tornou-se normal ouvir “Tiesto morreu quando parou de produzir trance”, dentre outros comentários. Todavia, a realidade do mercado da música eletrônica diz o contrário. Com ambos os DJs mantendo-se entre os 10 melhores do mundo todos os anos (no ranking da DJ Mag), é fácil concluir que para ter sucesso, é necessário, além de talento, muita estratégia (e tolerância com possíveis críticas). Dessa forma, os resultados (tanto em lucro como em popularidade) Tiesto (e Armin) possui, advém principalmente de sua versatilidade (versatilidade essa que culminou com a tacada de marketing ocorrida no EDC). A observação desses fatos concretos, a despeito de críticas de fãs puristas, nos leva a uma conclusão quase que darwiniana: “aquele que sobrevive (na cena da música eletrônica) é o que melhor se adapta!”.

Fique por dentro