Um conto de duas cidades

Por Francisco Cornejo

Foto de abertura: Nu Azeite por divulgação

Luz e sombra, paraíso e purgatório, areia e lama, concreto e papelão, brisa e bafo, AC e PVC, varanda e laje, orla e morro. São muitos os dualismos que entrecortam uma cidade tão cheia de contrariedades e desigualdades como o Rio de Janeiro. Não parece haver meios-termos entre tantos extremos que pontuam o jogo constante de pobreza e riqueza, tanto exterior quanto interior, que definem os pólos de humanidade e desumanidade que acabam por determinar a atmosfera da vida cotidiana em qualquer grande cidade, mas nesta específica esse contraste se apoia numa amplitude incomparável.

O Rio é denso em cada detalhe, tenso em cada canto, intenso em cada nuança, especialmente naquilo que nos regala musicalmente. E aqui, como bem sabemos, todos esses elementos díspares são amalgamados em compostos de estabilidades variadas  que procuram conciliar ou colidir todas essas energias opostas. Assim, os resultados podem assumir diversas formas que se manifestam em uma infinidade de possibilidades rítmicas e melódicas, oriundas de tudo de mundano e sublime que faz da cidade o que ela é, para o melhor e o pior.

Peguemos dois lançamentos que coroam esta última sexta-feira, 11, um dia celebrado e ansiosamente esperado no mundo de outrora, mas, que agora, se ergue como as ruínas de um portão antigo em meio à reencarnação moderna da cidade a que pertence, um marco que denota uma temporalidade que ainda pode ser lembrada, mas não mais vivida. Um dia como qualquer outro nos dias de hoje, mas, que nesta sua ocorrência específica, trouxe duas amostras magníficas de como o ambiente urbano e o material musical se alimentam mutuamente.

“Vem Com Nóix”, a festiva segunda faixa do duo Nu Azeite é uma bela homenagem a uma sonoridade clássica que se tornou bastante denotativa de uma certa era dourada carioca. Sua timbragem brilhante e levada malemolente, em muito tributária do esquema do boogie fluminense dos anos dourados de Lincoln e Robson, nos leva imediatamente ao calçadão fervente no verão, repleto de corpos reluzentes e aquela energia vibrante que parece se alimentar de um sol que nunca se põe.

 

Em cada detalhe, do material musical ao visual, passando até mesmo pelo título gracioso, a faixa trabalha esses tantos elementos que perduram em nossa memória quando pensamos no Rio como aquele idílio tropical que se tornou tão conhecido. Uma cidade ainda coberta de fantasias sociais nostálgicas, alimentadas por aquela euforia fácil que se tornou mundialmente famosa.

“Retratos de Comutação”, o álbum de estreia de Ananda Nobre pelo selo Domina, pinta uma outra existência na mesma urbe. Tudo aqui tem uma força muito mais visceral e primeva, propelida por poderosa percussividade que carrega temas por vezes sombrios e tenuemente esfuziantes, mas incansavelmente vigorosos, levando-nos por caminhos tortuosos numa cadência quase sufocante.

Ele é contundente por completo e em toda sua duração, entrecortado por irregularidades que em muito nos remetem aos acidentes geográficos e os incidentes demográficos que fazem dessa metrópole um lugar tão prenhe de promessas e infenso à mudança. Uma trilha que nos leva por todas essas trocas diárias que formam o tecido urbano, entremeado por toda a confiança de que precisam para ocorrer e esgarçado pelas injustiças que daí decorrem.

 
Por mais que uma faixa e um álbum sejam essencialmente incomensuráveis, ambos são fruto dos esforços de artistas nativos de uma mesma cidade, inspirados e informados por uma realidade compartilhada, mas são completamente distintos no que evocam e provocam em matéria de pensamento e sentimento ou até no que representam e apresentam em termos de autenticidade e musicalidade. Cada um a seu modo nos ajuda a lembrar o porquê dela ser considerada maravilhosa por tanto tempo por tanta gente de tantas maneiras: o Rio é um terreno fértil de muitas coisas que nos seduzem e assustam, alegram e entristecem, excitam e brocham, atraem e repelem.
 
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Ananda Nobre – Foto: divulgação

E é justamente neste conflito que o Rio de Janeiro consegue sempre nos surpreender com tantas coisas musicalmente únicas como estes lançamentos, apesar e por causa do ambiente do qual se nutrem. Respectivamente, eles nos trazem num presente tão delicado como este em que vivemos tanto glórias de um passado majestoso que sempre pode ser revivido quanto as agruras de um futuro incerto que precisa ser enfrentado.

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