Por Valente
Foto de abertura: divulgação
Os gaúchos Bruno Mezomo e Matheus Bergesch são fortes representantes da nova geração de ícones da música eletrônica brasileira. Em mais de 10 anos de história, já são vários projetos e lançamentos expressivos, entre eles o selo Sunset Sessions, em Santa Maria. A produtora consolida-se, ano após ano, como um das principais cabines nacionais e tem, em seu currículo, eventos em parceria com o D-Edge e o Warung Beach Club.
Agora é a vez de “Vega” tomar destaque e mostrar o resultado de anos de dedicação e entrega para a produção musical. Lançada de forma independente, a faixa traduz — em altíssimo nível — a verdadeira concepção musical dos amigos, que entendem ser esse um processo longo e desafiador. Com forte influência do afro house, Vega não se limita a apenas um gênero e reúne influências diversas que formam a identidade artística da dupla.
Não bastando tanto profissionalismo, ambos possuem forte compromisso com a manutenção da cultura eletrônica e a formação de novos talentos. Bergesch ensina produção musical na AIMEC de Florianópolis e Mezomo, além de integrar o elenco da D-Agency, é o fundador do Strategy for Artists, plataforma que visa transformar jovens criativos em artistas acima da média.
Confira nosso papo com os parceiros e leia ao som de “Vega”!
HM – Salve, Bergesch! Salve, Mezomo! Vida longa aos projetos de vocês. Faremos agora uma viagem no tempo para falar de sonhos e propósito: voltando a 2008, quando vocês ainda nem sabiam tocar em CDJ. Que sonhos vocês tinham lá atrás, mesmo sem saber exatamente como correr atrás, e que hoje podem comemorar de já estarem realizados? O caminho percorrido para alcançá-los foi parecido com o que vocês projetaram?
Lá atrás a gente sonhava em poder sentir a energia de tocar nossas músicas na frente das pessoas. Bem lá no início, estar em um line up, fazer um DJ set em uma festa já era um sonho. Foi alguma estrada até a gente realizar esse primeiro objetivo.
Depois o sonho era conseguir chegar em um alto nível com as nossas criações, com a nossa expressão musical. Esse foi um desafio ainda maior, mas o sonho começa a acontecer. Dá pra dizer que sim, o caminho foi parecido com o que a gente idealizou lá atrás.
HM – O cenário da música eletrônica é o território do imprevisível, em que alguns artistas, por vezes, saem do anonimato para o estrelato em uma velocidade inacreditável. Aprender a seguir o seu próprio tempo e respeitar as etapas certamente foi um dos aprendizados mais importantes dessa caminhada. Que insights vocês consideram como os mais transformadores para vocês?
Um dos principais insights para guiar toda a jornada é ter a visão clara. Ter muita clareza do que quer alcançar, então elaborar estratégias certeiras, que sempre conduzam para mais perto dessa visão. Outro insight fundamental é a questão de colocar a arte acima de tudo, colocar a maior quantidade de horas no desenvolvimento da sua arte, tornar esse o foco de toda sua energia nos primeiros passos da trajetória.
HM – Em um mundo em que tudo parece ser instantâneo, vejo na história de vocês, sobretudo, uma lição de paciência. Mesmo já tendo realizado feitos incríveis, vocês reconhecem que esse é apenas mais um recomeço de uma trajetória que ainda requer muita determinação. Será esse o segredo para se ter uma carreira sólida? O que mais é necessário para viver de música?
Certamente é só mais um dos primeiros passos, ainda estamos no começo. Essa mentalidade serve pra sempre estar buscando melhorar. Para viver de música, tem que mergulhar intensamente nesse universo e desenvolver uma série de habilidades.
HM – De fato, para viver de música, é necessário ir além de possuir meia dúzia de habilidades. Da mesma forma, as referências de vocês vão muito além do cenário eletrônico, como evidencia o vocal de umbanda inserido na faixa “Vega”. Que outros estilos musicais vocês usam como matriz, e que deixariam como sugestão para quem usa o som de vocês como referência?
As referências vão bem além da música eletrônica que a gente toca. O afrobeat de Fela Kuti tem grande influência, outros estilos bem orgânicos como o reggae e o jazz também inspiram. Da própria música brasileira a gente também explora os pontos de umbanda, o samba, o maracatu, e por aí vai.
HM – Outro ponto importante é o compromisso que ambos têm com a formação de novos artistas: Bergesch é professor na AIMEC e Mezomo é o mentor por trás do Strategy for Artists, uma plataforma com conteúdos incríveis. Em um mercado que mostra cada vez mais grandes DJs se propondo a ensinar, sai na frente quem já começou? E o que esperar dessa nova geração de artistas que está se formando?
Na verdade sai na frente quem tem conteúdo genuíno para passar, mas claro que quem se preparar bem desde agora leva vantagem. Essa geração é a mais promissora da nossa cena, com a informação disponível, tanto na parte técnica de produção musical quanto na parte estratégica, a gente vai ver muita gente excelente indo longe!
HM – Em um contexto em que a tecnologia parece eliminar as distâncias físicas, chamou atenção o fato de vocês não abrirem mão de encontros pessoais, mesmo precisando vencer uma certa distância. Em recente entrevista a House Mag, Solomun tornou a falar sobre a necessidade de contato direto com a pista. O que há de tão especial nessa conexão presencial? E como vocês estão fazendo para sobreviver a esse período tão longo sem a mesma interação de antes com público?
>> Leia a entrevista exclusiva do Solomun na House Mag <<
É um desafio gigante não ter o feedback presencial, não presenciar uma reação verdadeira do público ao nosso trabalho, seja positiva ou negativa. Essa resposta olho no olho com a pista é insubstituível e difícil de amenizar. É o que faz valer a pena todo o esforço do artista.
O que resta é continuar fortalecendo as relações pelo online e então produzir muita coisa nova para o retorno que virá!
HM – A Sunset Sessions, sem dúvidas, é um dos projetos mais expressivos de vocês. Mesmo nesse período extremamente instável, a label não desistiu de olhar pra frente, de buscar novas formas de movimentar a cena e entregar valor para vida das pessoas. Acredito fortemente que a colheita dos frutos dessa determinação já está por começar. Aos poucos, nossa população está sendo imunizada e ano que vem a Sunset completa 10 anos. Podemos já ficar ansiosos por um grande evento? Que spoilers vocês podem adiantar?
Um dos momentos mais aguardados é o dia em que anunciaremos o calendário do retorno da Sunset Sessions. Certamente essa energia acumulada vai exigir grandes celebrações, que já estão sendo idealizadas. Mas para manter os pés no chão, vamos apenas dizer que 2022 promete muito.
HM – O lançamento de “Vega” representa o momento em que, finalmente, ambos conseguem expressar – em alto nível – sua verdadeira concepção musical. Contudo, já são cerca de seis anos nessa busca, e ainda assim, é pouco para as aspirações de vocês. No âmbito da produção musical, quais foram os amadurecimentos necessários para avaliar que agora, sim, é possível entregar uma sonoridade realmente primorosa?
O principal ponto é a evolução da percepção musical, essa capacidade do ouvido perceber detalhes e elementos dentro do espectro de frequência. No início, independente do esforço, das horas de estudo e da vontade intensa, a gente ainda não evoluiu essa percepção o suficiente para fazer as escolhas certas na hora de construir uma música. Após muita tentativa e erro, muita construção e muitas horas ouvindo e escutando referências, a gente vai percebendo as nuances, o que funciona melhor e o que não serve, e aí a sonoridade de alto nível começa a aparecer.
HM – É uma satisfação imensa compartilhar esse momento com vocês. Para encerrar, gostaria de fazer uma pergunta pessoal. Por que vocês fazem música?
Eu faço música para expressar meus sentimentos e contagiar as pessoas com a energia que eu carrego.
