Por Dada Scathach
Foto de abertura: divulgação
As veias estão pulsando alto, em ritmos distintos. O suor vai escorrendo na testa até ranger no chão. As luvas grandes encontram o saco de pancada e, de repente, a mistura de sons move a energia do lugar completamente. Essa é uma cena da rotina de Johnny Luiz, que teve a música como aliada em sua trajetória de superação.
“Todas as Palavras” mostra que as surras nem sempre foram fáceis. A trajetória de Johnny ganhou frames vibrantes e samples de flauta no trabalho mais recente de André Lion e Felipe Lion (Central Content) em parceria com o produtor, musicista e compositor L_cio (Entourage / D.O.C / Capslock / MEMNTGN). É nos estúdios de boxe em São Paulo onde toda adrenalina ganha palco e traça uma narrativa subjetiva e inspiradora.
Quando Johnny decidiu falar sobre sua identidade de gênero para o mundo, os demônios de um passado violento começaram a dar lugar a uma história baseada em descobertas e autoaceitação. Ainda assim, existir continua sendo uma provocação.
“O único desafio que eu tenho hoje é conquistar SEMPRE o respeito por ser quem eu sou, assim como outras pessoas LGBTQI+ que lutam todos os dias por respeito e não abaixam a cabeça para essa sociedade que ainda é preconceituosa. Esse é meu desafio. Minha luta diária”, disse Johnny.

Foto: divulgação
O clipe apresenta obstáculos que ele superou no país que mais mata pessoas trans no mundo e, entre socos e golpes, também encarou o combate para sair do tráfico de drogas. Hoje ele usa a palavra “VITÓRIA” para definir sua existência, e complementa. “Eu me sinto feliz, me sinto vencedor quando olho lá para trás!”
O encontro de L_cio e Johnny aconteceu pela primeira vez em 2010, quando se conheceram no projeto/festa Under_line, na Rua Augusta. Depois de um ano de convívio, o resultado foi uma amizade verdadeira e 51 edições do rolê.
“Participar de um projeto tão lindo, que promove a arte e um storytelling tão significativo, me faz sentir vivo e feliz por minha música ter sido o caminho que me levou até a produtora, idealizadora do projeto. Reencontrar o Johnny (mesmo que pela internet) numa situação tão rica, foi muito especial. Dá pra perceber o tanto que esse projeto contribuiu e mexeu com minha vida positivamente, mesmo em um momento (que já dura mais de um ano) tão surreal e triste”, L_cio compartilha.

Foto: divulgação
Embora o caos e a desordem continuem atingindo (não só) a classe artística, os empecilhos do contexto atual não impediram a realização do filme – que já vinha sendo estudada pelos produtores há algum tempo. André e Felipe são fãs de longa data e têm o hábito de adicionar as músicas de L_cio nas playlists de seus projetos, afinal, “LUDICIDADE” é a palavra escolhida pelo musicista ao figurar seus objetivos por meio da música.
“O som do Laércio é muito rico em elementos e provoca uma alternância de sentimentos de contemplação e ação que foi perfeita para as emoções e sensações que a gente queria trazer para o filme. Além disso, o fato do Johnny e do Laércio se conhecerem tornou a concepção musical desse filme um processo muito pessoal e isso se reflete no resultado final de uma forma super original”, André pontua.
Até então, a Central Content (CC) não tinha conhecimento sobre o contato de L_cio e Johnny, mas os interesses em comum (como a música eletrônica) criaram uma parceria forte desde o início, capaz de driblar as dificuldades impostas pela Covid-19. Com direito ao uso exclusivo de “HOPE“ (a faixa tema, lançada através do VA da CALDO, SP), a obra ainda apresenta “Complet“ e “Avante“, que já circulavam nas plataformas de streaming.
“Filmar durante essa pandemia tem sido um grande desafio para todos. As associações do setor audiovisual desenvolveram uma série de protocolos super rígidos para viabilizar o retorno das filmagens de forma segura e temos um resultado bastante positivo com todos os profissionais do setor muito conscientes da importância de seguirmos à risca esses protocolos, e foi isso que fizemos para conseguirmos filmar esse projeto de forma segura. Os maiores desafios foram sem dúvida a necessidade de redução da equipe e a criação de um roteiro mais enxuto, já que o custo operacional das produções aumentou”, disse André.

Foto: divulgação
Esse match perfeito surgiu com a ideia original de realizar um projeto sobre o universo das bikes fixas, e que acabou permeando nas movimentações em perímetros urbanos. Na busca por personagens para a narrativa, o encontro foi surpreendente. “A gente (CC) não sabia quase nada a respeito dele [Johnny] e quando tivemos a nossa primeira conversa on-line foi um encontro muito especial e percebemos ali mesmo que tinha uma coisa muito maior para ser dita, e uma pessoa muito especial querendo contar a sua história. A narrativa se desenvolve na base de uma alternância entre momentos de ação e contemplação de alguém que está intrinsecamente ligado à cidade e que está sempre em movimento. É uma alegoria musical e visual da trajetória do Johnny e que mistura um pouco sonho e realidade.”
A trajetória de Johnny conta com cicatrizes que hoje representam sua luta e inspiram outras pessoas em suas jornadas individuais ou coletivas. A produtora usa a palavra “RESILIÊNCIA” para sintetizar a busca incessante por espaços que acolham corpos marginalizados socialmente, e admite que “ainda é necessária muita luta e mobilização para conseguirmos superar um contexto histórico que se forjou durante séculos de forma opressiva e unidimensional.”
