Como a SpaceSex FM pretende ser uma das principais rádios de música eletrônica do Brasi

Por Lau Ferreira

Foto de abertura: Gabriel Vickbold

De Vitória, no Espírito Santo, vem crescendo organicamente uma rádio FM de música eletrônica que está se preparando para ser a melhor do Brasil. A missão é dura e ousada, mas seu coordenador artístico, programador e, também, locutor, Wagner Henrique, ou melhor, Paco, garante que não descansará enquanto não realizá-la.

Chamada SpaceSex, a rádio entrou no ar em dezembro, sob a frequência 101.5, em caráter experimental, apenas com sets mixados de house. Em janeiro, estreou oficialmente, também on-line e, de lá pra cá, passou a ganhar vinhetas, locutores e uma programação cada vez mais delineada, que contempla o novo, o clássico, o que é acessível e o que é underground. “Na SpaceSex, você pode ouvir os Bee Gees, Tavares, One Way e o Vintage Culture; Gui Boratto, Marky, Patife, DJ Meme e Dr. Packer; Jamie Jones, Chris Liebing, Stimming, Dimitri from Paris e Nile Rodgers”, diz Paco.

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Foto: Gabriel Vickbold

Com mais de 30 anos de estrada, o diretor da rádio já foi de tudo: DJ, empresário, diretor de gravadora e radialista. Gerenciou DJs como Marky e Deeplick, trabalhou em selos como CBS, Sony Music e Universal Music, fundou a 3Plus Music (futura Plusnetwork) ao lado de Edo Van Duyn, Luiz Eurico Klotz e Paulinho Silveira, gravou discos de nomes como Gui Boratto, Leo Janeiro, Boghosian, Mixhell e Anderson Noise e foi residente de casa noturna que tinha Faustão como um dos sócios. Mas, a vida agitada em São Paulo, sua cidade natal, estava cobrando um preço alto a sua saúde física e mental.

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Marky, Paco e Ricardo Guedes – Foto: divulgação

Em 2011, conheceu a radialista Mônica Camillo em Vitória, casou, teve filhos e voltou para onde tudo tinha começado: a rádio. “Ganhei muito em qualidade de vida. Nas grandes capitais a gente se engana muito. É como andar em círculos. Quero chegar aos 50 com mais saúde e amor. Se estivesse em São Paulo, não sei se estaria vivo”, afirma.

Há cinco anos trabalhando para o grupo capixaba HF News, que detém as rádios Rocket 977 e Cidade (que está sendo relançada em uma nova frequência), foi positivamente surpreendido quando surgiu a oportunidade de tocar o projeto da SpaceSex. E ele garante, a rádio vai longe.

Para saber mais, batemos um papo com Paco. Confira!

HM – Que tipo de artistas e estilos vocês tocam? Como definem a curadoria?

Tocamos basicamente house music e seus derivados. Pra mim, rádio tem que ser agradável, gostoso de ouvir, com a pitada certa de informação. Durante o dia, a rádio tem um sabor tropical, uma pitada do eletrônico mais pop. Os programas especiais à noite se encarregam de colocar a pimenta na programação.

Meu sonho sempre foi fazer uma rádio que tocasse o novo, respeitando o passado. Conseguimos tocar os clássicos dos anos 70, 80 e 90. Tocamos remakes, re-edits, remixes e muitos bootlegs. A curadoria são os mais de 30 anos de muito amor dedicados à música.

Na SpaceSex, você pode ouvir os Bee Gees, Tavares, One Way e o Vintage Culture. Gui Boratto, Marky, Patife, DJ Meme e Dr. Packer. Jamie Jones, Chris Liebing, Stimming, Dimitri from Paris e Nile Rodgers.

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Parte da equipe da SpaceSex – Foto: divulgação

HM – Qual o público alvo?

Jovens entre 20 e 60 anos que gostam do novo, sem esquecer o que passou e lhes trouxe uma brisa gostosa ou um sorriso no rosto.

HM – E quanto aos números da rádio, já consegue nos passar algo?

Pelo fato de estar no ar há menos de um ano, a SpaceSex não nos possibilita passar números ainda, mas posso dizer que queremos ser a melhor rádio de música eletrônica do país. Enquanto não tivermos entre 15 e 20 mil ouvintes por minuto, não estarei feliz!

O público para o qual trabalhamos é A-B, a exemplo da Rocket, que também é segmentada, e é a segunda rádio jovem mais ouvida do Espírito Santo. A Rádio Cidade ainda não entrou no ar.

HM – Transformar a SpaceSex na maior rádio de música eletrônica do Brasil é uma meta ousada. Como pretendem chegar até lá?

Se lembrarmos que a música é e sempre será a estrela, isso ajudará muito. Tocar boa música é o primeiro ponto, e isso já estamos fazendo desde a fase experimental. Aliar boa música, informação, investimento em marketing, profissionais, investir e apoiar eventos ligados ao nosso target são outros pontos essenciais.

Em um momento em que grandes redes se dedicam à informação, nós queremos tocar música, além de informar sem exageros. No Brasil, não existem tantas rádios focadas na música eletrônica. Nós queremos estar onde estamos e estamos onde queremos.

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Paco, Jose Luiz Dantas (presidente) e Bolla nos estúdios da Rocket – Foto: divulgação

HM – Num mundo em que o streaming e o YouTube são lei e as pessoas escutam cada vez menos rádio para ouvir música, por que ainda insistir nesse formato?

Nós temos uma opinião diferente do que você sugere nessa pergunta. Com todo respeito, o rádio voltou a crescer. É óbvio e claro que o streaming e o YouTube têm um espaço absurdo hoje em dia, mas, a credibilidade do rádio voltou a aparecer.

Quando as plataformas digitais surgiram foi um boom, todo mundo queria ter a sua playlist. A questão é que somos da música e podemos fazer essa curadoria para as pessoas. Muitas das pessoas que ouvem a nossa Rocket nos escrevem dizendo que aposentaram seus pendrives e cancelaram suas contas no Spotify, Deezer, Tidal, iTunes. Logo, teremos acesso às rádios/TVs/web e a coisa vai ficar mais bacana ainda! O novo formato de rádio custa caro, mas, está chegando.

HM – Você foi pioneiro no mercado brasileiro da música eletrônica e trabalhou com figuras que se tornariam alguns dos principais players dessa indústria. Como vê a consolidação e evolução desse cenário no país?

Não sei se podemos afirmar isso, sobre pioneirismo. Eu estava na indústria nos principais momentos de transição de 30 anos para cá: o surgimento do CD e as pessoas trocando suas coleções de fitas k7 e vinil; recordes de vendas dos CDs; o fenômeno do Axé; Mamonas; os sertanejos; o surgimento da pirataria; MP3.

Posso dizer que as pessoas do mercado de música ligadas à música de pista, dance music, música eletrônica, empresários, DJs e produtores sentiram menos os efeitos dos novos tempos. Era algo que não me assustava, saber que era possível baixar músicas de sites de compartilhamento. Eu pensava: “isso vai ser DEMAIS!”.

Juntamente com o mundo digital, a possibilidade que aparecia de se fazer música em casa. Os caras que eram DJs migrariam para produção, novos surgiriam e a demanda iria ser gigante. Muitas oportunidades, mudanças, mudanças, mudanças.

Quem estava melhor preparado, se deu bem. O triste é que muita gente não se deu bem também.

HM – Que tipo de som você tocava como DJ?

Eu sou de 72. Cresci ouvindo disco, soul, funk, jazz, tenho os pés fincados no groove. Como DJ, me encontrei fazendo o que chamam de “Open Format”, tocando hip-hop e house music.

Sou aquele cara que toca o que for preciso para fazer de uma festa ou evento, um sucesso, seja ele pop ou underground. Meu negócio é fazer as pessoas felizes. Se apenas eu estiver sorrindo, não vale.

HM – Ouvimos muito pouco falar sobre a cena eletrônica no Espírito Santo. Há uma cena capixaba forte?

Existem produtores muito interessantes não só na música eletrônica, mas também no rock, trap, MPB. O capixaba é de uma riqueza cultural e de espírito impressionante. Tenho tocado sons de nomes muito legais por aqui: Double Jab, Silllaz, Jeff Ueda, Brunelli, Chris Helv, Jess Benevides e uma garota chamada Lowez que é espetacular são alguns exemplos.

Fora os DJs, que são muitos: Luciano Valença, Mark Dias, Quadrini, Victor Kill, Zogaib, Cimá.

HM – Por que as pessoas deveriam ficar de ouvidos atentos à programação da SpaceSex?

As pessoas que amam música vão se surpreender. Eu sempre fiquei muito feliz todas as vezes que estava ouvindo rádio e tocava algo novo que mexesse com a minha alma. Desejo fazer o mesmo com as pessoas e creio que já estou conseguindo. O rádio tem uma magia. A música salva, é um remédio para muitos males.

Em dezembro, tive covid, fiquei 13 dias internado e houve um momento em que pensei que não sairia dali. Quando melhorei um pouco, me trouxeram um computador e me recuperei montando sets para a SpaceSex.

Houve uma música em especial que eu ouvia quando criança, em 1979, que mexeu muito comigo. Recebi uma mensagem de que havia disponível um remix feito pelo Meme para comprar, “Keep on Dancin` (DJ Meme Remix). Comprei, e quando baixei e fui ouvir, aquilo foi como um elixir dos deuses — ouvi por uma tarde toda no repeat. A música soou para mim como um aviso de que eu continuaria vivendo, sonhando, trabalhando, cantando, dançando. Keep on dancin`!

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