Por Marllon Gauche
Foto de abertura: Ella Whatt por divulgação
Muito se fala sobre a importância de construir uma identidade sonora sólida e original no mercado da música eletrônica, mas é bastante comum encontrarmos artistas que não querem se prender a um único estilo, atuando de forma mais híbrida. A saída mais comum para esta equação é a criação de um novo alter ego, um projeto paralelo para que não haja um conflito sonoro atuando através de um único nome.
Esse é um movimento feito por muita gente e também foi uma decisão tomada por Rodrigo Ferrari, que nunca escondeu sua paixão pelas sonoridades da disco music e criou então o 78’, um projeto focado exclusivamente neste estilo — que se desdobrou também como festa — e enquanto como Rodrigo Ferrari ele atua flutuando, principalmente, entre o house e o minimal.
Outro exemplo que também pode ser citado aqui é o de Grazi Largura, que atua de forma individual como Ella Whatt, e também é metade do duo Drunky Daniels ao lado de Vini Ferreira. Apesar de ambos caminharem para estéticas sonoras diferentes, ainda existe um ponto de encontro entre os dois projetos.
Bom, se você já se pegou nessa dúvida se deve ou não criar um projeto paralelo, nada melhor do que entender um pouco a visão de quem já mantém essa atividade em dose dupla há algum tempo. Confira o bate-papo com Rodrigo Ferrari e Ella Whatt falando sobre o assunto!
HM – Quando vocês decidiram criar o segundo projeto e qual foi a motivação principal?
Rodrigo Ferrari: O projeto já estava na gaveta há alguns anos, mas só decidi colocar em prática no momento em que consegui visualizar uma noite inteira tocando somente com os meus discos de vinil, o que foi um pouco difícil, pois estamos falando de discos mais raros e a coleção de uma vida. A motivação principal foi minha passagem por Chicago em 2017, quando encontrei as peças finais do meu quebra-cabeça na Gramaphone Records.

Gramaphone Records – Foto: divulgação
Ella Whatt: Assim como o Rodrigo, meu projeto também estava adormecido há muito tempo. Poder tocar sons que eu não conseguiria encaixar nos sets como Drunky Daniels foi um dos motivos que me fez criar outro projeto. Não sei explicar muito bem, mas o universo foi me “empurrando” pra que eu fizesse essa ideia realmente acontecer. Um mix de fatores como estilo musical — tanto para discotecagem como para a produção — poder expressar o meu eu, e até mesmo a questão de gigs, logística e tudo mais. Eu fui convidada pra fazer parte da curadoria do Austro Selections – La Femme, onde ao lado de grandes mulheres (Amanda Chang, Marian Flow, Melissa Piper e a Paula Miranda), selecionamos faixas de artistas pra compor a compilação. Foi através desse convite que eu senti a necessidade de criar o projeto Ella Whatt.
HM – E como vocês equilibram a dedicação dos dois projetos? Existe um tempo exclusivo para cada um deles ou não exatamente?
Rodrigo Ferrari: A música e suas diferentes formas de nos influenciar no dia a dia me levam a dedicar um tempo a cada projeto. Acontece de forma natural, a não ser o horário que deixo reservado para estar no estúdio ou para me preparar para uma apresentação ou produzir os conteúdos do 78’ Radio Show.
Ella Whatt: Eu deveria ser mais organizada nesse sentido, mas como a arte vem de dentro, eu não consigo simplesmente virar a chave e pensar: agora vou fazer só Drunky ou só Ella Whatt, tanto nas produções quanto na pesquisa. Quando eu tentei fazer isso, notei que eu me privei de ter boas músicas para ambos, porque quando tu tá ali fazendo uma pesquisa bem profunda e de repente tu encontra algo que não é para este projeto, mas que encaixaria perfeitamente no outro e tu não pega aquele som naquele momento, nunca mais acha de novo [risos]. Então com o tempo eu fui me adaptando e eu viro essa “chavinha” mentalmente. Mesma coisa na produção, quanto tempo eu já perdi insistindo que aquele horário X era da Ella [risos] e não saía nada porque na verdade o que tava saindo era Drunky, então eu não me prendo a hora deste ou daquele, eu deixo fluir.
HM – Mantê-los juntos em algum momento foi um problema?
Rodrigo Ferrari: Não vejo como um problema. É preciso balancear bem os dois lados para que os seguidores de um ou outro projeto não entendam de forma errada ou achem que um deles se encerrou.
Ella Whatt: Pra mim também não.
HM – Vocês acreditam que um artista iniciante pode ter mais oportunidades trabalhando com dois projetos distintos ao mesmo tempo?
Rodrigo Ferrari: Não acredito nisso. Acredito que um artista iniciante deve primeiramente criar sua identidade principal, aquela onde o mesmo assina com seu próprio nome. Pela minha experiência, é necessário ter isto de forma bem clara para depois aparecer com um segundo projeto, afinal, mudamos muito de opinião e gosto musical durante a carreira.

Rodrigo Ferrari – Foto: divulgação
Ella Whatt: Eu acredito que se for verdadeiro e com dedicação, pode sim ter mais oportunidades. Mas precisam realmente ser distintos e não só uma mudança apenas musical, já que muitos fatores contribuem para que o projeto dê certo.
HM – Quem está planejando este movimento (de criar um novo alter ego), no que deve pensar como prioridade?
Rodrigo Ferrari: Em primeiro lugar, o artista deve fazer um questionamento: tenho uma real identidade? Amo tanto assim este outro estilo a ponto de criar um alter ego? Tenho uma real relação com este outro estilo? E, por último, tenho tempo na minha agenda para me dedicar a um segundo projeto? Todas estas questões precisam estar bem claras na cabeça do artista.
Ella Whatt: Acho que o motivo do ‘porque’ o artista está criando um novo alter ego é bem importante, após isso deve pensar o que é prioridade. Mesmo que tu consigas encaixar as músicas de um projeto nos sets do outro, é muito importante que mesmo assim tu ainda consiga distinguir quando é um e quando é o outro. Identidade é tudo.
HM – E o olhar de preconceito por parte do público (de um artista não ser fiel a um estilo), pode existir? Vocês já enxergaram isso?
Rodrigo Ferrari: Pode e existe infelizmente. No meu caso, tratando-se de um projeto de músicas dos anos 70 e 80, tem gente que chega a dizer que fiquei velho e virei um DJ de flashback. Já vi outros falando mal de artistas que costumam produzir techno quando fazem um tema mais house. É uma grande besteira e, normalmente, as pessoas que cometem esse erro mal sabem onde tudo começou e quais são as reais influências de cada artista. Hoje em dia, pelo menos, isso melhorou bastante, tendo em vista o gosto mais eclético do público em geral com todo o fácil acesso à informação do mundo digital.
Ella Whatt: Vejo de forma parecida ao Rodrigo. Se tu tivesse me perguntado isso há 10 anos, eu diria que sim, super existia preconceito. Tanto que quando eu decidi mudar meu estilo musical há anos, eu tive que realmente parar de tocar por uns seis meses porque a galera não só olhava feio, como falava mal também. Foi quando eu aproveitei essa pausa, fiz uma imersão em estudos pro novo estilo que eu queria seguir e mudei de país, fui estudar e tocar fora. Mas olhando pro hoje, eu diria zero preconceito e bem pelo contrário, a galera acha muito foda aquele artista que consegue fazer sonzeira independente do estilo, existem muitos gringos famosos que fazem isso, inclusive, e é tão bem feito que quando descobrem que é a mesma pessoa, ficam chocados. Claro que a gente sabe que sempre tem um hater ou outro, mas isso é minoria. De um modo geral a turma toda tá bem mais aberta hoje em dia.

Ella Whatt – Foto: divulgação
HM – Olhando para o lado positivo, um projeto paralelo também pode servir como uma `válvula de escape’? Visando explorar a criatividade através de outros sons?
Rodrigo Ferrari: Com certeza! Às vezes estou meio travado no estúdio e mudo meu disco de lado um pouquinho. Tudo fica mais claro quando faço isso. É como tomar um ar ou um banho refrescante nas ideias!
Ella Whatt: Com toda certeza, foi assim que Ella Whatt foi surgindo, uma válvula de escape para produzir outras coisas, pesquisar outras músicas e sair da zona de conforto. O Vini, que é meu parceiro no Drunky Daniels, é um exemplo bem próximo disso. Já produziu álbum de reggaeton, rap, tem o projeto paralelo que se chama Xneez (vão conferir no Spotify) e como também é professor há mais de 10 anos, sempre escutei ele falando e repetindo pros alunos que saíssem da zona de conforto e produzissem outras coisas, ouvissem músicas do qual não estavam acostumados a ouvir. Até porque tudo que a gente vai fazer de novo existe um tempo de estudo, e estudar nunca é demais, né?!
