Por Dada Scathach
Foto de abertura: Murilo Bahia
Quando o cataclismo da pandemia do Covid-19 impôs o isolamento social no começo de 2020, diversos artistas buscaram alternativas para manter a visibilidade dos seus trabalhos.
Uma vez que as festas foram impedidas de acontecer por tempo indeterminado, essas novas articulações viraram o jogo e provocaram um intercâmbio cultural entre diversos países, rodando uma enorme gama de artes digitais, linguagens e técnicas.
Quase um ano após o decreto de isolamento da OMS, as definições de “espaço” sofreram alterações drásticas. Nesse novo normal, as redes sociais e plataformas de streaming são carregadas de conteúdo após conteúdo, o que impede muitos trabalhos e artistas independentes de conseguir reconhecimento e alcance a partir das suas produções.
Por uma grande necessidade de criar palcos para tais agentes culturais, a Logia Records lançou uma chamada aberta em 2020 para aqueles com interesse em lançar podcasts, EP’s e singles através da gravadora.

Logia Records – Foto: Delfina Linhares
“A gravadora visa uma chamada aberta às `minorias` que são sutilmente deixadas de lado e, geralmente, invisíveis para o mainstream da cena; com o intuito de romper com essa dinâmica excludente e, em simultâneo, fomentar o – possível – surgimento de novas personalidades capazes de enriquecer o crescimento musical de todos”, diz o selo à HM.
A proposta explora os aspectos das mudanças cada vez mais presentes na nossa vida cotidiana, sejam elas ligadas à arte, cultura ou história. O coletivo de artistas argentinos atua diretamente na manutenção da cena underground de Buenos Aires e sente o som com a temperatura e vibração das pistas de dança. Flertando com o indie-dance, post-punk, techno e acid, cria uma identidade marcada por graves sombrios e pesados.
A estreia da série Logia em 2021 ficou por conta de Xoxottini. A artista brasileira apresentou o set “Lesbian Shield”, feito com base em uma pesquisa inteiramente de produtoras mulheres.
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Buscando compartilhar sensações e reflexões próprias, Xoxottini nos convida a percorrer uma experiência dramática e atemporal. Sua versatilidade viaja pelo dark disco, synth wave, indie dance, Italo disco, EBM e nu disco (transitando também entre o techno e electro). Sem dúvidas, a DJ e produtora marca seus sets demonstrando sua forte personalidade com batidas intensas, psicodélicas, futuristas e enternecedoras.
Nesse mix, ela dirige seu caminhão por uma viagem intensa e intrigante através das mãos e mentes de mulheres incríveis que a inspiram, construindo uma narrativa que interliga o techno ao electro, o breakbeat ao indie dance, passa pelo misterioso dark disco encontra o dramático synth wave.
“Na série de podcasts da rádio cada mix possui um nome, e logo veio na minha cabeça que o set chamaria `Lesbian Shield`. Meu nome artístico tem uma história e esse termo faz parte de tudo isso”, conta a residente das festas belo-horizontinas Avulsa e TREMBASE (na qual também é produtora), que começou a discotecar na adolescência ao acompanhar o pai – que é DJ, técnico de som e sua maior fonte de referências dos anos 80.
“Na época em que me assumi lésbica para minha família foi um caos – meus familiares, não tiveram uma boa reação. Minha mãe apareceu horrorizada no meu quarto dizendo que minha tia havia me visto fazendo o `escudo lésbico` em uma foto e, na hora que ela disse isso, fiquei me perguntando de onde surgiu esse termo. Este dia foi bem dramático, mas, ao longo da semana, comecei a achar o termo incrível e me apropriei completamente dele! Foi daí que também surgiu Xoxottini”.
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A idealização do set representa esse momento de autoconhecimento e autoafirmação. A construção baseada em mulheres que a inspiram – e em artistas que conheceu recentemente – fez com que sua personalidade fosse representada na mistura dos seus gostos musicais e universos sonoros preferidos. “Para mim, a música é uma forma que vejo de conexão entre as pessoas e, quando estou gravando um set, procuro sempre estruturá-lo de uma forma que eu consiga exteriorizar meus sentimentos, assim, posso me conectar com os ouvintes. Foi um set bem difícil de estruturar durante a gravação, já que eu queria idealizar diferentes vibrações e, ainda assim, mantê-lo coeso com início, meio e fim, e dentro da minha própria identidade musical. Cheguei a regravar umas sete vezes!”, revela.
Tracklist
Valesuchi – Nasty Woman
Mari Herzer – Autoconstrução
Zanias – Carbon
Badsista – FEELING DE DOIDA
Badsista – NA ONDA DA BABYLON
Octo Octa – River
Ananda & KENYA20Hz – Transmissão Pro Fim Do Mundo (KENYA20Hz Remix)
Sheefit – Why
She Teiks & Fernanda Arrau – Ácida (Fernanda Arrau Remix)
Cyndi Lauper & Honey Dijon – Sex Is In The Heel (Honey Dijon Club Mix)
Peaches & Maya Postepski – Vaginoplasty (Maya Postepski Remix)
Kim Petras – TRANSylvania
Shubostar – Maoi
Anastasia Zems – Act
Terr – Welcome Rain
Perel – Die Dimension
Frontinn – Corporate Advertising
Marie Davidson – Renegade Breakdown
