Por Luiza Serrano
Foto de abertura: divulgação
Em março de 2020, pelo menos por aqui em terras tupiniquins, vimos nossas vidas virarem de cabeça para baixo devido a um vírus que veio para bagunçar, ou organizar de alguma maneira, as nossas vidas. Tudo depende do ponto de vista, não é mesmo?
Mas, é consensual o quanto a pandemia da Covid-19 afetou o mundo psicologicamente, fisicamente, economicamente e, um dos setores que têm mais sofrido com o vírus foi o dos eventos. Isso inclui toda a sua roda, chegando a música eletrônica que, por aqui no Brasil, caminhava cada vez mais para o reconhecimento, profissionalismo e estrutura que sempre trabalhamos para alcançar.
Não se trata mais apenas de eventos, mas, de milhares de empregos diretos e indiretos movidos, no nosso caso, pelos bpms. De acordo com a Associação Brasileira de Promotores de Eventos (Abrape), 335.435 formais. O número vai além, quando somamos os trabalhadores indiretos que, nesta pandemia, tivemos certeza que são muitos, profissionais autônomos que vivem, literalmente, do “aglomero”.
O presidente da Abrape, Doreni Caramori Júnior, chegou a dizer que os empregos afetados no segmento superam em quase 80 vezes os perdidos com o fechamento das fábricas da Ford no país, o que não causou tanto impacto na sociedade quanto a despedida da montadora. Um fato importante que revela, talvez, uma fragilidade na imagem do setor de eventos ou a própria organização entre os milhares de envolvidos.
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Bom, mas onde quero chegar? Tivemos que nos reinventar e estabelecer padrões para um novo normal. E a questão é: será que o novo “normal” será um dia o normal? Ou será que a famosa frase de Clarice Lispector encaixará perfeitamente no ponto que quero levantar: “tudo é por enquanto”.
Seguindo uma linha de pensamento em tópicos de soluções que vai desde o primeiro momento do desespero, até o atual, que envolve a esperança da ágil vacinação em massa, vou sequenciar as ideias que acredito eu, já dão um bônus a frase citada por Lispector.
Começando pelas lives, dezenas, centenas, simultaneamente, pareciam a única forma naquele momento de se comunicar com os fãs e não cortar o laço umbilical. Foi a oportunidade de conhecer novos artistas, ouvir nomes que dificilmente vêm até o Brasil. A frequência diminuiu no ponto em que chegamos, mas, ainda existe. Alguns produtores fizeram das transmissões, projetos, séries e isso só agrega. Altas chances de ser o “normal”!
Plataformas de streaming bombando! Super “in”! Artistas correndo atrás de estudar e procurar seus direitos dentro da música: fica, fica, fica! Já deveria ser o “normal”.
Ah, as aulas, bate-papos, quanta informação a um click, gratuitamente. Ponto alto! Uma chance para quem está começando trilhar caminhos mais efetivos, para quem já está na estrada há mais tempo, uma forma de sair da zona de conforto e ir além.
Com cursos, escolas e agências criadas, a probabilidade de se tornar o “normal” é eminente, principalmente, porque artistas, produtores, profissionais da música eletrônica sentiram na pele a importância do planejamento, do marketing e da constante atualização.
Caminhando para a transmissão de festivais, como a mega estrutura do Tomorrowland, que uniu fãs da terra do amanhã em todo o mundo. Que produção! Já foram duas edições virtuais e, com a plataforma criada, podemos especular muita criatividade e imersão por parte do festival, mesmo quando o evento presencial voltar.
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Quem se lembra dos drives-in? Sim, eles aconteceram em algumas regiões do país. Porém, há um elevado custo de produção com toda a estrutura e staff, indo além, nossa música pede pista! Com certeza, não se enquadra ao “novo normal”.
Partimos para os cercadinhos e número reduzido de pessoas. Além das contas que não fecham para colocar uma festa com grandes atrações e número seleto de pessoas, alguns eventos foram feitos para multidões. E quando falamos das máscaras? Poderia ser um item extremamente importante. Países asiáticos já utilizam em locais com grande concentração de pessoas, opcional, mas consciente. Sem esquecer do álcool em gel ou aferição de temperatura, hein pessoal?
Difícil tudo isso ser o “normal”, são hábitos que poderiam permanecer e, por um tempo vão, até porque os produtores de eventos estão se preparando para isso e já cumprem os protocolos em festas com alvarás e documentação aprovados, inclusive nos formatos bar. Porém, e a cooperação do público? Entramos em um conflito, certo? Se de um lado há a tentativa de cumprir as medidas para segurança de todos e para trazer um pouco mais de cor para a situação em que vivemos, do outro, existe uma lacuna grande de respeito e de senso de colaboração. Esse antagonismo não deveria ser “normal” nem hoje, nem nunca!
Lembra quando mencionei sobre os pontos de vista? Quem usou desse “novo normal” para construir e prospectar projetos, vai levar muito do que estabeleceu nesse momento para o resto da vida. Claro que, muitas ações como vimos, foram adotadas para buscarmos soluções, mas é evidente que serão apenas “por enquanto”.
Se pararmos para pensar no que fica e no que vai embora, o normal que permanece deveria ser aquele que agrega e que contribuiu para nos mantermos até aqui. Lógico, não foi fácil, longe disso, mas, foi um motor que trabalhou – e ainda vai trabalhar por um longo tempo – intensamente, para viabilizarmos de alguma forma nossa profissão, nossos encontros, nossa saudade.
O “novo normal” hoje, que será o “normal” de amanhã, depende mais das lições que tiramos desse período que, se não mexeu com você, balançou e o fez sair da bolha, provavelmente, reflete o quanto você não está preparado para o que ainda vamos enfrentar.
