A cena de música eletrônica nos avanços da arte, ciência e tecnologia

Por Dada Scathach

Foto de abertura: Emergency Kit and Wishing Pool de GayBird (divulgação)

O momento é de transformação. Todas as definições de arte são repensadas, ao passo que artistas reformulam seus trabalhos, criam partindo de novas possibilidades e caminham em avanço com a sociedade, lado a lado de campos científicos e tecnológicos. Mas, até aqui, ainda não falamos do período de pandemia causado pela Covid-19.

No século 20, a arte passou a apresentar novas propostas e ideologias, fugindo dos padrões modernistas ainda muito presentes.

Os pós-modernistas colocaram em pauta novas formas de pensar e produzir. Aliados aos avanços da Revolução Industrial (que vinham acontecendo desde o século 18), deram berço ao período contemporâneo.

Os estudos pós-modernos de Stockhausen levaram novas propostas também para o campo da música. Já em 1977, a banda Throbbing Gristle lançou seu primeiro álbum através da Industrial Records intitulado ‘The Second Annual Report’, acompanhando a logo “industrial music for industrial people” (música industrial para pessoas industriais) e ficou marcada como uma das pioneiras em reinventar a música – agora tudo sintético.

Na mesma época, outros artistas e grupos como Z’EV, Boyd Blake Rice, Cabaret Voltaire e John Cage também passaram a experimentar sons sintéticos e estruturas musicais repensadas.

Nesse novo universo artístico, consideramos a idealização de um projeto como parte de sua produção, os estudos e pesquisas passam a ser colocados em jogo e tornam-se tão valorizados quanto o resultado final.

Essa produção conta com parcerias entre artistas que defendem o trabalho colaborativo e a desierarquização de classes como arquitetura, design, ciência, biologia e afins, reconhecendo a importância e a presença de cada uma entre si.

Em um paralelo com o contexto de hoje, vivemos em uma fase de adaptação, criatividade e desapego com uma forma antiga de produção. A cena de música eletrônica, assim como todos os outros campos, evoluiu seus trabalhos a fim de adaptar-se a um novo tempo (mesmo que obrigados pelo vírus).

Mais do que nunca, as diversas áreas – da arte, ciência, tecnologia e afins – procuram juntas por avanços.

“Digital Hug”, trabalho de GayBird que foi exposto no FILE (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica) em 2012, leva os espectadores a experimentar um abraço de uma realidade ampliada, somando tecnologia e arte em uma performance-instalação sonora e reativa. A experimentação com instrumentos inusitados é similar ao início das produções de música eletrônica, quando sons alternativos começaram a ser desenvolvidos.

Capazes de controlar padrões sonoros que resultam em música, os instrumentos digitais usam programações para obter resultados minuciosos através de dados específicos.

O controle gestual sob a música eletrônica se difere por apresentar um mapeamento de entrada e saída alternativo e muito mais preciso aos instrumentos sujeitos à física – acústicos e elétricos. Essa nova gama de possibilidades revolucionou não só a música, mas, também, o cinema e a publicidade. 

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Foto: divulgação

Criando uma relação sonora-imagética, o público se conecta fortemente com o instrumentista. A expressividade gestual dos músicos é afetada quando os movimentos se limitam a apertar botões (o que também exige expertise) e, assim, a experiência é totalmente distinta e, para alguns, limitada.

Interfaces como Sensel Morph, Touché e Linnstrument permitem mais gesticulação para os dedos, mas não dependem do corpo inteiro para apresentar o resultado esperado.

O artigo “Towards the Concept of Digital Dance and Music Instruments” (Rumo ao Conceito de Dança Digital e Instrumentos Musicais), publicado por Filipe Calegario e João Tragtenberg no NIME (Conferência Internacional sobre Novas Interfaces para Expressão Musical) em 2019, apresenta um conceito para instrumentos envolvendo música e dança, favorecendo com uma linguagem comum entre designers, performers, músicos e fabricantes de instrumentos.

Nas festas underground de música eletrônica, a performance tem um papel fundamental de comunicação. Ela coloca em pauta assuntos como sexo, corpo, identidade de gênero em relação aos propósitos de ocupação da urbe, tudo isso em um diálogo com o som, espaço, iluminação, moda.

O uso do corpo como mídia comunicativa começou a ser desvendado em movimentos como o Dadaísta. A vanguarda que, de forma intensa, costurou um novo conceito e significado à arte, usa métodos excêntricos que resultam em performances críticas ao contexto pós-guerra da época.

Futuristas e dadaístas utilizavam a performance como um meio de provocação e desafio, na sua ruidosa batalha para romper com a arte tradicional e impor novas formas de arte” – Jorge Glusberg (2009, p. 12)

 

O vínculo entre corpo, política e tecnologia é abordado no trabalho do performer italiano Marco Donnarumma, que é conhecido por produções que fundem biotecnologia, computação e som, resultam em apresentações irreais.

Durante a pandemia de 2020, diversos performers tiveram dificuldades de adaptar o trabalho ao universo virtual e criar linhas de diálogo com a música e com os telespectadores. Apesar da falta de recursos e a distância que separa os integrantes nos eventos, a rápida adaptação foi registrada no documentário “Puta Dor”, lançado em novembro de 2020 pela Troikka Studio. A re-significação de espaços em relação aos novos ambientes de troca deixam transparente a urgência pela manutenção e busca por armazenamento de produções que antes dependiam de espaços físicos.

Em Berlim, o festival transmediale pausou as atividades quando a pandemia do coronavírus começou. Desenvolvido e fundado por Hartmut Horst e Micky Kwella em 1988, o transmediale surgiu pela vontade da dupla de criar uma plataforma para exibir produções de mídia eletrônica ignoradas por festivais maiores.

Esse comportamento (de levar ao conhecimento público a arte silenciada e boicotada) ganhou forças e uniu uma série de produções multimídia ao longo de seus trinta anos, desenvolvendo experiências físicas e sensoriais para o público através de exibições, oficinas e residências. O subtítulo “festival for art and digital culture” (festival de arte e cultura digital) surge da proposta que une a vida cotidiana à arte e tecnologia.

A proposta para a próxima exibição, que acontecerá neste ano, mergulha nas novas realidades sócio-políticas baseadas em cuidado, esperança e desejo para entender diferentes aspectos de recusa. A programação híbrida virtual/presencial inclui exibições, projeções, programas de discurso, residências e oficinas que abordarão aspectos da negação material, tecnológica e cultural.

Em situações como essa, o armazenamento das obras deve ser levado em consideração com atenção.

Nick Szabo previu em suas pesquisas que a revolução digital permitiria uma segurança maior e mais desenvolvida em um futuro próximo. Hoje, as DAO’s, ou Decentralized Autonomous Organizations (Organizações Autônomas Descentralizadas) permitem transações financeiras, de propriedades ou demais coisas de valor graças às blockchains. O desenvolvimento de formas intangíveis de produção e armazenamento pulsa em incluir indústrias culturais e artistas independentes de forma acessível.

 
 
 
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L_cio, produtor paulista, lançou o projeto audiovisual “ALGO” em parceria com 28Room, em setembro de 2020. Foi através de uma live transmitida na plataforma de stream Shotgun.

A experimentação de softwares somada a arranjos eletrônicos bem elaborados e notas de flauta, dá dinamicidade à performance de luzes que acompanha captações em movimentos inusitados feitos por diversas câmeras.

O concerto cria um portal na tela de quem prestigia, além da sensação de presença. Esse tipo de tecnologia cognitiva aproxima o natural ao sintético, e não substitui a presença física – e nem busca isso. Ele apresenta uma extensão, uma possibilidade oriunda de diversos campos.

Datando 60.000 a.C; a flauta feita de tíbia de animais e humanos é representada em culturas primitivas através de desenhos em rochas e cavernas. Sua aplicação no contexto contemporâneo, como nos álbuns “Perpetuum” e “Poema” de L_cio, mostra o diálogo criado entre os campos da biologia, tecnologia e arte.

The Mamori Expedition – Els Viaene from Werktank on Vimeo.

A The Mamori Expedition (A Expedição Mamori), uma instalação interativa feita por Els Viaene, tomou conta de uma sessão no FILE de 2014. O projeto consiste em uma réplica de madeira do trajeto percorrido pela artista em 2009 na floresta Amazônica brasileira.

O público é induzido a transitar na sala usando o “hidrofone” (um fone de ouvido conectado na água por uma vareta em forma de martelo) no caminho codificado por um GPS durante a viagem, permitindo que o usuário escute o som captado por Els – através de um gravador – dentro da água.

A experiência é capaz de levantar sensações profundas resultantes do contato – então codificado pela tecnologia – criado entre o corpo da artista imerso em um lugar distante e o corpo do público presente na exposição.

No mundo contemporâneo, as artes digitais permeiam produções que consideram os diferentes estágios da humanidade. A arte, ciência e tecnologia caminham e usufruem de seus nichos em conjunto. Apesar dos desafios enfrentados durante o atual período sombrio, o momento instigou novas questões espaciais e de não-lugar usando uma linguagem mista, imparável e incansável.

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