Como a música eletrônica, a pandemia e a performance se conectam?

Artigo assinado por Dada Scáthach

Foto de abertura: David Resende

Não é surpresa que os mais diversos e singulares universos do mundo hoje estão enfrentando um marco histórico. Um marco que no Brasil, infelizmente, não tem suporte nem estabilidade. Apesar disso, ao mesmo tempo em que o grande descaso com a nova pandemia mundial parte dos governantes, também temos mais voz do que nunca – uma voz capaz de atravessar o mundo virtual em segundos. Como essa voz pode ser usada para tornar assunto as urgências política e sociais como nossa submissão ao Estado, o fato de o Brasil ser o país que mais mata pessoas trans e travestis (quatro vezes a mais que o país em seguida) no mundo, aos protestos antifa e contra o racismo, LGBTQ+fobia. Como essa voz pode ser comunicada através da arte dentro da cena eletrônica?

Para o pensador francês Pierre-Joseph Proudhon, o “pai histórico” do movimento anarquista, o caos e a desordem se davam pelo autoritarismo das instituições de poder e pela desigualdade econômica. O movimento busca então a justiça, equidade e uma sociedade livre. Nessa forma alternativa, essas buscas contrariam autoridade como o Estado, a lei e a polícia através de um acordo voluntário entre os participantes. Como objetivo central, os anarquistas lutam pela substituição do Estado por uma sociedade sem autoritarismos  e hierarquias.

A cena eletrônica nasceu com os grupos sociais que também buscavam suas ordens e direitos (negros, LGBTQ+, mulheres) no século XX, quando os movimentos sociais tomaram uma grande proporção. Enquanto o mundo enfrentava outra pandemia em 1981, a AIDS, que afetou em maior parte a comunidade LGBTQ, a resposta de respiro foi através da música em clubes como Smart Bar em Chicago, Paradise Garage em NYC e The Music Institute em Detroit. Em 1989, quando o Muro de Berlim caiu, o mundo passou a criar mais conexões misturando gêneros, ritmos, etnias, sons orgânicos e sintéticos. Uma conexão que hoje é muito mais abrangente devido a internet.

Um dos pioneiros mais inspiradores  para o movimento Dadaísta – ou Dada – em 1916 no contexto da Primeira Guerra Mundial (e para a evolução da música eletrônica), foi o pintor e compositor italiano Luigi Russolo, que criou vários instrumentos produtores de ruídos chamados “Noise Intoners”, ou Intonarumori, que eram ressoadores acústicos criados para gerar a imagem sonora descrita no livro “The Art of Noises” (A Arte dos Ruídos), seu livro de 1913 que foi presente ao seu amigo compositor futurista Francesco Balilla Pratella.

O livro mostra a evolução do som – do silêncio até o primeiro ruído na vida humana, e o uso de tal na música. As tentativas de Russolo de incorporar suas teorias futuristas na música e na arte geraram diversas experimentações musicais, aumentando a percepção musical moderna para timbres e frequências que superaram a capacidade dos instrumentos musicais tradicionais.

Nessa época, o uso de barulhos abstratos inspirou o trabalho “Ursonate”, do alemão Kurt Schwitters em 1932, que era composto por gemidos e sons incomuns. Conseguimos relacionar o uso do corpo como instrumento de obra e objeto de performance, e a voz como canalizadora aos ouvintes.

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Dada Scáthach – Foto: Qu4nttum

Nas artes plásticas, a performance é uma expressão que utiliza o corpo como ferramenta em engrenagens como música, dança, teatro e artes visuais. Ela dá novos significados, critica, se opõe e subverte as funções de presença, objetos e espaços. 

– Ela (a performance) por si só já é anarquista – diz o artista Iam Campigotto.

Iam Campigotto, paulista radicado em Florianópolis, trabalha com a performance por meio da fotografia, publicação, desenho e vídeo-arte em Obscena, uma exposição que traz à cena seu corpo exposto em diferentes suportes e dispositivos.

Usamos nossos corpos para nos comunicar de diferentes formas, sejam elas através dos dedos que digitam manifestos em redes sociais, ou através das bocas que gritam por mudanças e dos pés que marcham nas ruas em meio a manifestações sociais, afim de romper com vícios normativos que nos encaixam, vícios sociais performáticos. A performance é uma mídia comunicativa. Mas quem está comunicando? Estamos dando voz para quem precisa ser ouvido?

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Dada Scáthach – Foto: Eve Nacari

Como exemplo, a comunidade negra, que hoje ganha cada vez mais força e espaço por encurralar o racismo, deu berço ao techno e ao house. Mas, quantos artistas negros estão nos line ups das festas que frequentamos?

A cena eletrônica é composta a partir das mais diversas lutas que devem ser ouvidas e vistas. A importância das pautas abrangidas por elas ainda enfrenta obstáculos, como o boicote do Festival DGTL aos artistas Loic Koutana (performer francês africano das noites de sampa) e Aun Helden (performer não-binária, também de SP) em 2018. Entretanto, o uso do corpo performer para dialogar sobre questões políticas, étnicas, de sexualidade, de identidade de gênero, é atrelado a tal movimento musical e ganha cada vez mais reconhecimento no meio com nomes como Shankar (performer baiano), Valentina Luz (travesti multiartista de SP), Guilhermina Urze (travesti modelo, performer, co-fundadora de festas como Mamba Negra e Odd), Carmen Laveour (multiartista queer carioca), Paulete Lindacelva (artista visual recifense), Transalien (artista trans de Recife) e Areta Sadick (transviada performer carioca). O assunto foi abordado por Dada Scáthach (residente em Belo Horizonte) e Ketardade (de São Paulo) na terceira edição do Cyber Chat Avulsa, projeto de extensão no Instagram da festa eletrônica mineira Avulsa.

Um dos fundadores do movimento Dadaísta, Jean Arp, e sua esposa Sophie Taeuber-Arp, definiram o objetivo de seus trabalhos como artistas: “Nós não queremos imitar a natureza, não queremos copiar, queremos criar. Nós queremos criar como as plantas criam frutos, não queremos copiar. Nós queremos criar de um modo imediato.”

É hora de criar. Mais do que nunca, é hora de sermos criativos e criativas afim de contornar o caos que nos assola e cala. A nova onda de eventos on-line bate de frente com quem pensava que para estar próximos precisaríamos estar juntos. Agora, cada um pode contribuir para a cena local e de outros estados por participar das festas virtuais e fomentar o trabalho de artistas e seus posicionamentos, mesmo em isolamento social e através das telas.

Nosso som e nosso corpo são as armas mais potentes que podemos disparar. Assim, nada poderá nos calar a frente as performances políticas sociais enraizadas.


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