Por Jon Fachi
Foto de abertura: Gustavo Remor
Tem se falado muito da nova geração de artistas influenciados pela escola progressiva do Reino Unido. Depois da grande revolução de produtores do estilo em Israel nos últimos 15 anos, agora parece que uma das principais cenas do mundo tem entrado em estado de efervescência para o mesmo caminho: Argentina.
O fenômeno de novos produtores hermanos surgindo a todo momento deve-se ao mesmo motivo que ocorre no Brasil, a democratização digital dos meios de produção musical. Meios estes antes inalcançáveis para se produzir em alto nível pelo custo em dólar de sintetizadores e aparatos tecnológicos para se desenvolver música. Com o barateamento desses produtos em versões digitais, diversas novas mentes puderam começar a enviar as primeiras demos para os expoentes como Hernan Cattaneo ou Martin Garcia. Alguns anos depois, nomes como Marcelo Vasami, Ezequiel Arias, John Cosani, Dark Soul Project, Frangelico, Interaxxis, Facundo Mohrr e Mariano Mellino tem ganhado espaço em sets de artistas de ponta como Sasha, Nick Warren, Guy J, Dave Seaman, Lee Burridge e suas respectivas labels.
Mellino é um nome constante na Sudbeat, gravadora de Hernan que tem projetado artistas por todo mundo e é nada menos que o produtor apontado como o “grande artista argentino da próxima década’’ pelo maestro. Nessa entrevista exclusiva, a primeira para uma revista brasileira, Mellino conta sobre seu início, sintetizadores favoritos, e claro, toda a emoção da estreia no Inside do Templo no último dia 7 de setembro.
HM – Aqui no Brasil todos conhecem você como o garoto prodígio que é indicado por Hernan Cattaneo como o novo grande DJ argentino a despontar para o mundo, porém, existe uma história muito maior por trás disso, conte-nos como tudo começou na sua carreira.
Olá, em primeiro lugar, muito obrigado pelo convite. Bem, minha carreira começou há 15 anos, quando eu decidi estudar para ser DJ como muitos garotos começam. Com o passar do tempo, foi de hobby a uma paixão sem fim que me levou a tomar as medidas que essa profissão exige. A produção chegou e isso ajudou meu nome a começar a ir para novos destinos.
Depois de muitos anos, tive a oportunidade de me apresentar em quase todas as províncias da Argentina, bem como em muitos países da Europa, América do Sul, Japão, Israel, Índia e muitos outros. Sempre tive a oportunidade de me cercar de ótimas referências, como Hernan Cattaneo, Nick Warren, Guy Mantzur e grandes amigos que fizeram com que o caminho fosse mais fácil de transitar. Aqui estou trabalhando no que amo e compartilhando minha paixão com o público, podendo oferecer a ele o que eu aprendi durante esses 15 anos.
HM – Hernan vem influenciando e empurrando novos produtores pelo mundo e em especial na Argentina há muitos anos. Temos visto nomes surgirem e despontarem até certo nível, porém não alcançando uma carreira verdadeiramente global. Aqui no Brasil também é assim, você acredita que por estar na América do Sul, ainda é uma barreira para se tornar um artista consolidado internacionalmente?
Hernan está sempre apoiando não apenas os artistas do nosso país mas, também, um nível global e esse é um exemplo a seguir para mim. Considero que a distância da Europa talvez seja o principal obstáculo para que muitos artistas argentinos não deem o passo mais rapidamente, de qualquer maneira, mais e mais são aqueles que têm a possibilidade de soar nas principais cenas do mundo e isso se deve pelo grande talento que muitos deles têm.
Obviamente não é o mesmo quando você é um artista que mora na Europa e é mais fácil se virar tendo distâncias mais curtas entre um país e outro. Mas, independentemente disso, na Argentina, Brasil, Uruguai, Colômbia e outras cenas da América do Sul, temos uma energia incomparável, sem ir mais longe, o Warung é um grande exemplo. Isso faz com que os artistas todos fins de semana apareçam para o público com muito entusiasmo de que não há nada a invejar com relação a outras pistas do mundo. Então, quando chega a hora de dar o grande passo, os artistas sul-americanos estão sempre prontos para dar o melhor de si.
HM – Que outros estilos de música você gosta de ouvir e que te inspiram na hora de produzir?
Bem, eu amo sempre ouvir um pouco de reggae, rock internacional e nacional, já que temos artistas muito bons na Argentina. Gosto de tango e muitos outros gêneros, Manu Chao é sem dúvida o meu artista favorito. Honestamente, sou super aberto e considero que quando a música é de boa qualidade, seja o gênero que for, gosto de apreciá-la e, é claro, todos esses gêneros sempre trazem alguma inspiração, sem dúvida.
HM – Quais são seus sintetizadores preferidos no momento?
Sintetizadores Moog, como Dave Smith ou Roland estão sempre entre os meus favoritos. Atualmente, estou trabalhando com o Access Virus TI, Roland Gaia SH-01, Maschine Studio e recentemente anexei uma pedaleira Moog chamada Moogerfooger (Ring Modulator). Espero que em breve seja possível adicionar mais algum sintetizador Moog ao meu set up, além da expectativa de que surja novidades no mercado.
HM – Sabemos que um álbum exige um nível de produção bastante elevado e vários anos de conhecimento acumulado para conseguir criar algo verdadeiro, você tem planos para isso? Ou acha que ainda é cedo?
Sem dúvida, considero que um álbum, como você mencionou, requer muito conhecimento e demanda muita energia. Talvez ainda não tenha me concentrado tanto nisso, mas talvez um dia desses possa se tornar uma opção. No momento, estou trabalhando nos próximos lançamentos e aprimorando o dia a dia, adquirindo conhecimento para que a música que eu toco melhore sempre, hoje é a prioridade.
HM – Como você tem visto a criação da sua identidade musical, acredita que ainda falta muito para alcançar uma marca só sua?
Sem dúvida, acho que você precisa estar constantemente procurando sua identidade musical. No meu ponto de vista, é algo em que os produtores estão constantemente atrás desse horizonte; no meu caso, tenho a possibilidade de colocar música todo fim de semana há alguns anos. Assim, é possível testar as criações e ver o que elas geram no público, essa é uma das principais ferramentas para procurar uma identidade musical, pois é aí que você pode ver se é necessário modificar alguma coisa, se elas soam bem ou não, além do impacto que têm no público.

Foto: divulgação
HM – Você finalmente pode estrear no Warung Beach Club, ao lado de Graziano Raffa. Os elogios do público estão sendo muito bons, qual foi seu sentimento em comandar a famosa pista do “Templo”?
A verdade é que foi uma sensação indescritível, uma energia inigualável, o lugar é pura magia e seu público é de outro planeta. Por muitos anos estava esperando esse momento chegar. Quando Graziano me disse que tocaríamos no Warung com Hernan e Soundexile, eu não conseguia acreditar! Senti uma enorme felicidade e, desde aquele dia, estava esperando e imaginando como seria a noite representando a gravadora Sudbeat no Templo.
Na verdade, não poderia ter sido melhor, foi uma noite incrível, cheia de emoções e poder realizá-la em formato b2b com Graziano, que para mim é um irmão e uma ótima referência musical. Ainda por cima, tivemos a vantagem de comemorar seu aniversário fazendo o que amamos. Sou muito grato a ele e ao Hernan por tornar esse grande sonho realidade. Espero que seja a primeira de muitas apresentações no Templo.
HM – Para finalizar, o que podemos esperar de Mariano Mellino ainda em 2019? Algum lançamento em primeira mão?
Bem, para o restante de 2019, temos dois Sudbeat Showcases confirmados em Montevidéu e Córdoba, este último antes da tão esperada apresentação do Hernan em Forja, na qual também estarei acompanhando Hernan com Graziano. Também estarei me apresentando no Paraguai, México, Chile e ótimos shows na Argentina. Com relação aos lançamentos, no dia 20 de setembro, a Marxaclox estará à venda no Magician On Duty com um belo remix de Guhus, um compatriota muito talentoso. O último lançamento deste ano será no selo do D-nox, Sprout, com uma faixa chamada “Astros”, onde o convidado para remixá-la é uma artista muito querida e respeitada pelo público brasileiro: Blancah. Estou com muitas expectativas para este lançamento.
