Por: Lucas Arnaud
Há anos que os fãs de música eletrônica têm sido agraciados com diversas inovações no modo de se produzir esse popular estilo musical. De 2013 pra cá, por exemplo, produtores têm trabalhado de modo constante em seu “sound design” (que seria o design do timbre de um som, ou seja, o modo como o som soa ao ser sintetizado), e uma das consequências mais claras desse processo foi o surgimento do termo “future”. Em pouco tempo ele simplesmente estava la. O nomeado “future house” pulou do “status” de mero deep house para um subgênero reconhecido, influenciando inclusive a produção de artistas dentre os melhores do mundo, como Calvin Harris com seu hit “How Deep Is Your Love”.
Apesar de ser, inclusive, um estilo que atualmente é comum em palcos principais de grandes festivais, o future house ainda gera muitas dúvidas, principalmente em ouvintes mais leigos de música eletrônica. Dentre essas dúvidas, destacam-se: como exatamente o future house soa? O que diabos significa “FUTURE” em future house?
A wikipedia traz a seguinte definição: “O future house é um gênero de música eletrônica que emergiu por volta de 2010, consistindo na fusão de deep house com EDM”. Com certeza, é uma definição xula, que não nos vai ser útil. Para termos noção da origem desse gênero e do termo que o define, temos que pôr o olho em um certo produtor: Tchami.
A track acima foi lançada em 2013, quando ainda não exista o termo “future house”. Consiste na primeira track original produzida pelo francês Tchami, e é considerada um dos grandes pontos iniciais do gênero. Ainda nessa época, Tchami começou a identificar suas tracks com a tag #futurehouse no soundcloud. E foi aí que surgiu o termo. Todavia, o que realmente ele quis dizer ao categorizar suas tracks desse modo? Segundo o próprio, em uma entrevista à Trump em 2015: “Na minha cabeça, o future house era pra ser `qualquer tipo de música house que não foi inventada ainda´, então nunca considerei como um gênero. Acho que o pessoal transformou em um gênero porque minha musica tinha características específicas e meio que soava entre o house e o EDM, o que não é uma coisa ruim”.
A track “Promesses” atingiu o top 10 entre os singles na Inglaterra, tornando o produtor (e seu estilo!) largamente conhecidos. Mais tarde, em uma entrevista para a Stoney Roads em 2014, o produtor inclusive admitiu que colocava a tag (#futurehouse) em suas músicas por mera brincadeira, sem imaginar a repercursão que o termo ganharia.
Continuando nosso passeio pela história do gênero, ainda em 2013, outro nome (disparadamente!) nos chama atenção. É de Oliver Heldens que estamos falando. Para colocar os pingos nos Is: agora não estamos falando apenas da origem do future house, mas também de sua popularização e massificação. Heldens iniciou oficialmente sua carreira ao assinar com a Spinnin´ Records em 2013, com seus primeiros releases “Stinger” e “Thumper”. Já em dezembro de 2013, Heldens iria lançar o que seria o “hino” do future house, que inclusive para muitos seria o timbre característico ou “padrão-ouro” do gênero. Alguém chuta a qual track estou referindo? GECKO!
A track foi um sucesso mundial. Alcançou o primeiro lugar nos charts da DMC Magazine, sendo também considerada “Essential New Tune” ou “Lançamento essencial” pelo já maduro dj Pete Tong, da mundialmente famosa rádio BBC (Vale lembrar que Pete Tong é o DJ responsável pelo lendário programa “Essential Mix”, que vai ao ar na rádio BBC). Daí em diante, “Gecko” foi o exemplo mais claro da ponte que o future house fazia entre o deep house e o edm. Já se ouvia, em pleno mainstage da Tomorrowland 2014, DJs como Dimitri Vegas & Like Mike flertarem com o estilo ao colocarem a track em seus sets. A tendência (que ja vinha forte), continuou, e o future é muito presente nos sets de grandes DJs, independente do tipo de set (para menores ou maiores ambientes)! Atualmente o holandês Oliver Heldens é residente na rádio BBC1, e conquistou a incrível posição #12 no ranking da DJ MAG.
O terceiro grande nome no gênero consolidou seu estilo no “future” um pouco mais tarde, todavia trouxe muita inovação, principalmente por flertar com o “bass house”. Já sabem de quem estou falando? Don Diablo. Esse holandês já era, em 2013, um produtor até com certo renome, tendo produzido para as Labels de Nicky Romero e Axwell. Todavia, adquiriu sua identidade atual (musical e visual!) principalmente em 2014, quando fundou a Hexagon Records, sua label focada em future house. Nesse ano, debutou no ranking da DJ MAG em #82, tendo alcançado a posição #52 em 2015 (última lista até o momento), sendo considerado o maior “escalador” ou “climber” do ranking. Observe e compare o estilo do produtor quando produzia eletro house para a Axtone (a label de Axwell), em relação a quando consolidou seu estilo future na Hexagon:
Don Diablo & Matt Nash – Starlight na Axtone:
King Arthur ft. Michael Meaco – Belong to the Rhythm na Hexagon:
Note como na track da Hexagon (que é uma sublabel da Spinnin´), Don Diablo nos traz um drop inusitado que, apesar de ter uma “pegada” diferente da que se via antes, continua se mantendo fiel no que consiste no estilo do future house.
Seguindo a tendência dos grandes nomes sobre os quais falamos, muitos outros artistas adotaram o estilo. Mr. Belt & Wezol, Pep & Rash, Curbi, Joe Stone e Shaun Frank são exemplos de produtores que fazem sucesso utilizando o future house. O sucesso do estilo foi tão considerável que muitos produtores renomados há anos (muitos que produziam estilos totalmente diferentes) lançaram tracks de future. Nessa galera está: Diplo, Kaskade, Martin Solveig e, como já referenciado no início da matéria, Calvin Harris.
Agora que temos uma noção de como surgiu e se popularizou o future house, além de termos conhecidos os grandes nomes, podemos inferir sobre o porquê do termo ter se consolidado. O timbre “padrão-ouro” de Gecko, no qual é baseado o timbre de muitas músicas do gênero é “elástico”, “metálico”, o que levou muitos fãs a associarem o estilo a uma pegada “futurística”. Esse caráter “de metal” e a versatilidade sonora do “elástico” (em constraste com o house puro, que é mais acústico ao flertar mais com instrumentos como o piano) gerou essa noção de que esse estilo vinha do “futuro”. Raciocínio semelhante é aplicado em relação a diversos novos subgênero que estâo surgindo, como future bass, future trap, future garage… A idéia é fazer timbres mais versáteis e inovadores.
O que a história do future house nos diz, em se falando do futuro (é, dessa vez futuro em seu significado literal) da música eletrônica? Ela nos mostra que há muito para ser descoberto em termos de produção musical, principalmente de sound design. Há muitos gêneros e subgêneros musicais esperando para surgir e alcançar o mainstream (e render muito, mas muito dinheiro para as gravadoras). Como tal cenário ocorrerá? Do modo como surgiu o future house: os produtores estão sempre “se arriscando” e ousando no modo como produzem, e a facilidade de como se pode propagar tracks, sons e idéias no mundo globalizado nos gera um futuro musical incerto, mas (MUITO) promissor. O futuro é agora!
