Por Jonas Fachi
Foto de abertura: Gustavo Remor
As noites de inverno no Warung Beach Club sempre trazem uma aura distinta, afinal, a soma das correntes sanguíneas aquecidas que transitam por dentro do cobertor triangular de madeira, fazem o ar gélido de julho ficar do lado de fora. O headliner do último dia 19 de julho me fez sair de casa com ansiedade, isso porque poucas vezes vi um artista surgir e se estabelecer de forma predominante em tão pouco tempo na cena global.
Há cinco anos, quem era Patrice Baumel? Um DJ alemão radicado e reconhecido na cena de Amsterdã, residente do principal club local (Trouw Club) e que, de repente, resolveu levar a carreira e seu gigantesco talento potencial a sério. Através de produções admiradas por lendas como Hernan Cattaneo e Sasha, Baumel saiu do anonimato para se tornar um dos artistas mais completos e respeitados do mundo na atualidade. Rapidamente, pulou etapas no longo processo de amadurecimento musical e alcance global de sua música e começou a aparecer ao lado de nomes como Guy J, Guy Gerber e Eelkle Kleijn – artistas que já estão há mais de 10 anos transitando no circuito internacional na busca por espaço como cabeças de chave dentro dos principais clubs e festivais.
Para efeito de comparação, Guy Gerber, que já havia estourado globalmente em 2007 depois do single “Timing’’, só estreou no Warung como headliner em 2011. Guy J, que já era uma das grandes apostas de John Digweed em 2008 após o álbum “Esperanza’’, só veio ter sua própria noite como artista principal no Templo em 2016! Então, como explicar tamanha rapidez em que Baumel se tornou um artista de ponta? Primeiro, preciso destacar que citei a comparação com esses artistas por Baumel ter sua música associada a eles dentro do espectro melodic house & techno e progressive house.

Para responder essa pergunta, nada melhor do que descrever um set estendido do próprio artista no Inside do Warung e, junto dos destaques do seu set, tentar demonstrar os motivos de sua ascensão meteórica.
Voltando ao início da noite, adentrei o club por volta das 23 horas. O público ainda era discreto, porém a música no Garden já convidava a aquecer os pés. Me situei atrás da cabine onde um dos lideres da resistência na cena gaúcha desenhava sua construção musical. Fran Bortolossi demonstra em cada mixagem porque hoje é um dos residentes mais capacitados do disputado time de DJs do club. O público do Garden demorou a chegar, mesmo assim Fran imprimia um bom ritmo com poucos breaks de uma linha de tech house com pitadas progressivas e minimalistas, sem deixar-se aparecer.

Fran Bortolossi – Foto: Gustavo Remor
O ótimo sistema de som que envolve o entorno do DJ faz com que essa pista ganhe amplitude e abra um leque para diversos tipos de público, desde os “front ravers’’ até os que gostam de ouvir música jogando uma conversa fora com os amigos um pouco mais distantes da efervescência. Fran tocou até 1 horas, quando entregou a pista vibrando para o já tradicional Loulou Players. Aproveitei espaço sem interesse musical para meus ouvidos até a chegada de Baumel às 3 horas, para atuar como na descrição do segundo tipo de público. Exatamente às 2h20, subi para acompanhar a parte final de outro resistente da cena eletrônica sulista, só que do oeste catarinense. Lá, Zac é o grande expoente e influenciador de toda uma cena onde novos artistas podem sonhar que “é possível chegar também’’, mesmo estando longe dos grandes centros da cultura clubber nacional.

Zac – Foto: Gustavo Remor
Ao pisar no eterno Main Room e sentir em meus pés o velho assoalho de madeira vibrar com a potência dos graves, tive uma sensação nostálgica que me trouxe memórias das primeiras vezes que frequentei o Templo há mais de 10 anos. Nesse instante, me dei conta que esse ano tem sido o que menos tenho ido ao club; era apenas a terceira vez em sete meses!! Em uma delas fiquei no Inside apenas duas horas durante o excepcional set do Leozinho no dia 3 de maio (noite de Dettamann no Garden). Antes disso, havia desfrutado da magia e intensidade do pistão de madeira de forma plena só no extended set de Guy J ainda em janeiro.
De fato, é muito pouco em 2019, e sei que minha vida não é completa sem estar constantemente me alimentando da energia que reverbera neste lugar que me soa imortal. Para compensar o primeiro semestre de baixa, setei residência na linha de frente do Inside, bem próximo das caixas de som; bom o suficiente para conseguir observar o DJ trabalhando. Eram 2h30 e o catarinense mesclava ritmos progressivos em boa condução. O público acompanhava com entusiamo, entretanto, era nítido que a sensação de “chega logo Baumel’’ se acumulava na pista. Zac encerrou seu set com um dos meus clássicos favoritos, e isso merece destaque – “Sordid Affair’’ de Royksopp com remix de Maceo Plex.
O artista disponibilizou seu set gravado ao vivo. Confira:
Ao assumir o comando, todos se exaltaram por enfim poder começar a ouvir Patrice Baumel, como se já soubessem que seria algo mágico. Porque os grandes DJs causam isso? Patrice tratou de responder logo na primeira música: consistência rítmica.
Estou convencido de que a capacidade de fazer o que chamo de “criação de fluxo’’ pelo DJ é a pedra fundamental que determina a sua subida para a linha de frente dos artistas globais na arte da discotecagem. Conseguir criar um fluxo rítmico continuo durante o set não é exatamente uma característica e sim a soma da várias qualidades; desde técnica na mixagem, bom gosto, feeling até organização musical. Porém, nada disso tem validade prática sem um enorme bom senso na hora de construir o set além de paciência e confiança no público. Patrice reúne tudo isso e talvez por esse motivo todos que estavam lá não esperavam só pelas excelentes produções, e sim, principalmente, por ouvir um bom set. Quando o produtor musical consegue superar o estúdio sendo reconhecido por um set bem construído por várias horas, é sinal de que virou um artista completo.

Patrice Baumel – Foto: Gustavo Remor
Baumel caminhou por momentos obscuros e um pouco anestésicos, por vezes mixando rápido, por vezes trabalhando a transição com muita calma. O mais importante era que a sua música estava alinhada com o clima soturno e pouco luminoso que se apresentava no meio da noite. Começar esse horário dispensa muitas introduções, afinal, o público já está em alta carga de energia. A primeira hora teve o ápice com a já clássica “Nirvana’’ de Guy J.
Na segunda hora, algumas músicas mais explosivas e intensas se misturaram com lindos vocais e as primeiras faixas de um arsenal impressionante de autorais deram o tom. Os destaques ficam por conta de “Skin & Bones”, música de Terranova com remix de Karl Friedrich. Bog & Gueist em Venere com remix de Fideles, ainda Claptone com vocal de Katie Stelmanis na faixa “La Esperanza” com remix Patrice Baumel e a linda “Epilogue” de Yotoo deat CAPS!
Depois das 5 horas, Baumel entrou em uma espiral emotiva de músicas bem conhecidas, nada novo, porém faixas que são sempre prazerosas de ouvir dentro de uma boa proposta de set.
Estava claro que eram faixas que ele separou propositalmente para tocar no Warung. Khen na faixa “Land Of Goshen” e remix de Baumel, seguido de RUFUS DU SOL na faixa “Underwater” e remix de Yotto. Às 6 horas, voltamos ainda mais no tempo com Audio Fly & Patrice Baumel em “Atacama”, uma das minhas favoritas do artista.

Patrice Baumel – Foto: Gustavo Remor
Olhei no relógio, eram 6h30 e a pista ainda estava bastante escura, um pouco desesperador… como parar isso? A energia obscura e a intensidade musical ainda ditavam o ritmo sendo contagiado com muita alegria pelo alemão. Sua interação com o público do vidro era constante e sua energia era de quem ainda iria tocar por muitas horas. Nos últimos 10 minutos, quando ele pareceu se dar conta que deveria terminar, jogou duas faixas sintonizadas com um final de set magnífico. “Dead and Thrills” de Cubicolor e remix de Baumel e outra autoral, “Surge”, fazendo as mãos se levantarem pela última vez.

Patrice Baumel – Foto: Gustavo Remor
Patrice Baumel saiu do Warung com seu passaporte carimbado para o futuro em novas apresentações no club e com a afirmação de sua caminhada como um dos grandes DJs da atualidade. Confira abaixo alguma das faixas tocadas pelo artista no Templo.
Guy J – “Nirvana”
Skin & Bones – “Terranova remix Karl Friedrich”
Bog&Gueist – “Venere” (Fideles remix)
Claptone & Katie Stelmanis (Patrice Baumel Remix)
Yotto – “Hyperfall”
Khen – “Land Of Goshen” (Patrice Baumel)
RUFUS DU SOL – “Underwater” (Yotto’s Down Remix)
Audio Fly & Patrice Baumel – “Atacama”
Cubicolor – “Dead and Thrills” (Patrice Baumel Remix)
Patrice Baumel – “Surge”
