Pininga, um coringa das pistas, fonte inesgotável de anedotas e muita música

Por Francisco Cornejo

Foto de abertura: divulgação

Pininga é coringa. Mesmo que nos refiramos ao seu aspecto polivalente ou sua abordagem absolutamente desprovida daquela seriedade cafona que frequentemente permeia a música eletrônica, o paralelo se aplica. Ele tampouco está muito preocupado com a sensibilidade techno-esnobe que muitas vezes parece fazer com que o poder realmente transformador da música se torne uma ladainha repetitiva de privilégios e platitudes. O que lhe interessa de fato é que este poder sirva aos propósitos mais humanos possíveis, sejam eles os mais elevados ou os mais chão.

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Foto: divulgação

Se o lance é música e dança como as formas de expressão mais pessoais e, ao mesmo tempo, mais coletivas que conseguimos criar, ele vai estar ali no meio, investigando nomes, músicas e modos de disseminação para que atinja corpos e mentes ou simplesmente se jogando junto com o restante de nós, aproveitando cada descarga de energia corporal, cinética e hedonista.

Recém-chegado de uma apresentação lendária no renomado festival de música experimental CTM, ao lado de Badsista e Linn da Quebrada, ele retornou às pistas paulistanas para celebrar os quatro gloriosos anos da ODD.

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Linn da Quebrada e Pininga – Foto: divulgação

HM – Você possui aquela voracidade discográfica capaz de engolir mundo inteiro através de ritmos, mas como bem sabe, isso é apenas uma parte da tarefa de valorizar esses sons? Quão difícil é conseguir dar vazão a tudo que encontra numa pista? Tem algum método? Como se dá o diálogo entre sua pesquisa e os corpos ali vibrando?

Difícil quase impossível. Eu tenho achado que meus interesses/curiosidades têm levado meus sets a serem cada vez menos dançantes, com mais sonoridades paralelas tentando se encontrar, e nessa busca também está o eu/público. Para já contextualizar, eu nunca tive muito interesse em mixagens focadas em passagens limpas/perfeitas entre duas ou mais músicas, no “não perceber a diferença”; eu sempre me interessei mais pelo terceiro elemento/som que se cria ao fundir duas músicas, e deixá-las o máximo de tempo/espaço no mutante, no erro.

Ultimamente eu tenho experimentado tocar mais com sons, samples, e loops, do que tracks inteiras. Com o auxílio do Rekordbox e usando CDJ2000, eu consigo criar tracks que possuem três ou mais samples, ou até músicas com diferentes padrões de bateria/melodia/percussão em apenas uma track, marcando assim até três posições diferentes para serem acionadas pelo CUE, ou até oito opções numa CDJ2000NXS2. Além disso, eu uso de todas as vantagens das funções CUE, SLIP e LOOP, distorções extremas de BPM e efeitos, com o intuito de criar novos sons e percepções ao invés de apenas mixar músicas pré-estabelecidas.

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Foto: divulgação

No fim, eu acabo usando a CDJ mais como uma MPC, do que um “toca-discos”, e gosto das limitações que de uma certa forma existem se comparadas a fazer um live set no PC/DAW, que seria uma forma muito mais prática, mas considero um pouco menos intuitiva to trigger samples.

Em uma performance recente que fiz (“Todos os Ossos do Seu Corpo Quebrando ao Encontrarem-se com o Outro”), eu usava diferentes elementos para simular a quebra de ossos por objetos e situações como serras, socos e chutes hollywoodianos, elementos cirúrgicos, poemas, xingamentos, o nascer de um bebê, sons ansiosos e o ofegar de alguém estranho por trás de você. Tudo isso também somente usando movimentos bruscos, secos e rápidos como punhaladas na CDJ/MIXER. “The acting of DJing.”

Basicamente, usar sons eletrônicos para criar outras experiências, mesmo dentro do contexto “club/festa/rave”. Explorar sentimentos que às vezes nem no conforto/solitude da nossa casa podemos experimentar, porque para alguns de nós a casa pode ser o pior ambiente para qualquer coisa e o único lugar seguro é um encontro nessa experiência “eletrônica”.

Eu e a Linn ficamos divagando muito uma vez sobre como a gente trata música como uma religião, algo tão sagrado, que você não pode falar nada, mas como também é importante saber profanar a música. Jogar no lixo, mastigar, pisar e depois pegar de volta. Eu mesmo tenho algo que, às vezes, simplesmente não consigo ouvir nenhuma música, fico de bode e vou focar em ver filmes, ler ou jogar um game, e não consigo ouvir nada que me interesse ou me fisgue, até depois voltar com algo que eu queira ouvir muito. Uma amiga inclusive estava falando sobre esse sentimento também, que ela chamou de some kinda tonal depression.

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Foto: divulgação

E muitas vezes não dá para fugir disso enquanto você tem uma gig para fazer. Nessas horas devo confessar que eu não ligo muito para fazer o que o público quer, e então eu deixo eles de castigo.

Obviamente meu método não funciona para todos os tipos de festas e públicos porque não estou por aí tocando em locais muito diversos, além dos meus próprios rolês ou do pessoal próximo, mas é uma coisa que eu tenho aprendido como uma benção/maldição da Tormenta, ou de viver em uma cena muito nicho e específica. Ao mesmo tempo que não temos abertura em outros espaços, nós temos o nosso próprio para fazer o que quisermos. Então o público da Tormenta permite muito que eu experimente com qualquer coisa dita acima ou mais, porque de uma certa forma criamos essa não-dita atmosfera de que vamos lá aconteça o que acontecer, mesmo que a proposta da festa hoje seja chorar, ok, let`s do it. E isso é construído junto com cada um ali, para se apresentar da forma que quiser, dançar da forma que quiser, gritar da forma que quiser, ouvir e ser ouvido da forma que quiser, testando novos limites.

Eu gosto muito de uma frase do Shayne Oliver, designer da HBA, sobre o começo da marca e da associação com a GHE20GOTH1K: “We didn`t have the music for the clothes we wanted, but we also didn`t have the clothes for the music we wanted, so we created both”. Então é isso, como você deve os conhecer também, Aun Helden, Ecto Corp, Estileras, eu, até a Badsista que se abriu muito mais experimental e musicalmente com a gente, temos evoluído juntos, criando e tentando entender o que é isso que a gente está criando, cada um em seu “ofício”.

HM – Você encabeça um coletivo chamado Tormenta que acabou trazendo muitas novidades em vários sentidos para um relativamente uniforme cenário musical de São Paulo. O que vem a ser esse coletivo e como foi criado?

Atualmente, quem produz sou eu (Eduardo Pininga), Vinicius de Andrade (@mlkbrutal/DJ Whey) e Sarah Blue. Eu conheço o Vinicius desde as edições da Muscles Cavern que ocorriam por volta de 2013 a 2016, que era o Yuri Mira quem fazia. Basicamente todo mundo que é parte da “família” Tormenta se conheceu lá também, como Alada (Ramon Campos), Ricardo Boni e Brendon Xavier (Estileras), Aun Helden e Ecto (performers, atuais destaques na ODD e Mamba Negra), FKOFF1963 (Erick Bertoncini).

O Yuri fazia a Muscles Cavern com outras pessoas também, mas no fim ficou só ele e todos nós ajudamos a fazer as duas últimas edições, a última sendo um marco histórico para a gente, que aconteceu no Hole Club e trouxemos o Imaabs (NAAFI) do Chile para tocar. A partir daí, a gente tinha decidido continuar o coletivo com outro nome e quase 20 pessoas na formação, mas depois de várias discussões (diferenças musicais/ethos), todo mundo acabou desistindo e só sobrou eu, o Vinícius, a Boni e o Henri Ferfoglia (Shakespears) na Tormenta, e a outra parte se dividiu pra fazer a Sad Rave. Eles continuando com a linha da Muscles de witch house, sad trap e afins, a gente oferecendo sonic chaos.

O nome veio de referência a tantas coisas que pode representar, como a proximidade com o espanhol “la tormenta”, a manifestação física de uma tormenta/tempestade, ou como a perturbação mental e o ato de atormentar alguém, além de outras referências como o RPG de tabuleiro brasileiro Tormenta, e por ser uma palavra comumente usada em diversas narrativas de fantasia.

Logo em seguida conhecemos a Sarah Blue, quando ela estava trazendo a Elysia Crampton para São Paulo em parceria com o Novas Frequências. Ela convidou a gente para tocar e desde então tem sido parte importante e integral na produção da Tormenta.

Desde maio de 2016, tivemos oito edições com diferentes parcerias (Chernobyl, Popporn, Bandida), em diferentes lugares (Espaço S/A, Orfeu, SP na Rua, Espaço Nobre, estacionamentos), e com sets em festivais como RBMA SP (c/ Total Freedom, Linn da Quebrada, Mykki Blanco), MECA Festival (c/ Linn da Quebrada e Elza Soares), e YAGA (c/ SOPHIE, Juliana Huxtable, Arca e mais) e trouxemos artistas como Bonaventure (Planet MU/NON/Lisboa), DJ Polyvox (150BPM Records/RJ), e livestreaming com Uli-k (Bala Club/Londres).

Fazemos quando temos alguma grana do nosso próprio bolso, a festa nunca deu nenhum lucro real, sempre preju, já se pagou poucas vezes (produção/artístico). Mas fazemos porque para alguns de nós é a única plataforma em SP/BR onde podemos explorar nosso som/forma de fazer o que fazemos. Nos eventos, tentamos sempre criar experiências únicas, como por exemplo a última festa onde fizemos aulas de auto-defesa durante sets de ambient music, e a DJ Tati Lisbon, conhecida também como Papisa, leu cartas de tarot acompanhada de um live set especialmente preparado para a ocasião. Hardcore everything, trance, brega, experimental, ASMR, silêncio e escuridão total, não importa o som, tentamos criar e usar diversos elementos para criar situações dentro do contexto “club” que exploram sensações além de diversão, euforia e consumo.

 

Fora os eventos, temos o selo/canal onde apresentamos o trabalho de outros artistas que nos alcançam e se identificam, com mixes, coletâneas, e tracks exclusivas. Esse ano, estamos tentando ir atrás de mais parcerias para lançamentos autorais, e em breve teremos uma FACTmix Tormenta.

Fora isso, outros artistas que fazem parte da família também são a Badsista, Holland Vision, Enantios Dromos e o Pepapuke, artista visual 3D que já fez trabalhos para Pabllo Vittar, LYZZA e, em breve, lançará seu primeiro EP conosco.

Não temos muitas fotografias das festas, não contratamos fotógrafo e naturalmente já temos um público que prefere não ficar fazendo fotos no rolê, então temos algumas fotos no Instagram e materiais de nossos vídeos de divulgação, que sempre são um destaque na redes e o que acaba criando uma identificação com pessoas que até então não conheciam a festa e ainda não entendem o som, mas acabam associando a imagem/mundo construído com a experiência que oferecemos.

HM – O Yaga foi um evento muito original que apresentou algo inovador em termos de curadoria um cenário musical bastante uniforme em São Paulo. Qual foi a iniciativa ou proposta por trás dele?

Na real, o Yaga foi feito por uma gata brasileira que mora nos EUA, Sophie Secaf, e mais dois gringos que não conheci. Por intermédio de outros produtores daqui de São Paulo, eles entraram em contato com a gente (Tormenta) para fazermos um palco e ajudar na curadoria geral do que seria o Yaga inicial, que seria em um galpão com três palcos durante dois dias inteiros de atividades. O pessoal da cole.Namíbia também dividiriam esse palco com a gente, com artistas escolhidos por elas. Acabou que no final virou o que acabou rolando de um dia e meio no Love Story.

HM – Você se meteria numa parada dessas novamente ou até mesmo ela vai rolar novamente?

Não, não fiz e nem faria de novo (risos). Pelo que eu sei do prejuízo que eles tiveram (que também avisamos, pois sabemos da dificuldade de rodar um evento alternativo aqui, enquanto eles nunca tinham feito uma festa ou festival na vida, vieram logo para cá, logo com esse público tão específico), eles também não vão fazer, but good luck if they keep doing it.

HM – Fazendo parte de uma trupe bastante talentosa de artistas nacionais, você se apresentou no CTM em Berlim neste ano. Como foi essa experiência?

O CTM foi incrível! De todos os festivais que tivemos oportunidade de participar, aqui no Brasil ou fora, acho que foi com certeza o mais acolhedor. Desde o momento em que cheguei  no aeroporto e perdi uma das minhas malas. Todo mundo ficou preocupado se eu tinha roupa quente para o frio e etc, muito fofos hahaha
Dois dos curadores que já conhecíamos e não nos largavam nunca, o Michail Stangl e a James Burn, são definitivamente duas das pessoas mais incríveis que tive o prazer de conhecer. Eles estavam em todos os shows, debates e festas, acompanhando tudo, mas não de um jeito executive sabe?! Mas curtindo e dançando mesmo, falando com todo mundo dos mais jovens aos mais velhos, realmente conectados e aproveitando a curadoria que eles fazem, orgulhosos e com razão. Eu não consegui ir muito para os eventos durante o dia, porque acabei indo em quase todas as festas e shows à noite, que eram principalmente no Berghain, mas cada dia era uma experiência diferente, porque o Berghain/Panorama/Saüle abriam em diferentes horários, e não era aquela coisa exaustiva de dançar até de manhã.

As noites durante a semana acabavam até que cedo, então era legal experimentar o Berghain nesse outro contexto também. Troquei ideia com artistas que eu queria muito ter visto, como o Noctilucents e outros integrantes do coletivo Genome 6.66mbp, da China. Diversos grupos e experimentos da Indonésia como os Zoo e Gabber Modus Operandi, grandes destaques para mim, junto com os Prison Religion e o show bem performático do Colin Self, que também havíamos conhecido quando fomos fazer um show anteriormente em Zaragoza.

Tocar foi outra coisa louca. Pois nos primeiros shows da Linn, todo mundo que era alguém em Berlim tava lá, inclusive políticos e o “night mayor”. (Todo mundo paga pau para as coisas “absurdas e diferentes” que existem ou podem acontecer na noite em Berlim, mas não acho que seja nada demais que não tenhamos aqui também, diria até que temos muito mais elementos transgressores do que lá, seja musicalmente ou na própria forma de fazer “festa”. Mas o que mais me chama atenção mesmo é o nível político pela qual a noite é tratada. Só de pensar que existe um lugar onde se você quiser comprar um apartamento perto de uma área que possua um club, você vai receber um aviso que aquele club é provavelmente histórico e um marco e você não pode fazer qualquer queixa contra ele ou contra barulho, chega a ser uma distopia comparada com a nossa realidade onde basicamente não existem mais clubs onde se possa existir uma real “vanguarda musical” ou cena que dure muito tempo, pois tudo acaba fechado ou cooptado por empresários e burocratas que impossibilitam uma cena independente.

Eu toquei no Schwuz, logo após uma apresentação de Trava-línguas. Já tinha tocado lá, mas em uma festa menor, outro contexto. Foi o último dia do festival, então o clima era bem de festa. Não consegui ter muito tempo de experimentar muita coisa, então acabei fazendo um set que complementava o fim do Trava-línguas e continuava a energia da festa, não baixando dos 150BPM entre bases de bregafunk e gabber, que ficou perfeito para o set que seguia da Brat Star, uma gata de Berlim que também já conhecia a Tormenta e nos acompanhava, inclusive tinha uma chupeta nossa xD

Ficamos loucas durante tudo isso e fomos parar num after numa rádio pirata até o dia seguinte, então acho que missão cumprida.

HM – E quanto ao futuro? Distante ou próximo, o que ele reserva para Pininga e o que Pininga reserva para ele (e nós)?

Bem, eu nunca comecei isso tudo querendo ser DJ profissional, ou músico ou nem coisa parecida. As coisas só se solidificaram mais quando fui escrever para a VICE e cada vez mais eu queria pensar e entender som de uma outra forma. Então enquanto eu fazia uns bicos de DJ, eu já ia tentando entender música pelo viés do produtor.

Hoje estou estudando e testando coisas para lançar mais coisas autorais. Estou terminando um EP e uma mix para divulgar os próximos meses e as próximas viagens, agora com produtora e tudo para ser “profissional” (aka jogar o game dos bookers/agencies). Com a Tormenta vamos focar mais em conteúdo autoral do que nos eventos, já temos alguns releases nos planos, uma FACTmix no horizonte, e colaborações de vídeo e roupas/acessórios. E definitivamente quero também continuar a pesquisa de “sons/outras linguagens de DJ set” em outros ambientes como galerias, exposições ou instalações artísticas.

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