Receitas da Doutora Rubinstein

Por Chico Cornejo

Foto de abertura: divulgação

Que o techno provê uma linguagem que transpõe barreiras e fronteiras como muito poucas outras conhecidas pela humanidade, estamos todos cansados de saber. Ele é o que nos liga com gente tão diversa que vai de Passo Fundo a Fortaleza, passando por Brasília, Santiago, Bogotá, Cidade do México, Nova York, Berlim, Londres ou Moscou e chegando até Tóquio, Pequim e Tel-A-Viv. Uma façanha que apenas atesta o poder galvanizador de um ritmo oriundo das agruras de afro-americanos cujo potencial escapista se fundamentava justamente na alteridade que sua fonte europeia fornecia. Afinal, o gênero é esse cadinho de influências cujo conteúdo apenas se adensa e se torna mais intenso em sabor à medida que avança pelo mundo.

E, entre tantas crianças que surgiram do interior dessa mescla e das energias que nela circulam, Marina Rubinstein é a que representa da maneira mais autêntica essa pluralidade de elementos. Nascida na Rússia, criada em Israel e atualmente residente da capital mundial do techno, ela surgiu como um bólido na já bastante povoada pista global do gênero e sua trajetória até aqui cumpriu todas as etapas que coroam os grandes nomes do circuito: ralou bastante até obter sua residência e, com ela, estabelecer uma relação com uma audiência que se sustém e viceja organicamente.

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Foto: divulgação

Claro que isso vem acompanhado de uma experiência e versatilidade que são cruciais para enfrentar qualquer situação, dentro e fora de casa, e que são componentes essenciais da habilidade de um DJ de criar atmosferas variadas para públicos diversos em lugares inesperados. Justamente o que procuramos compilar aqui às vésperas de sua aparição junto às manas da Mamba Negra neste sábado para garantir uma continuidade energética tanto no pré quanto no pós-festa.

Livre, leve e solta

Liberdade é algo precioso, mesmo porque aproveitá-la plenamente exige uma certa maturidade e segurança que apenas a experiência confere de modo duradouro. Ainda que goze do privilégio de poder figurar em listas que buscam apontar talentos promissores, a doutora carrega consigo uma milhagem que lhe permite utilizar plataformas de exposição populares como a FACT para mostrar outras regiões menos conhecidas do seu amplo espectro sonoro.

#TB303

Poucas coleções de mixes online detêm o prestígio longevo que a série semanal do Resident Advisor ainda exibe em mais de 600 edições. E, em meio a tantas companhias célebres, pode ser difícil se destacar caso ainda não se possa confiar numa reputação consolidada, algo que veteranos possuem e uma novata como ela, nem tanto. Mas é aqui que reside a verdadeira oportunidade de cimentar, basta ousar. Exatamente o que ela faz ao tecer uma ode a todas as coisas ácidas que derretem nossos cérebros e cuja pulsação entra em nossos corpinhos, pondo tudo em movimento graças a uma caixinha prateada que um dia se pretendeu que fosse um baixo eletrônico e cujo som singular ela adora.

Pastoril a mil

Os sets dela usualmente são movidos por uma potência contundente que se insinua gradativamente em um andamento hipnótico que se adensa à medida em que avançamos em sua narrativa. Mas às vezes ela se permite criar algo um pouco menos urgente ou bombante para cozinhar nossos cérebros em fogo lento. Pense num bucolismo futurista ou num descampado sintético e vai ser mais ou menos a trilha para esse lance que você vai conferir nesta seleção para o programa “The Something Something”, da Red Light Radio de Amsterdam.

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Foto: divulgação

Só vem, bem zen

Já quando o convite para agregar mais um capítulo a outra série clássica de mixes online, só que esta gravada ao vivo ali no coração do Village, nos estúdios da rádio 89.1 da NYU, para o Beats In Space do Tim Sweeney, o tom muda sutilmente, ainda que não a pegada. O tratamento que ela nos recomenda aqui é de relaxamento, mas nada soporífero ou cansativo. As texturas e luminosidades aqui são mais suaves e envolventes, mas aquela bruma meio cáustica ainda paira no ar e mantém o clima pronto para que tudo possa acontecer.



Se adapte, mas não mude

Um traço muito distintivo de sua personalidade artística e que lhe confere grande parte desse sólido prestígio do qual goza hoje em dia é uma espontaneidade bastante jovial. A mesma que permite a ela trafegar por uma infinidade de situações e emoções junto conosco. Cada set dela é uma cornucópia de ritmos pela qual fluem gêneros e com cuja abundância nos refestelamos em toda sua duração. Pode ser para ouvir em casa ou no trabalho, na academia ou na pista, na sauna ou na rua, ou na estrada. Não importa onde, seja em Paris ou Taipei, a consistência dela é impressionante.

Werking girl

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Foto: divulgação

A abordagem dela ali na hora decisiva, quando está de frente a sua audiência e sentindo a vibração de todos de perto, é bem simples em teoria, mas bastante rebuscada na prática. Ela trabalha humores, expectativas, desejos e corporalidades de modo a construir verdadeiras comunidades dançantes em cada ocasião, independente do tamanho do público ou das dimensões do lugar. Tudo se resume a criar condições ideais para o fluxo de energia que é gerado entre corpos e sons, a fim de poder manejá-la livremente. Parece fácil, mas não é, ainda que ela faça parecer mesmo ao lado de um de seus mentores.



Cansada? Nie!

Você pode até tirar a menina da rave, mas não tem como tirar a rave da menina. É isso que ela sempre disse sobre sua vitalidade e disposição para curtir uma pista serem equivalentes a sua habilidade e tesão em embalá-la. Esse furor festeiro é justamente o que nos enche de ansiedade para vê-la, além do vigor faceiro que ela demonstra em cada seleção e de uma precisão capaz de imbuir cada virada com a leveza e sutileza necessárias para deixar as faixas respirarem e somarem forças.

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Foto: divulgação

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