A fusão da música eletrônica com a popular brasileira: conheça o trabalho do produtor DeepLick

Por: Lucas Portilho de Faria Cunha

DeepLick é responsável pela produção musical de artistas como: Wanessa, Vanessa da Mata, Seu Jorge, Carlinhos Brown, Tiago Iorc e Cláudia Leitte.

Reconhecido por utilizar elementos da música brasileira na produção de música eletrônica, o paulista possui uma longa estrada na indústria musical.

 

 

No começo, segundo DeepLick, a produção musical e a mixagem eram mais difíceis. Não havia muitos recursos eletrônicos disponíveis no país para se produzir música: o software era difícil de usar, o PC vivia dando problema e os samplers eram de baixa qualidade, enumera.

Amigo de produtores como, DJ Marky, Patife, XRL (Xerxes) e Ramilson Maia, DeepLick conta que, com o tempo, cada artista citado seguiu o seu caminho, mas, apesar disso, nenhum deles deixou de utilizar algum elemento da música brasileira em suas produções.

 

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Com o aumento da notoriedade da música eletrônica brasileira no exterior, devido, em grande parte, ao trabalho de artistas de drum and bass que utilizavam os elementos da bossa nova, samba rock e outros gêneros típicos do Brasil nas suas produções, DeepLick, mesmo não fazendo parte do cenário de d’n’b, desenvolveu algumas músicas em parceria com a Vanessa da Mata.

Com o passar do tempo, alguns desdobramentos de gênero (como o chill out, por exemplo) foram surgindo no país, ampliando, assim, a prática da transposição da música brasileira na eletrônica (e vice e versa). Fernando DeepLick se considera um verdadeiro misturador, não somente no aspecto musical, mas também de pessoas: “Eu tenho amigos queridos do brazilian bass, como o Dazzo, ao drum and bass, e procuro trabalhar com eles sempre que possível”, explica.

 

 

Hoje em dia, a mistura de ritmos e batidas eletrônicas com instrumentos mais analógicos, orgânicos e/ou elétricos não são apenas de responsabilidade dos deejays, mas, também das bandas e artistas. Fernando DeepLick expõe que “a música eletrônica dá espaço para que o músico possa experimentar”.

Uma das experimentações do produtor musical é a banda Batida Nacional, composta por DeepLick, Lan Lanh e Nanda Costa. O artista observa que muitos produtores de house também se esforçam para trazer para as suas músicas as raízes brasileiras, mas pondera: “muitos deles só utilizam vocais em português nas produções; é importante ir além. Deve se buscar a essência da coisa: ritmos e instrumentos, por exemplo”. No ponto de vista de DeepLick, um exemplo de jovens artistas que estão buscando essa aproximação da música eletrônica com as sonoridades brasileiras é a dupla Shapeless: “estão, na medida do possível, colocando uma percussão, ou uma batida, não apenas o vocal brasileiro”.

 

 

Questionado sobre a diferenciação entre a música eletrônica e a popular brasileira, DeepLick expõe que fazer música eletrônica é utilizar os recursos tecnológicos para a produção de músicas nas quais o artista acha interessante. Já o MPB dos dias de hoje, é uma interrogação. “Será que o MPB ainda é aquela coisa de banquinho, voz e violão? Aquela coisa calma… algo com um rótulo bem definido, enquanto o popular é o funk, o sertanejo e outras coisas?”, questiona. “Se você sintonizar em uma rádio de MPB, você com certeza vai ouvir uma coisa mais calminha”, considera, “mas, na minha concepção, o MPB é ser brasileiro, é usar a nossa língua, mas também é moderno, é dançante. Uma referência que eu faço é o trabalho feito pelos Mutantes”, observa.

 

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Atualmente, DeepLick tem trabalhado com remixes de bandas e artistas nacionais e internacionais (sempre mantendo a lógica de utilizar a música eletrônica como ferramenta de produção). Mas além dos remixes, Fernando se dedica à música autoral e à produção de outros artistas, como o rapper Gabriel O Pensador.

O artista também trabalha com a composição de músicas, escrevendo letras e outras atividades que envolvem a produção (incluindo masterização e mixagem de faixas). “A verdade é que eu nunca parei de tocar e sempre alternei entre o estúdio e o rádio, mas sempre senti a necessidade de tocar outras coisas que não se ouvia muito nas pistas”, expõe.

A Batida Nacional – que hoje em dia pode ser considerado mais do que um grupo musical, mas um coletivo que reúne artistas que desenvolvem arte moderna brasileira – utiliza a estética eletrônica em suas composições e se apresenta em locais que usualmente não expõe artistas da música eletrônica. “As primeiras experiências do Batida eram fora da pista de dança. Era um exercício de expandir o eletrônico para outros locais, ao invés de levar a música eletrônica para espaços onde já era usual este tipo de som”, explica DeepLick.

 

 

Foi durante uma edição da FLIP (Festival Literário Internacional de Paraty), que Fernando, junto com Nanda Costa e Lah Lahn, tiveram o insight de expandir o conceito da banda: “vamos juntar tudo o fazemos e tornar isso não só uma mistura da música eletrônica com brasileira, mas uma mistura cultural”, explana DeepLick, e acrescenta: “No último álbum que produzimos [‘O Fruto’, que está para ser lançado e é uma fusão de ideias que o coletivo já está testando a algum tempo], há um encontro entre berimbau, samplers e poesia”. Em linhas gerais: a Batida Nacional é um espetáculo de música brasileira, mashups e música eletrônica abrasileirada.

Hoje em dia a Batida Nacional não está falando só de música. Quando se vai a uma festa, espera-se uma combinação de sensações, que vai do visual ao sonoro, para que se desenvolva uma narrativa, um clima.

DeepLick deixa claro que é favorável ao uso de recursos tecnológicos para produzir e mixar, e não considera o uso de recursos como o sinc, algo para se criticar negativamente. “A coisa está muito além disso. Normalmente eu uso recursos que me deixam à vontade, como o MPC, controladora, iPad, toca discos, Ableton Live, e procuro interagir com as coisas que estão acontecendo ao meu entorno”, detalha.

Uma analogia que utiliza é: “Sou um técnico de som de luxo (sorri). O som do violão de um artista passa pela minha placa de som que ‘envenena’ o som final, que sai para o público. Eu faço ao vivo o que eu sempre fiz no estúdio”, resume.

 

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Foto: Got U / Agência Play

Sobre a narrativa que adota em suas apresentações, Fernando detalha que gosta de tecer histórias. Sempre imaginando pequenos blocos nos quais o artista passeia por diversas músicas, DeepLick procura variar o leque de sonoridades a partir das músicas que os brasileiros ouvem. Seguindo uma linha na qual cada faixa se encaixa, a proposta não é compor a apresentação tendo como escopo gêneros, e sim, harmonias, melodias e ritmos. “Nesse rítimo de samba, tudo é possível. Tem coisas que são samba, e coisas que não são, se você pegar uma música do Rappa [por exemplo], o jeito ragga de cantar é muito sambado”, explica.

O produtor aponta que sempre gostou de tocar house, breakbeat e explorar outros ritmos. Há um esforço de se concentrar em determinadas sonoridades e, a partir dali, passear por outros timbres e gêneros. “Procuro ser eclético, mas, é claro, é necessário ter  coerência. Seguindo, assim, uma lógica transitória”, específica.

 

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Muitos artistas que DeepLick trabalhou inicialmente, tiveram preconceito com essa estética eletrônica. No entanto, com o passar do tempo, eles reconheceram que a música eletrônica é um recurso a mais para se obter um som moderno. Alguns trabalhos foram verdadeiros desafios, aponta Fernando, como “coisas que eu fiz com o Carlinhos Brown: tive que pegar um surdo, uma percussão pesada, e colocar em uma música que já tenha esses elementos. Além disso, ambos deveriam soar harmônicos”, lembra.

O produtor explica que a “receita do bolo” do house já existe, “olha, se você coloca uma batida, um baixo, um teclado, isso e aquilo, a tendência é que isso case, fique legal”; mas, apesar da facilidade de utilizar receitas, o músico opta pela experimentação.

 

 

O artista considera que o fato do Vintage Culture “bombar” internacionalmente deve ser visto de forma positiva. “É um trabalho importante que chama a atenção do público estrangeiro para o Brasil. No entanto, as músicas possuem um apelo mais europeu modernizado, do que brasileiro. Eu tenho muita vontade, por mais difícil que seja, de tornar esses sons mais abrasileirados”, admite.

Apesar de DeepLick buscar o não-rótulo, e do fato de suas produções autorais se aproximarem do house europeu, ele admite que acaba sendo rotulado como um produtor de música eletrônica abrasileirada. “Atualmente eu toco bastante coisa minha, mas não é o que eu faço sempre. Eu gosto de tocar as músicas dos outros, da minha maneira. Ao mesmo tempo, por não aproveitar os ganchos dos momentos de rótulos específicos, como o drum and bass, techno e house, as pessoas acabaram me rotulando como um deejay e produtor de eletrônico brasileiro”, enfatiza.

Fernando sempre trabalhou tanto para rádio, quanto para o estúdio. Com o tempo, sentiu a necessidade de unir os dois lados: “Se no estúdio eu sou reconhecido como produtor musical, posso ser reconhecido como DJ-músico que faz as coisas ali na hora”, observa.

Sobre o uso de bootleg em apresentações, DeepLick é favorável, mas não concorda com o lançamento destes trabalhos, como fazem alguns artistas, “porque eu acho que em algum momento isso pode bater contra os ideais do autor da música. Mas gosto de fazer isso ao vivo: recortar determinadas partes das faixas e mistura-las durante as apresentações”, pondera. 

“Quando um determinado gênero ou estética eletrônica ganha fama em um cenário – ou globalmente – os artistas tendem a seguir e produzir aquele material de forma sistemática”, observa DeepLick. “Eu particularmente gosto de brazilian bass, mas acredito que deveria ser mais original. É claro que nenhuma música é 100% original e sempre é desenvolvida a partir de uma referência, no entanto, é possível trabalhar para variar mais o uso de alguns elementos”, observa.

Para DeepLick, a nova geração de artistas está fazendo um trabalho louvável para a cena eletrônica nacional. “Profissionais como Alibi (Level 2 e DJ Chap), estão dando um novo ar para o drum and bass”. Outros artistas que se dedicam ao house também estão demonstrando que certos timbres, ritmos e melodias não morreram com o passar do tempo. “Apesar das festas e festivais abordarem muitas vezes artistas que tocam os mesmos gêneros e utilizam as mesmas receitas de produção musical, alguns profissionais estão inovando o cenário, e isso é muito bom”, aponta DeepLick. “Gente para fazer coisas novas não falta, o que falta é um pouco mais de atenção da mídia para isso”, enfatiza, e complementa “mas isso só será possível se os produtores mostrarem um bom serviço. Precisamos de algo mais original e autoral”, encerra.

 

 

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