Por: Leo Andreazza e Vanessa Abreu
O contexto poderia — e deveria — ser outro. Em dez anos de história, o festival que teve início como uma reunião de profissionais da noite se tornou uma das peças centrais do mercado da música eletrônica e se consolidou como marca mundial trazendo milhares de fãs incondicionais para o Caribe. Impossível citar o BPM sem falar de Playa del Carmen.

Craig Pettigrew, sócio-fundador do festival, nos contou sobre a incessante busca pelo local perfeito, e revelou que o BPM estava originalmente planejado para ser em outra praia. “Os flyers já tinham sido impressos e estava tudo certo para fazermos em San Maarten, até que recebi uma ligação do meu sócio: ‘Craig você precisa conhecer este lugar!’. Foi o tempo de pegar o avião, percorrer o caminho do aeroporto ao hotel e chegar à praia. Estava decidido; seria ali.”
O lugar é realmente incrível e a cidade é a mais simpática da Riviera Maya, com um ar acanhado e sempre lotada de turistas de todas as partes do mundo. Tem seu centro comercial em volta da quinta avenida em uma rua exclusiva para pedestres, onde se pode encontrar de tudo, desde o mais delicado souvenir a lojas de grife internacionais e uma infinidade de restaurantes. O festival apresenta uma característica peculiar: acontece em seis clubs principais espalhados pela cidade, como Wah Wah Beach, Canibal Royal, Martina Beach e La Salsanera. Na beira-mar fica o Blue Parrot, e mais afastado o The Jungle, além de bares e hotéis que abrigam eventos menores.

Nossa maratona teve início com Tini and the Gang (que acompanha o BPM desde 2014). No lineup estava também Vlada, Dyed Soundroom, Bill Patrick e Rolls ‘N’ Do — B2B que ficou famoso no conceituado festival romeno Sunwaves. A festa teve um astral excelente e foi realizada no Canibal Royal, um club de praia relativamente pequeno, com a pista pé na areia e os DJs bem próximos do público. Quando chegamos, Dyed já estava tocando, levando a pista com um house que é característico nas apresentações do Apollonia. tINI assumiu um pouco antes do entardecer e na segunda faixa já passou a ser acompanhada por Bill Patrick, variando entre tech house, techno e vocais que foram bem recebidos pelo público.

No mesmo dia fomos também ao Martina Beach, que recebia a festa All Day I Dream, com Lee Burrigde. O club normalmente possui uma cabine no alto, longe do público, mas dessa vez os decks foram montados praticamente na areia, e o público ficou bem próximo do DJ inglês. No The Jungle Mixmag Presents Ya`ah Mull I, tivemos uma pista brasileira com Conti, Leo Janeiro, Albuquerque e Renato Ratier, que se apresentaram no Warung Stage, junto com D’Julz, Chaim e Francesca Lombardo. No palco principal as atrações eram Art Department, Steve Lawler, Shaun Reeves, Acid Mondays e Carl Cox.
Antes de sairmos para uma das mais aguardadas festas do festival, fomos convidados para uma coletiva de imprensa referente à expansão global do BPM. Foram anunciados os festivais em Portugal e no Brasil, que aqui terá três dias de duração e acontecerá em Itajaí (SC), nos mesmos moldes da edição principal: festas distribuídas em mais de um club e vários showcases.

Ao chegarmos ao Canibal Royal, fomos direto comer e vale a menção: a cozinha do club é sensacional e todo o cardápio é digno de um restaurante cinco estrelas. A festa em si é a mais divertida e descontraída do BPM. A Crew Love carrega uma aura paz e amor que é incorporada pelas pessoas. Nick Monaco fez o warm up, em um set que seria seguido por No Regular Play, porém um atraso no voo acabou fazendo com que a dupla fosse a última. Desta forma, o duo Wolf + Lamb assumiu os decks, com um som bem agradável, dançante, funky e disco como são conhecidos. Soul Clap foi muito bem representado por Eli Goldstein, que, Inspirado, colocou todo mundo pra dançar e mandou um dos melhores sets do festival. No final ainda teve tempo para uma jam session.

A noite foi a vez de voltarmos ao The Jungle para a festa Music On, com nomes como Joey Daniel, Paco Osuna e Marco Carola, que fizeram a alegria dos amantes do techno, tocando para uma pista cheia e entusiasmada. Na pista 2, Leon fez o warm up para Apollonia, em um set com bastante groove que empolgou um público mais propenso ao house do que ao techno.
Após a maratona, tiramos um dia de folga, com praia e muito mar. Retomamos às festas dia 10 com a R/R (Relief Records), famoso label de Green Velvet. A festa foi no Martina Beach, com o palco montado em sua configuração original. Lá tivemos a oportunidade de ver a lenda Kerri Chandler assumir a pista após Cajual vs Relief, que estavam num techno bem pesado. A transição durou duas músicas e logo estávamos ouvindo o fino da house music de Chicago, com sonoridades envolventes e uma bagagem invejável. Clássicos dos anos 90 mixados com faixas recentes… Foi ótimo!
Saindo de lá ficamos sabendo que Solomun iria fazer um pocket show em uma Taqueria, a exemplo do que Richie Hawtin e Dubfire fizeram ano passado. À noite o The Jungle recebeu a Dynamic Showcase, festa com maior procura de todo o BPM. O lineup contava com Solomun, Adriatique, Kollektiv Trumstrasse, Stimming, Magdalena, Lehar e Musumeci.

Eis então que chega o dia que este que escreve tanto esperava: 12 de janeiro. Durante a tarde tentamos aproveitar o set do Bonobo, mas o cansaço e a apresentação do George FitzGerald fizeram com que a escolha de descansar superasse a vontade de ficar na festa — afinal, a noite era de Arpiar! O local conhecido por Salsanera, um salão onde normalmente são oferecidas aulas de salsa e danças latinas, não poderia ser melhor. O trio romeno assumiu às 21 horas e embalou o público ate às 6h da manhã. Fotos e vídeos eram praticamente proibidos e a identidade low profile do trio foi mantida. Som incrível, mixagens impecáveis e a identidade romena representada em sua melhor forma. Impossível ficar parado! Enquanto Petre e Rhadoo pareciam estar fazendo o set mais tranquilo de suas vidas, Raresh esbanjava carisma dando atenção a todos que se aproximavam. Era a melhor noite de todo o festival!
No sábado outra festa consagrada em Ibiza chegava ao BPM: a Rumors, de Guy Gerber, acompanhado de Acid Mondays, Behrouz e da sempre carismática Cassy. Behrouz abriu tocando tech house e Cassy iniciou com a pista do Martina Beach lotada. A DJ alemã, uma das melhores do mundo, fez jus a sua reputação e envolveu o público numa mescla de house, tech house e techno muito bem mixada e selecionada. A ideia era permanecer até o fim, mas o cansaço da noite anterior não permitiu.

Chegamos assim ao fatídico último dia. Tudo estava preparado para fechar os dez anos do festival com chave de ouro. Decidimos não ir a nenhuma festa durante o dia, mas estávamos preparados para ir ao hotel Thompson, que hospedava alguns eventos fechados e de lá partiríamos para o Blue Parrot. Felizmente um mal-estar acabou nos prendendo no hotel. Durante a madrugada recebemos diversas mensagens questionando se estávamos lá, e a notícia era a pior possível: um atirador havia aberto fogo em meio à multidão, deixando dois seguranças mortos e um tumulto que vitimou uma norte-americana ao ser pisoteada.
Passamos em frente ao club no dia seguinte e o cenário era de guerra: sapatos largados, camisetas atiradas ao chão, mesas reviradas… As autoridades locais culpam o festival pelo incidente, porém a verdade estava escancarada em todos os lugares e até mesmo na rua. A presença do cartel de drogas é massiva e intimidadora. Ao que parece, o festival se mostrou impotente em impedir a entrada de traficantes nas festas, e a postura do governo de proibir todos os eventos de música eletrônica é uma medida para tapar o sol com a peneira.
Infelizmente não sabemos ainda como irá terminar essa queda de braço. Em minha entrevista antes do incidente, perguntei ao Craig qual era a maior dificuldade na produção do festival, e a resposta já havia sido categórica: “O governo precisa entender que estamos ali para ajudar, difundir o lugar e a música”. A dúvida permanece: teremos outra oportunidade de aproveitar o BPM em praias mexicanas?
