SLOW MOTION
“Não sabia se as pessoas iriam entender o meu som, mas descobri que tinha todos os ingredientes para fazer acontecer, só precisava de coragem.”
POR Flávio Lerner fotos KL Studio
IDENTIDADE PRÓPRIA
Como Slow Motion conseguiu envolver o público com suas linhas de baixo
Autor do remix da música “Drinkee” de Sofi Tukker, lançada pela Ultra Music ao lado de um dos principais artistas da música eletrônica brasileira, Vintage Culture, o produtor Kaynã Reis é o responsável pelas linhas de baixo que se misturam com o vocal em português do poema “Relógio”, de Chacal, interpretado pela própria Sofi. Com influências marcadas pelo hip hop do Brooklin dos anos 70, reggae e rock brasileiro, mostra-se um artista completo. “As melodias e os grooves das minhas músicas refletem tudo que aprendi tocando violão, baixo, guitarra e bateria.” Mas engana-se quem pensa que Slow Motion está associado aos BPMs mais lentos e arrastados. O nome, que sugere um ritmo desacelerado, diz respeito ao seu estilo “low profile”: “Não quero chamar atenção para mim, mas para minha música”. Conheça essa face mais intimista revelada no nosso bate-papo com o catarinense:
Olhando pra trás, como você descreveria sua trajetória até aqui. Qual foi o maior desafio que você enfrentou?
Eu vim de uma parte da cena bem subestimada na verdade. Enquanto o circuito fazia mais do mesmo, vi o clube do qual sou residente, o El Fortin, acreditar nos artistas nacionais e nos sons que estavam sendo criados aqui no Brasil. Muitos julgavam sem saber de fato o que acontecia por baixo daquele teto. Tive sorte de fazer parte dessa trajetória, de ter a confiança de pessoas boas do mercado, mas também tive que me dedicar muito. O meu maior desafio foi superar o medo da rejeição. Eu não sabia ao certo se as pessoas iriam entender o meu som, o que queria transmitir com as minhas músicas, mas descobri que tinha todos os ingredientes para fazer acontecer, só precisava de coragem.
Quando você considera que sua carreira como DJ, de fato, virou profissional? Existe um momento divisor de águas ou foi um processo mais natural?
Acho que todo mundo tem aquele momento de impacto que te mostra quem você era e quem você quer ser. Normalmente vem acompanhado de uma oportunidade única, que te faz escolher entre ficar parado onde está ou seguir em frente. O meu foi quando entrei na Entourage; passei a ver as coisas sob uma nova perspectiva, comecei a entender a necessidade de trabalhar partes da minha carreira que antes não pareciam tão importantes.
Você tem parcerias com nomes como ILLUSIONIZE e Vintage Culture. Como chegou até eles?
O Vintage Culture já tocava algumas músicas minhas, até que surgiu a oportunidade de trabalharmos juntos na “Drinkee”; quando ele me mandou a ideia eu curti muito e o processo criativo fluiu muito bem. Hoje é mais fácil colaborar com artistas de qualquer parte do mundo, a internet quebrou muitas barreiras. Com o Pedrinho [ILLUSIONIZE] não foi muito diferente: mandei o projeto de “Better Day” e ele se identificou. Tenho outras músicas com ambos, mas estão em fase de testes ainda. Nem todas as minhas músicas são lançadas de imediato, algumas são testadas na pista durante meses até eu ter certeza que estão realmente prontas.
O cenário eletrônico é imenso e possui incontáveis desdobramentos em nichos e vertentes diferentes. Onde você se situa nisso — isto é, a qual cena eletrônica você se enxerga fazendo parte?
Eu tento não me rotular a uma cena específica. Meu objetivo é fazer música boa, que eu curto. Se, as pessoas gostam do meu som e se juntam a mim, o prazer está em compartilhar isso. Vivo buscando novas influências e caminhar entre os gêneros, experimentar essa mistura de elementos, é algo muito interessante. O público quer ser surpreendido, anseia o desconhecido e nós artistas precisamos enxergar isso como a oportunidade de criar um som novo. A cena é uma só. Precisamos de união e isso só acontece respeitando as diferenças.
Quais seus principais diferenciais em relação aos outros DJs e produtores? Existe algo que só o som do Slow Motion tem?
É fácil perceber as linhas de baixo com violão nas minhas músicas, os drops com kick reverse que viraram meio que uma marca registrada do projeto Slow Motion, mas o que nos diferencia uns dos outros é o acúmulo das experiências que transmitimos através da música — você precisa viver e ouvir pra sentir, senão você não entenderia.
O que você vislumbra para o prosseguimento da sua carreira?
Viver e colocar minhas próprias experiências na música, oferecendo para o público esse aprendizado e recebendo de volta toda a energia da pista. Isso é um ciclo, que se repete e inclui mais e mais pessoas a cada volta, pois tudo que fazemos para os outros, bem ou mal, um dia volta pra gente.
Slow Motion está confirmado dia 21 de janeiro no House Mag Festival no El Fortin Club.

