Por: Lucas Doné
Após ficar uma semana no Sul, participar do RMC, conhecer clubs, interagir com um público novo e acompanhar de perto a união e a paixão pela música que eles sentem, mudei de certa forma minha percepção sobre a identidade da cena brasileira. Vivendo no movimento underground que acontece em São Paulo há mais ou menos três anos, pude desenvolver meu gosto e meu senso de ir atrás de algo de qualidade, sejam DJs, produtores, clubes ou festas, me fazendo acreditar por um bom tempo que seria isso e pronto; crescer onde vivia e já era. Só que não é bem assim que realmente deve ser.
Ao sair dessa bolha em que eu estava acomodado, pude perceber que o movimento é muito maior que o das sonoridades que acompanho. O que move essa cena não está apenas nos centros urbanos ou em clubs referência, mas também nas festas pequenas realizadas em porões de bairros afastados, em casas ocupadas por artistas em ruas esquecidas, ou andar três horas de carro entrando por uma estrada de terra em direção a um sítio qualquer… Essa paixão nos estimula e faz acreditar na verdadeira essência da música que hoje falta em muitas pessoas.
Temos no Brasil dois lados da música eletrônica correndo em paralelo, mas vivendo momentos diferentes de reconhecimento e valorização. De um lado, artistas apoiados pelo marketing e o trabalho de uma equipe para que sejam melhor direcionados ao foco principal do mainstream, com cachês exorbitantes e números expressivos para clubs e festas; por outro, artistas com um talento incrível produzindo músicas e sets fantásticos que muitas vezes — por não ter alguém auxiliando nessa divulgação ou pela razão de estarmos em nossas bolhas musicais — não chegam até nós.
Há um tempo comecei a buscar novas sonoridades e pesquisar vários desses artistas fora do radar, passando assim a agenciar alguns DJs brasileiros. Um deles voltou de Londres recentemente e foi uma das pessoas que abriu meus olhos para a verdadeira essência da música, que por vezes acontece à nossa volta e não percebemos. Prova disso é o francês Lowris ter dito que o Brasil foi o país mais fantástico que já tocou, e do Fred P não ver a hora de fazer uma nova tour por aqui. E mesmo assim, continua sendo reproduzida aquela sensação equivocada de que “a cena está uma merda”…
Conhecendo de perto a festa Music Nerds — em parceria com a Wake Up Colab de Curitiba — e o after da Basement Sessions, que apresentou o showcase da WAN, pude sentir quanto é bom e necessário você se afastar um pouco da avalanche musical que todos sofremos diariamente pelo Facebook, podcasts, canais de mídia e tudo que tivermos acesso através de um computador, para passarmos a fazer trocas de fato construtivas, descobrindo e conhecendo sonoridades interessantes através dessas festas e de artistas por eles apoiados, em conversas informais entre amigos.
Acredito que assim possamos tirar nossas bundas do sofá para fazermos algo para fomentar essa visão de crescimento, principalmente nessa fase importante que atravessamos. Ou seja, valorização, respeito e confiança em nossos DJs são o que faltam para que eles possam se desenvolver da maneira que merecem. Estamos vivendo um momento especial no Brasil, com ótimos artistas nacionais que oferecem experiências sonoras tão ricas quanto de muitos nomes trazidos para cá em tours por diversos núcleos. Por que os clubs e o público ainda não se deram conta disso?
