Por: Gabriela Loschi
Fotos: Riccardo Malberti
*entrevista publicada na House Mag impressa #45
Poucos artistas possuem a consistência e a experiência deste alemão que certamente dispensa apresentações. Um produtor de habilidades singulares, um DJ que traduz com destreza o techno em emoções, que conduz as pistas mais exigentes do mundo, passeando por diferentes nuances e tonalidades do techno e adicionando elementos assertivos de acordo com cada momento.
Conhecido por comandar long sets de 6 a 10 horas, oferece ao público narrativas inigualáveis para cada ambiente, mas de uma forma que sabemos sempre quem é que está no comando da cabine. Ben Klock é profundo, intenso, obscuro ainda que grooveado e seu som tem um grave inconfundível. Intenso, aparece sempre com bom humor – apesar de sua personalidade intimista e do seu som minimalisticamente agressivo, ou talvez agresivo não seja bem a palavra, mas forte e denso – como alguém que cuida do astral tanto quanto cuida de suas produções e releases. Mas, principalmente, como alguém que ama o que faz acima da tudo e não pensa em nada além da música que o está tocando – e tocando profundamente a pista – enquanto se apresenta.
Em meados dos anos 2000, Ben Klock encontrou no Berghain sua casa e ali sentiu-se livre para expressar sua arte, podendo tocar exatamente as batidas em que acredita. Na Ostgut Ton, lançou o primeiro release do label, “Dawning”, em 2006, com seu parceiro Marcel Dettmann. No mesmo ano fundou o seu próprio selo, o Klockworks, hoje um dos labels mais sólidos do cenário.
Ele é um dos principais DJs de techno de Berlim – afinal, ser um dos “reis” do Berghain não é luxo, é conquista para poucos – e a sua consistência e singularidade o consolidaram como um dos maiores expoentes do techno mundial. Ele volta ao Brasil em novembro (atualização: em fevereiro de 2017 também, para o Dekmantel), e nós aproveitamos para falar (por email) com este grande astro e influenciador de todas as gerações.
HOUSE MAG – Oi Ben! É um prazer falar contigo. Para muita gente, você já atingiu o topo. Você sente isso também? Após ter tocado no Coachella, ter ganhado o BBC Essential Mix do ano, após celebrar 10 anos de aniversário do próprio label, com o que você ainda sonha?
BEN KLOCK – Ganhar o Essential Mix do ano foi definitivamente algo muito mais grandioso pra mim do que tocar no Coachella, onde o techno é pequeno comparado com outros festivais; não foi uma gig importante pra mim. As pessoas falam dela apenas porque é o Coachella. Mas sim, eu já atingi muitos dos meus sonhos. Só que um grande desafio pode ser também se manter no topo do jogo, se manter relevante. Nesse sentido eu ainda sou muito ambicioso e estou sempre buscando por novas músicas para me manter fresh. Isso nunca muda. E como a Klockworks é um label pequeno, tem sempre o potencial de crescer e de surgirem novas ideias para realizar Klockworks showcases, em termos de produção, visual e a experiência toda.
HM – Como dono de label, você é inspirado pela música que você recebe dos seus colegas artistas da Klockworks? Costuma direcioná-los ou você da total liberdade artística para produzirem o que quiserem?
BK – Eu estou sempre empolgado para ouvir novas músicas dos artistas do meu label e dou a eles total liberdade, mas quando preciso escolher as faixas para lançar, eu sou muito exigente e dou bastante feedback, às vezes de mudanças que eu faria. Lidar com demos não é tão simples. Eu ouço tudo o que me enviam, mas é muito difícil encontrar novos artistas interessantes, pra ser bem sincero…
Qual era o seu relacionamento com a música quando você era mais novo? O que você queria ser quando você crescesse?
Eu gostava de experimentar novos instrumentos desde muito novo. Tínhamos vários em casa: Guitarra, violão, piano, bateria, um saxofone turco, um didjeridu australiano, e muitos outros. Eu amava testá-los todos os dias e tocava piano por 1 ou 2 horas depois da escola. Então eu li em uma revista sobre sintetizadores, como o Roland Jupter 8 e comecei a sonhar com isso, em ter meu próprio estúdio. Meu irmão construiu pra mim um mixer caseiro e eu fiz meus primeiros records em casa, experimentando com 3 fitas cassetes e um microfone. Eu tinha 2 sonhos quando eu era jovem: um era me tornar um pintor famoso. O outro era me tornar um rock star. No fim eu me tornei um designer gráfico e um DJ – fiz as duas coisas por muitos anos -, então estou próximo ao que eu sonhava… ;)

Você é DJ há 15 anos e tem tocado nos maiores clubs do mundo por mais de uma década e em grandes palcos de eventos maiores. Qual é a importância da conexão entre o artista e o público?
Claro que a conexão com a multidão é diferente quando você toca para 500 pessoas em um club ou em um palco para 10 mil pessoas. Eu amo a vibe íntima de um club. Amo sentir as pessoas perto de mim. Por esse motivo, eu sempre peço aos promoters para não colocar o palco tão alto ou tão longe da galera. Eu me sinto melhor e mais conectado quando não estou tão longe e acabo tocando melhor, pois recebo suporte imediato. Então eu amo quando um festival grande se parece um pouco com um club e não com um palco para bandas de rock. No fim, o techno vem da cultura de clubs.
Você viaja bastante. Já que Berlim é a capital do techno, poderia nos apontar outras cidades com uma boa cena de techno?
Eu amo o que está acontecendo nesse momento no leste europeu. Há uma grande cena em crescimento. Tive experiências fantásticas em Sofia e Tbilisi. O mesmo está acontecendo em várias cidades sul-americanas. E Paris se tornou uma das cidades mais fortes no techno nos últimos anos.
Quando não está trabalhando, você sai para curtir? Tem dicas dos melhores lugares em Berlim, sem ser o Berghain?
Eu não tenho muito tempo para sair porque eu sempre toco ;) Meu trabalho é a minha festa. Então eu saio muito raramente, normalmente quando toco a penúltima gig no Berghain e não tenho outro show na sequencia. Nesse caso eu fico e aí a coisa fica perigosa ;) Então eu receio que não poderei dar nenhuma recomendação de outros lugares em Berlim simplesmente porque eu não conheço. Eu sou um clubber mundial atualmente, não tanto um expert em Berlim mais.
Você tem testemunhado o público do Berghain por mais de uma década. Notou alguma diferença nos últimos anos? Quero dizer, muitas pessoas vão a Berlim e querem entrar no Berghain obrigatoriamente, não importando sua atitude na cultura do techno. Você sente o turismo?
Bom, é aí que entra o trabalho do door man. Eles precisam fazer com que o Berghain não se torne somente um lugar turístico para pessoas que não tenham uma real conexão com o techno. Eu sempre sinto que a maioria das pessoas que entra lá, sabem muito sobre música, mais do que em muitos outros lugares no mundo. O público do Berghain sempre foi e ainda é muito educado musicalmente.
O que mudou na cena de quando você começou a fazer música? Quais as principais mudanças na cena de techno?
Talvez a principal diferença seja que na década de 90 a cena era muito mais local. Foi antes da internet e do easyJet (vôos baratos). As pessoas não viajavam constantemente. Também não era tanto sobre estrelas, rostos e hypes. Tudo ficou muito mais professional e o techno se tornou uma indústria de verdade. Marketing, Facebook e tudo o mais, coisas que você nunca pensaria nos primórdios do techno. Mas é emocionante ver como as coisas mudam. Eu não sou o tipo de pessoa que costuma dizer que as coisas antes eram melhores. Para mim, as coisas definitivamente estão mais emocionantes agora, mesmo que a era de ouro do techno tenha sido na década de 90.
Como você se mantém focado e acordado por horas e horas quando está tocando aqueles long sets?
Isso não é um problema pra mim. Quando estou na ativa, posso tocar por horas a fio e eu não sinto a hora passar. O que pega mais é tocar tipo 5 a 10 shows de uma vez, em países diferentes, sem praticamente dormir. As viagens são a parte mais difícil, não os sets propriamente ditos.
Você sente vontade de escrever músicas diferentes do seu estilo de techno forte, mas com groove e minimalista? Existe algo que você não possa fazer devido ao seu status de techno-star?
A questão é como definir “minimalismo”. Eu toco uma variedade de estilos muito grande, dentro deste estilo musical, às vezes agressivo, bruto, às vezes mais houseado. Isso realmente depende do meu estado de espírito e da galera. Em relação ao que eu posso ou não fazer, eu me sinto bem livre. Na verdade, eu estou na posição confortável de que as pessoas me conhecem pela minha discotecagem e eu não TENHO necessariamente que produzir alguma coisa se eu não quiser. Eu não preciso mais mostrar o que é o meu estilo, então eu acredito que eu seja bastante livre para fazer o que eu quiser quando eu estou produzindo. Veremos aonde tudo isso vai me levar…
Que tipo de música você curte ouvir quando está relaxando?
Na maioria das vezes: silêncio e natureza. Ou algo completamente diferente de techno. Atualmente ando ouvindo Lucio Battisti, um cantor italiano.
Você consegue assistir outros artistas quando está em turnê?
Na verdade não muito, sendo honesto. Eu gosto de descobrir coisas novas e ser surpreendido. É muito inspirador, mas na maior parte do tempo, consigo chegar 5 minutos antes do seu set, e sou o último a tocar… então não é tão fácil.
E na sua folga?
Não, não nesses momentos. Quando eu tenho folga, eu dou um tempo mesmo (risos).
Você já tocou no Brasil algumas vezes, no D-Edge, no Warung… A cena de techno no país está realmente crescendo atualmente, apesar de outros estilos, como um tipo de deep house e o EDM ainda dominarem o país. Como você enxerga a cena brasileira, de tudo o que você já viu por aqui?
Essa é exatamente a minha impressão, que até o momento esses estilos se sobrepõem ao techno. Mas eu tenho a impressão de que o movimento do techno está ficando muito forte em toda a América do Sul. E eu estou curioso para saber o quão longe isso irá. Uma coisa é certa: EDM é uma fase. Techno é um estilo que permanece.
Para finalizar, nos conte sobre seus projetos e planos, o que está vindo a seguir para você, para a Klockworks e as tours? O que você planeja fazer para se manter no topo do jogo? Obrigada pelo seu tempo, Ben.
Vou lançar uma compilação do meu label em breve e tenho também uns releases próprios para sair. Temos ideias para um novo projeto de show para a Klockworks. Mas tudo isso ainda está muito embrionário, para que eu consiga fornecer mais detalhes.
Veja como saiu na revista impressa:
