Por: Anderson Santiago
O Burning Man, realizado anualmente no Deserto do Nevada, nos EUA, é hoje um dos eventos culturais mais almejados para quem busca uma experiência imersiva e inusitada além da música, que reúne também muita arte e cultura. Criado em 1986, tem ficado famoso nos últimos anos, principalmente devido à presença garantida de artistas famosos, modelos, jogadores de futebol e até músicos mais pop, como o produtor Diplo, que tocou neste ano. Quem já foi garante que, de fato, o que se vive lá é muito mais do que a experiência de um festival e que a fama não é problema, já que o evento segue firme os seus princípios. Sendo assim, conversamos com alguns brasileiros que estiveram no Burning Man para contar suas impressões nesta e em edições passadas. O que elas e as mais de 70 mil pessoas que participam dele durante 10 dias confirmam é: tudo por lá é surpreendente, e a experiência deixa marcas para a vida inteira. Confira:

Dré Guazzelli, 31 anos, DJ
Conheci o Burning Man por meio de pessoas especiais, de viagens e de escolhas bem feitas com o coração ao longo de anos bem vividos. O que mais me chama atenção sempre é o potencial que nós humanos temos de sermos mais abertos ao amor. Que as máscaras do nosso dia a dia podem ficar de lado. Que “ser é muito mais legal do que apenas “ter”. Que fazer amigos novos é normal e faz bem. Que não se preocupar com o que os outros irão pensar poderia ser algo muito mais praticado do que é hoje em dia. A única coisa que me incomodou foi o fato de o Burning Man durar tão pouco (risos). Você tem que estar preparado para enfrentar situações como fazer xixi na garrafa de água, vestir roupas que normalmente não usaria, comer em horários malucos, falar com estranhos, tomar banho de lua, pedalar sem rumo e ter uma outra relação com o espaço e tempo. Toquei nas três vezes que fui ao festival. Neste ano, fiz um set de sete horas seguidas: comecei de madrugada e vi o sol nascendo ao fundo do deserto em meio as montanhas afastadas em um dos cenários que chega muito próximo dos meus sonhos e que me faz lembrar da primeira vez que decidi tocar. Isto me faz chorar de felicidade: dançar e transmitir uma emoção genuína por meio da música. Acho que a energia que tem lá é naturalmente absorvida por todos que participam da experiência, independente de estado civil, físico ou financeiro. O Burning Man é mais que um festival, é uma cidade e, no meu ver, ela faz com que nos aproximemos mais de nós mesmos, independente se é famoso, loiro, gordo, perdido, mestre, criança ou o que quer que seja. O que importa é a mudança de dentro para fora, a evolução.

Giulia Lopes, 29, apresentadora
Em 2013, estive no Burning Man pela primeira vez, como a primeira equipe de imprensa brasileira a fazer a cobertura do festival em vídeo para um portal de notícias. Repeti a experiência em 2014 e, em 2015, levei a primeira instalação de arte brasileira (chamada Projeto Mangueira) e um camping para brasileiros ao deserto, que recebeu cerca de 70 pessoas. Tudo isso só aconteceu graças ao trabalho colaborativo do coletivo que criamos, o Brazilian Burners, para incentivar, disseminar e também divulgar a arte brasuca por lá. Este ano resolvi viver uma aventura e ir sozinha, sem muitas responsabilidades e compromissos –a não ser o maior deles, que é viver de forma integral tudo que o evento tem para oferecer. Como fui criada nos EUA e tinha um irmão fã de música eletrônica, conheci cedo o festival, mas nem ele sabia direito do que se tratava. Cresci e comecei a pesquisar e ler relatos de gente que havia ido, que me contavam histórias surpreendentes e intrigantes. É tudo muito impressionante por lá: a cor do céu, a cor do deserto e do pó, o clima oscilante, a poeira sem fim, as tempestades de areia, as inúmeras instalações de arte (todas interativas). A conectividade, a troca constante com as pessoas, a força e o poder dos gestos e atitudes, dar sem esperar nada em troca, a força do sorriso e do abraço, a facilidade em fazer novos amigos. O trabalho voluntário, o trabalho colaborativo, o trabalho em equipe, a necessidade de fazer bem ao próximo como se fosse para você. A falta de importância do dinheiro (que não serve pra nada), a limpeza absoluta e o cuidado para não deixar lixo. Um dos exemplos dessa vibe foi quando fui parada no meio da cidade por um rapaz puxando uma maca; ele me parou e me ofereceu uma massagem de 30 minutos, além de ter me ofertado um presente. O Burning Man foi o evento mais transformador a que já fui e me fez perceber e abrir os olhos para pequenas coisas que podem fazer a diferença no mundo. Aprendi a importância de prestarmos atenção no lixo que geramos, a sutileza de pequenos detalhes nos nossos gestos com as pessoas e com nós mesmos, a importância de se auto expressar e ser quem você é sem se preocupar com rótulos ou com o que os outros pensam. Por fim, aprendi que juntos somos muito mais e que sozinhos não somos nada.

Jade Gola, 34 anos, jornalista e DJ
Conheci o Burning Man ao acaso. Fui em 2008 visitar um amigo em Nova York e ele me falou do festival. Topei ir, ele comprou o ingresso para mim (na época custou só uns US$ 300). Lembro de ficar interessado pela foto aérea de Black Rock City e por se tratar de um festival meio “hipponga” que é na verdade uma cidade itinerante. Tudo por lá nos surpreende: a engenhosidade dos americanos em construir campings temáticos, carros mutantes, e também o paradoxo de ser uma pequena comunidade socialista no epicentro capitalista global (nada se comprava, a não ser café e gelo –isso é curioso. Comidas, bebidas e afins se levam, troca-se e se compartilha tudo). A única coisa chata é que fui sem meu namorado, sem os melhores amigos do Brasil e, perdido lá entre os gringos, senti falta do meu pessoal, pois de fato é uma experiência em que você acaba encontrando sua essência. Há choques culturais imensos e bizarros, lazeres extremos. O clima inóspito de 40 graus de dia e 5 de noite e a secura de deserto atrapalham um pouco. Lembro que depois que queimaram o “Burning Man”, o homem gigante que fica no centro da cidade, forma-se uma gigantesca fogueira, muito alta e quente, controlada pelos bombeiros, e o pessoal fica sentado em volta. Eu estava lá com um amigo, e de repente chegou uma comitiva marchando, vestida com umas roupas estranhas, túnicas religiosas, trazendo um caixão. Ficamos chocados que podiam estar levando um cadáver (muita gente lá tem relação carnal e de vida com o festival e soou natural alguém querer ser cremado na fogueira do “Man”). Então todos acharam que era um cadáver. Quando eles viraram o caixão na fogueira, surgiram somente fogos de artifícios que criaram uma chuva colorida enquanto eles dançavam um break (meio tirando onda da galera que pensou que poderia ser um velório). Tem sempre umas doideiras que rolam. Eu adoraria voltar ao Burning Man, mas ao mesmo tempo é uma experiência tão intensa que me sinto lisonjeado pela vivência. Não é algo que eu precise muuuuito refazer. Guardo muito as lembranças, as sensações, e elas são suficientes para enfeitar as memórias da minha vida para todo o sempre. E, claro, super recomendo.
Rizza Bonfim, 31 anos, fotógrafa e produtora cultural
Frequento festivais desde os 15 anos, E, claro, o Burning Man sempre foi conhecido por sua filosofia e grandiosidade, mas parecia algo muito distante e impossível para mim. Em 2013, uma amiga aprovou um projeto para fazer uma cobertura do evento, e eu acabei embarcando na jornada. Fui mais duas vezes depois. O que mais surpreendeu foi a experiência social que tive por lá baseada nos 10 princípios que regem a cidade de Black Rock City (auto-expressão, autoconfiança, de-comoditização, não deixar rastros, imediatismo, participação, inclusão radical, co-operação, comunidade e presentear). Viver uma semana em uma sociedade colaborativa, que não é baseada em valores financeiros e incentiva toda e qualquer auto-expressão é algo inesquecível. Muitos desses valores hoje estão aplicados nos meu cotidiano. A sensação é que você está em casa e todos ali são parte de uma grande família. Não sei citar nada que tenha sido realmente ruim, nem mesmo o ano em que passei 24 horas parada na fila de chegada. Foi uma experiência interessante, afinal, eu nunca tinha visto chover gelo no deserto. Tratando-se de Burning Man, tudo pode ser incrivelmente surpreendente. Discordo totalmente que o festival esteja se tornando pop e comercial. Muita gente me pergunta isso e eu costumo dizer: “Vá, vivencie a experiência e depois me diga suas impressões.” As pessoas têm mania de criticar sem nem ter vivido e muitos dos que afirmam que festival ficou comercial sequer o conhece. O Burning Man foi capaz de crescer mantendo exatamente sua filosofia, o que é um enorme desafio, e é por isso que a cada ano atrai mais interessados. Eu acho esse movimento maravilhoso e torço para que mais e mais pessoas possam vivenciá-lo. Que essa experiência transforme a vida delas assim como transformou a minha.

Tania Zaccharias, 31 anos, empresária
Eu tinha acabado de perder minha mãe e senti que ir ao Burning Man seria uma viagem legal para ver e experienciar coisas novas. Fui com três amigos. É muita desconstrução que rola lá: o lugar, as pessoas, as relações que se constroem, as sincronicidades. Acho que uma das coisas que mais me tocaram foi perceber como as pessoas são lindas por lá –e isso não é uma questão estética. Parece que naquele ambiente onde tudo é permitido cada um expressa o que é mais verdadeiro para si –e isso torna tudo e todos belos. Outra coisa que me impactou foi a questão do lixo. É uma desconstrução mental gigante o lance da auto-suficiência e de você ser responsável pelo seu lixo. Não há nenhuma lata de lixo e não se vê uma bituca no chão. Depois disso, eu passei a ter outra relação com acúmulo, com lixo e com as embalagens. Houve um outro momento bem marcante. Lá tem um templo lindo, que é o “Templo dos Mortos”, onde as pessoas levam lembranças e objetos e deixam mensagens para quem já partiu. Como minha mãe havia morrido fazia só três meses, eu sabia que seria forte para mim. Entrei lá e comecei a chorar muito. Quando olhei para o lado, um cara abriu os braços e me deu um abraço gigantesco. Chorei no ombro dele por uns 10 minutos. Quando o êxtase do momento passou, a gente só se olhou e fez um “namastê”. Eu não sei o nome dele, quem ele é, nada. Só sei que ele me deu um dos melhores abraços da minha vida.
