O RMC acertou ao colocar o Baile do Dennis em seu Carnival?

Por Alan Medeiros

Pelo oitavo ano consecutivo, o Rio Music Conference terá uma programação de festas durante o carnaval. Os eventos são uma das principais opções para os foliões que desejam curtir o principal feriado do país fora das tradicionais festas axé, samba, pagode e afins.

Esse ano, no entanto, há uma grande polêmica envolvendo o line up, em especial por conta da festa do dia 7 de Fevereiro, que levará assinatura da label party Baile do Dennis. A festa, que foi a primeira a dar soul-out, pertence a um dos maiores DJs e produtores de funk do Brasil. O principal argumento da organização é reconhecer o funk como música eletrônica genuínamente brasileira – e quanto há isso, não há como discordar: o funk realmente é.

A grande indignação do público, é mais pelas presenças de MC Guimê e Valesca do que propriamente por uma festa de funk dentro de um dos maiores carnavais eletrônicos do Brasil. Há dois lados que merecem ser observados nessa questão e iremos abordá-los separadamente.

O Rio Music Carnival é sem sombra de dúvidas, um evento focado para as grandes massas. Seu custo operacional é alto e portanto, há uma necessidade eminente de trazer o maior número de pessoas para as festas. Como o EDM já não tem a mesma força de alguns anos atrás, novas possibilidades precisam ser testadas. Esse ano por exemplo, além do Baile do Dennis, teremos Vintage Culture, Kolombo, Alok e Gabe, nomes que há algum tempo atrás seriam classificados como undergrounds, mas hoje, são capazes de arrastar multidões por onde passam. Estão no mainstream, em posição de destaque.

A escolha de trazer o Baile do Dennis abre a possibilidade para que pessoas que não estão inseridas no universo da música eletrônica, frequentem um evento do gênero e, quem sabe, se interessem por outros artistas que estão no lin up deste ano. Isso é bom. Portanto, até aqui temos um evento mainstream, com uma label party mainstream, com possibilidade de conquistar novos consumidores em um futuro próximo. Uma estratégia bastante inteligente. 

O segundo lado dessa história passa por uma continuidade no argumento que trouxe o Baile do Denis até o RMC. A cultura de bailes nas favelas do rio é profunda e complexa. As comunidades são lugares propícios para estímulo da criatividade e, portanto, há muita gente fazendo funk de verdade, flertando com beats, misturando o funk com RnB e chamando atenção de produtores gringos, que vêm para as nossas favelas fazer intercâmbio cultural com esses artistas.

Reconhecer o funk como música eletrônica brasileira é muito mais do que trazer o Baile do Denis para um evento de massa, ou bater palma para Hardwell tocando “Baile de Favela” em sua tour pelo Brasil. O RMC vai precisar ter um compromisso com essa cena para os próximos anos, investindo em uma curadoria mais profunda em seus eventos, convidando produtores de festas e artistas para as conferências e ajudando a impulsionar a comunidade funk para um “next level”.

Quanto ao público, vale lembrar mais uma vez, que música não é política, nem futebol, nem muito menos religião. Estar aberto a experimentar novos ritmos na pista de dança faz bem para alma e para o nosso background musical. Reconhecer a cultura de pista que vem das favelas é importantíssimo e nos faz crescer enquanto consumidores de música eletrônica e seres humanos também. Definitivamente, não há espaço para preconceito dentro da nossa cena. Afinal de contas, todo mundo quer apenas dançar e ser feliz. 

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