Por Flávio Lerner
Amanhã, durante o primeiro dia de atividades do Rio Music Conference 2016, no Rio de Janeiro, teremos a tradicional premiação dos destaques da música eletrônica no Brasil, que elenca os principais nomes entre as mais variadas áreas de atuação dentro desse mercado. Naturalmente, os artistas são as grandes estrelas, e por isso trocamos uma ideia rápida com os indicados ao prêmio de Produtor Revelação para entendermos um pouco de como foi o ano deles, o que os levou a chegar nessa lista e quais seus próximos lançamentos.
São 19 projetos concorrendo nessa categoria: Angelo Fracalanza, BLANCAh, Chemical Surf, Chevalier, Dakar Carvalho, Gabriel Boni, Groove Delight, Illusionize, Junior C, Keskem, Lucas Arr, Manara, Pimpo Gama, Repow, Shadow Movement, Sugar Hill, Vintage Culture, Wilian Kraupp e Zopelar. Fizemos a todos eles as seguintes perguntas:
1. Como foi seu 2015?
2. Na sua visão, o que você fez para estar nessa seleta lista de concorrentes ao prêmio do RMC?
3. Quando e qual será o seu próximo lançamento?
4. Qual a sua melhor dica de produção pra quem está começando?
Confira abaixo o que cada um deles* respondeu (para saber mais sobre cada artista, basta clicar em seus nomes para acessar suas respectivas páginas):
BLANCAh [SC]
1. Posso dizer metaforicamente que 2015 foi o ano em que as luzes se acenderam no meu palco e o universo da música eletrônica brasileira começou a me enxergar. Lancei meu EP “BIRDS”, que teve uma boa repercussão, entrei pela primeira vez para uma agência (D-Agency) e tive muito trabalho recorrente disso. Foi um ano de muitas realizações dividido entre estúdio e estrada.
2. Trabalhei obsessivamente trancada no meu estúdio e focada apenas na música por três anos seguidos. Não há outra resposta a não ser esta: trabalho duro e foco.
3. Em março lanço meu EP “Soturno” pela Steyoyoke. Ele contará com três faixas originais. Depois disso, para o fim do ano lanço meu primeiro álbum. Entre um e outro terei remixes e parcerias sendo lançados também.
4. É uma dica que pouca gente da importância, mas acho fundamental: cuide da saúde dos seus ouvidos. Nada de estourar ele com volumes absurdos no estúdio, nos fones e na balada. No fim das contas é o nosso melhor instrumento de trabalho.
Dakar Carvalho [SP]
1. Meu 2015 foi muito gratificante, consegui levar minha música pra todo canto do Brasil, além de ter sido muito produtivo e trabalhoso em todos os aspectos. Foram dias e noites estudando, produzindo e sempre tentando buscar uma qualidade sonora que realmente eu goste e acredito que 2016 não vai ser diferente [risos].
2. Acredito que foi porque quebrei regras, saí da rotina, levei algo novo. Procurei não produzir somente o que está acontecendo aqui. O Brasil vive uma cena bastante saturada de muitos músicos e produtores fazendo a mesma coisa. Tento sempre levar ao público algo novo, algo diferente, e é gratificante que vem dando muito certo.
3. Estou no momento trabalhando em um vinil com o duo Audiojack para a gravadora deles, a Gruuv. Tenho também alguns releases na Dirtybird, This Ain’t Bristol e Material Series.
4. Estudar bastante, procurar entender e ir mais a fundo sobre produção e teoria musical. Bastante trabalho e sempre manter foco, que o resto vem com tempo.
Groove Delight [SP]
1. Meu 2015 foi muito dinâmico! Acredito que toquei praticamente todos os finais de semana e me dediquei muito no estúdio. Logo no final do ano fiquei bastante tempo no estúdio porque eu estava começando a enjoar de algumas coisas no meu som e então me foquei em mudá-las. Tive varias surpresas, toquei algumas vezes fora do Brasil e em lugares que nunca imaginei que meu som chegaria, como o mainstage do Green Valley.
2. Eu trabalhei duro em 2015 e quem me acompanha sabe que o que faço é puramente ligado a meu amor pela música. Eu me senti muito feliz por ver que a galera votou em mim [no Top 50 DJs da House Mag] mesmo sem eu ter feito campanha. Isso foi um sinal de que eu estou no caminho certo tocando as pessoas através da minha musica. Eu acho que tudo isso é o resultado de muito trabalho e muita dedicação!
3. Tem vários lançamentos agendados pra o final de fevereiro e início de março, mas estou muito empolgada pra uma faixa que vou começar com o Louie Cut, para seu álbum, e minha faixa “Get Low”, que sai em março.
4. A melhor dica é: tenha foco! Muito foco! E não deixa nada te abalar não. Vão ter muitas pessoas com o ego elevado que vão te colocar pra baixo e vão tentar fazer sua cabeça, mas a real é que se você ama o que faz, e faz com amor e dedicação, vai dar certo.
Illusionize [GO]
1. Foi um ano surpreendente e inesquecível pra mim e pra muitas pessoas, tenho certeza!
2. Eu acredito que estou nessa lista porque esse ano fiz um trabalho muito sério e consistente nos meus lançamentos. Lancei por grandes gravadoras e fui um dos poucos brasileiros com tão pouco tempo de carreira a lançar um álbum… Para estar ali você tem que merecer, trabalhar duro, mostrar que você quer realmente fazer a diferença. Todos que estão nessa lista merecem!
3. Meu próximo lançamento será o meu EP “Bring It Back”, pela UP CLUB Records, que terá duas tracks, uma feita com o prodígio VINNE e outra com garoto Alex Senna.
4. Bom, eu vou dizer uma coisa que eu pratico na verdade: eu sou insistente, eu tento de todo modo sempre aprender mais. Sempre será difícil, porque nada que é fácil você vai dar valor [risos]. Seja dedicado, lute, tenha fé, acredite! E o principal, nunca desista, pois se você realmente ama a música, você ira fazer por ela.
Junior C [SP]
1. 2015 foi um ano de mudança em todos os sentidos. O lançamento do meu single “Coming Over” no selo do Gui Boratto foi a melhor maneira de mostrar isso. Me apresentei três vezes no Tomorrowland Brasil, fiz parte do time que integrou a noite da Crosstown Rebels no Warung, entre outros clubs e festivais, mas o mais importante pra mim foi esse zoom out pra buscar na minha música algo que realmente seja surpreendente pra mim e para o público.
2. Trabalhei com amor e tive o privilegio de ter ao meu lado meus amigos e parceiros de gravadora (Gui, Lu e Pedrinho), e todo suporte da minha agencia Plus Talent.
3. Entre março e abril sai pelo D.O.C. Records os remixes da “Coming Over”; dois artistas internacionais e um nacional foram escolhidos.
4. Muitas vezes quem está começando a produzir procura sempre fazer algo que o mercado pede, o tal do “hit”. A melhor dica é fazer algo autêntico e que realmente represente sua expressão como artista, isso se sustenta muita mais no longo prazo — não só na música, mas na carreira e nas pessoas que seguem o seu trabalho. Essa é alma, tips and tricks estão de monte no Youtube e todos podem ter acesso.
Keskem [RJ]
1. 2015 foi um ano muito bom para nós. Com menos de um ano de projeto, tocamos nos principais clubs cariocas, no Rock in Rio e no Universo Paralello. Só temos a agradecer ao público, aos DJs que vêm tocando nossas músicas, às gravadoras que têm lançado nossas produções, às parcerias que temos com outros DJs e produtores e aos produtores de eventos que têm confiado no nosso trabalho. Foi um ano muito bom, sem dúvidas.
2. Acho que nos indicaram porque conseguimos, com pouco tempo de projeto, lançar nossas tracks em labels legais, com parcerias e remixes de produtores respeitados da cena, como Leo Janeiro, Toucan, Touchtalk, André Gazolla, Marcelo VOR, Allan Villar, Gorkiz, Nicolau Marinho, Wender A., Rods Novaes… Tivemos a sorte de começar nossa caminhada muito bem acompanhados.
3. Nossos próximos lançamentos serão um remix para a track “Less Is More” do André Gazolla, que sai dia 26/01 pela Tropical Beats, e o EP “Follow Me”, com as tracks “Follow Me” e “Scream”, que sai dia 14/02 pela Zero Eleven Music.
4. Ouvir MUITA música, conhecer bastante sobre o gênero que quer produzir, entender a mecânica da produção e não se deixar levar pela moda.
Lucas Arr [GO]
1. Incrível, ano em que tudo começou a criar raízes. Fiz bastantes amigos, conheci lugares novos e me habituei na produção e no cenário crítico como eu queria.
2. Pra falar a verdade, foi uma surpresa. Fui votar num amigo, e até assustei com meu nome na aba “Produtor Revelação”. Porém acho que apenas trabalhei do jeito que gosto, segui o meu instinto e produzi o que eu acredito, e claro, melhorei a parte técnica das produções.
3. [O Lucas Arr está de EP novo! Ontem mesmo, dia 25, foi lançado o “Orthodox”, pela KDB, que foi ele nos descreveu como “um EP mais eletrônico e hipnotizante”.]
4. O que sempre falei e sempre vou falar: siga seu instinto, produza o que você acredita, estude para que seu som seja extremamente técnico, não barre suas ideias, deixe elas transparecerem nas músicas, liberte-se do óbvio, e o principal, sinta o groove.
Manara [RJ]
1. Definitivamente um ano inteiro focado no setup de gravação.
2. Nada mais que um trabalho bem feito, eu acredito. Qualquer outro motivo seria mera política barata e não tem valor nenhum para esse tipo de avaliação. De fato quando se toma os devidos cuidados com os devidos processos da criação de um trabalho o resultado fica visivelmente “bem feito”, e esse tipo de cuidado é o mais importante.
3. Sem data exata ainda, mas uma label nova está a caminho. O foco é mostrar que a música local pode ser tão influente quanto a internacional.
4. Estude o máximo sobre todos os processos: síntese, gravação e mixagem, e aprenda a tirar o melhor disso. Cada processo tem suas limitações, aprenda-as e deixe a masterização para outros profissionais.
Pimpo Gama [RS]
1. Foi simplesmente surreal. Faz três anos que decidi entrar nesse mundo de produzir e durante dois anos fiquei no anonimato, estudando, criando, escutando, testando, mas sem me preocupar com lançamentos. 2015 foi o ano que decidi traçar algumas metas e objetivos, e um deles era lançar em um selo legal. Em fevereiro lancei “Like Sex On The Beaches” com a LouLou Records, que sempre foi um dos meus sonhos; essa música foi top 11 das mais vendidas do gênero, entrou no Top 100 de vendas e hoje está em 6º lugar nas mais vendidas da gravadora em 2015. Até o fim do ano foram quase 20 lançamentos, com 15 entre as mais vendidas no Beatport, grandes artistas tocando minhas músicas, e até dezembro assinei contrato com praticamente todas gravadoras que gosto.
2. Acredito que foi a eficiência nos meus releases e o suporte dos grandes artistas tocando. Em seis meses lançando já escutava minhas músicas girando o mundo. Em um set no Warung em dezembro o LouLou Players, que é um dos artistas mais respeitados do gênero, tocou quatro músicas minhas.
3. Já tenho praticamente o primeiro semestre de lançamentos produzido e tem MUITA coisa legal pela frente. Nos últimos meses trabalhei muito em colaboração com grandes talentos. Vem por aí parcerias com Jean Bacarreza, Zacchi, LouLou Players, Fedorovski, Vintage Culture, Alok… O próximo release será um EP ao lado de Jean Bacarreza, pela LouLou Records, que ainda não tem data certa e tá uma bomba.
4. Ter paciência. Normalmente um produtor iniciante tem a ansiedade de produzir, fazer vídeo, colocar na internet, enviar pra todas gravadoras, mas sem nem saber se realmente a música funciona ou está pronta. Acredito que o que realmente fez minhas músicas crescerem foi quando me preocupei em tocá-las por um tempo antes de enviar para alguém.
Shadow Movement [PR]
1. 2015 tocamos no Brasil inteiro, lançamos o nosso segundo disco pela D.O.C. no ADE e fizemos duas turnês internacionais. Tivemos um ano realmente incrível!
2. Acreditamos na autenticidade do nosso trabalho e talvez seja isso que toque as pessoas.
3. Nosso próximo lançamento será uma faixa em uma compilação da D.O.C.
4. Seu ouvido é o seu melhor equipamento.
Sugar Hill [MG]
1. 2015 foi um ano muito bom, pude fazer o que eu gosto que é produzir e tocar. Toquei em vários clubs legais. Fiz várias faixas que estão guardadas aqui para ser lançadas no primeiro semestre de 2016, e várias outras que foram lançadas em 2015 venderam muito bem, principalmente no Beatport, o que deu uma visibilidade superboa pra elas.
2. Acho que eu simplesmente faço o que eu gosto fazer, que é música. Geralmente eu não gosto de fazer uma track simplesmente por fazer, eu espero boas ideias virem e aí vou pro estúdio e tento colocar elas em prática. Não gosto de fazer exatamente o que está todo mundo fazendo. Lancei algumas músicas que eu estava realmente muito inspirado quando eu fiz e as pessoas gostaram e entenderam.
3. Uma faixa em parceria com meu amigo Nytron pela Erase Records em fevereiro, depois outra em parceria com meu amigo Kento Lucchesi na LouLou Records.
4. Sejam originais. Não tentem fazer cópias exatas dos produtores que vocês gostam. Também tenho meus ídolos que me inspiram bastante, mas sempre tento fazer um som que seja “a cara do Sugar Hill”. Quando me dizem isso eu fico feliz, porque mostra certa personalidade sonora.
Wilian Kraupp [SC]
1. Fiquei satisfeito com o ano de 2015, comecei a colher os resultados de muito tempo de estúdio. Foi difícil, eu já tocava antes de produzir e ficar longe das pistas foi terrível — é como um jogador que fica no banco, ninguém quer, mas foi necessário e valeu a pena. Entrei para o casting da D-Agency e foi o melhor que poderia acontecer. As pessoas passaram a me ver tocar em vários Estados e fechei o ano com um set muito especial no Warung, que logo deve estar no ar… Na produção, recebi convite para lançar por duas labels que gosto muito, a Stereo Production e a D-floor.
2. Estar ao lado desses ótimos produtores que estão aparecendo no Brasil é sensacional. Eu penso que a minha consistência nos lançamentos e ter conseguido criar um estilo só meu foram o que me fizeram ser indicado. O RMC tem pessoas muito sérias e competentes no critério, e acredito que qualquer um que vencer vai ser merecido.
3. Tenho bastantes coisas para lançar este ano. Em fevereiro um remix e março um EP, ambos para o label brasileiro Not For Us; em maio um remix para o label espanhol Monza Ibiza; e ainda tem alguns outros lançamentos por selos importantes. Estou cheio de trabalho, isso é ótimo…
4. Minha dica é uma que muitos produtores dão, e é a mais pura verdade: independente do que você tem nas mãos, mesmo que seja só um laptop, é possível fazer música. Todos podem produzir, mas nem todos estão dispostos a se sacrificar por isso, dar o máximo, estudar muito, às vezes deixar de estar com amigos, família, namorada… A pergunta que você deve ter sempre em mente é: “estou disposto a tudo para conseguir isso?”.
Zopelar [MG]
1. Foi um ano de muito trabalho e apresentações relevantes. Tive a oportunidade de tocar no mesmo palco de artistas que são referências pra mim; me apresentei em duas edições do festival Sónar na América Latina e comecei a fazer parte do projeto ODD com meus parceiros Davis e Márcio Vermelho, que também são referências desde o início da minha carreira. Enfim, me senti privilegiado por poder vivenciar tantos momentos bons com a música e isso sem dúvida contribuiu bastante para o crescimento da minha produção.
2. Na categoria “live”, acredito que além de algumas apresentações memoráveis do meu live solo, o fato de participar de outros projetos também contribuiu bastante. Fizemos ótimas jam sessions com Teto Preto e Gaturamo, que mostram um approach diferente de live act. Como produtor, lancei em alguns selos importantes como Get Physical, Soul Clap Records e iniciei um longo trabalho de produção que comecei do zero em abril e hoje tenho em torno de 30 músicas de repertório. Ter lançado um 12″ e levantado o novo selo In Their Feelings com Davis também, sem dúvida, contribuiu.
3. Será um 12″ assinado em parceria com o produtor sueco SUMORAI, que também foi um dos alunos da Red Bull Music Academy em 2014. Esse EP foi gravado em Tóquio durante o Academy e será lançado pelo selo sueco Spazio Records ainda em janeiro. Mês que vem tem o primeiro 12″ do SPHYNX (aka Zopelar e Márcio Vermelho) pelo selo alemão The Magic Movement; o álbum do The Drone Lovers, que sai pelo selo Ganzá; e, em abril, no Record Store Day, tem um lançamento duplo especial pelo Soul Clap Records de NY.
4. Dedicação sempre. Ter o máximo de tempo possível para produzir, praticar, estudar e seguir um caminho que te inspire.
* Entramos em contato com todos os 19 produtores, e os que figuram nesta matéria são os que nos responderam a tempo.
