Por Rodrigo Airaf
Foto de abertura: Image Dealers
Em dezembro de 2017 uma nova promessa para a vida noturna da região metropolitana de Campinas se fazia presente. A oferta era ambiciosa — trazer grandes nomes mundiais e nacionais para o circuito da região, muitos deles inéditos e antes inviáveis por lá, para um espaço amplo sem perder a vibe underground — e até os dias de hoje, conversando com qualquer um dos sócios do Caos, fica evidente que uma parte desta empreitada foi um salto de fé e que não se esperava, ao menos não a curto prazo, o sucesso estrondoso que o club gerou.
Hoje, um ano e meio depois, o Caos desfruta de uma história cheia de auges e do status de quem ampliou (e muito) as possibilidades para o cada vez mais exigente público do interior de São Paulo. O intercâmbio, aliás, vai além das cidades ao redor de Campinas: atualmente, o público da capital paulista também tem o club no seu roteiro, seja para ver grandes artistas do cenário mundial que chegaram na cidade em data única no Brasil, como Ellen Allien, seja para acompanhar algumas parcerias de sabor conhecido para os paulistanos, como eventos junto aos coletivos Gop Tun e ODD — este último a acontecer nesta quarta, véspera de Corpus Christi, com lineup encabeçado pelo muso do techno contemporâneo DVS1.

Rødhåd – Foto: Image Dealers
Embora a aura em torno do Caos seja tão refrescante que parece algo tirado do nada por pessoas malucas que queriam um highlight rápido na cena, as mentes por trás do projeto já estavam entre os líderes do movimento transformador pelo qual passou a cultura eletrônica de Campinas nas últimas duas décadas. Também à frente do tradicional e premiado Club 88, boa parte desse pessoal fez história nos anos anteriores com o Kraft, o Heaven & Hell e o Pianno Club.
“O Caos nasceu para ser um lugar para compartilhar música que amamos, mas não apenas. Ele reflete valores que são fundamentais em nosso trabalho — especialmente a diversidade, que vai muito além de nossa política musical. Ele se tornou único porque reúne tantas identidades e backgrounds diferentes em um só espaço, ao mesmo tempo em que se propõe a trazer excelência artística”, conta Eli Iwasa, sócia e curadora do Caos.

Foto: Image Dealers
Tal preocupação com a democratização de suas noites se mostra clara em várias mensagens espalhadas pelo club, tanto em sua comunicação nas redes sociais quanto de maneira presencial: logo ao entrar no Caos, você se depara com placas condenando vários “ismos” e “fobias” que nenhum ser humano livre gosta. Ainda com relação a sua comunicação, parcerias de grande relevância artística deram o tom e o direcionamento que o club desejava, como a participação de Yusuf Etiman, diretor criativo da meca alemã Berghain, entre os artistas visuais do Caos, além de video-teasers de forte teor crítico-social por alguns profissionais diferentes, entre eles o coletivo Muto.

Eli Iwasa na cabine do club – Foto: Image Dealers
O passeio dos line ups do Caos pela nata da dance music internacional durante longas horas (algumas festas chegam a encerrar entre 10 horas da manhã e meio-dia) começou logo com Carl Craig, seguido de Marco Carola. Depois, as surpresas pareciam não ter fim: naquela cabine com vibe “Boiler Room”, com o público em volta do DJ e de frente para os outros mais de mil frequentadores que o galpão industrial no Parque Taquaral comporta, já foram tocar Laurent Garnier, Dixon, Nina Kraviz, Marcel Dettmann, Ben Klock, Recondite, Rødhåd, Speedy J, Fango, Chris Liebing e Adriatique, entre muitos outros que se fosse para citar aqui daria um lineup first class de festival europeu.

Amanhecer com D-Nox – Foto: Image Dealers
Uma edição especial cheia de minas talentosas liderada por Nastia aconteceu no ano passado, além de showcases especiais como o Life and Death, com o DJ Tennis. Teve também inovação em after-party com o incrível duo Modeselektor. E como não se vive apenas de Ryan Elliott, Gerd Janson, Guy J e Giorgia Angiuli em um país com dimensões continentais e com talentos cada vez mais em evidência, o time de brasileiros que passou pelo club é certamente a linha de frente do nosso cenário: ANNA, Gabe, L_cio, BLANCAh, HNQO, Mau Mau, Davis, Albuquerque, Zopelar, Cashu, RHR, a própria Eli Iwasa e mais ad infinitum.

Foto: Image Dealers
Para parceiros do club, como a Groove Urbano e a Mescla, o Caos ganha novos ares de vez em quando, abrindo espaço para festas com nomes do cenário mainstream, como Illusionize, Gabriel Boni e FISHER, e importantes figuras da música brasileira, como Emicida, Gabriel o Pensador, Costa Gold e Matuê, além das noites hipercoloridas da festa Caótica. Lembrando: estamos falando de um lugar que não abre semanalmente e cuja história no mundo tem pouco mais de 18 meses. “Cada noite é uma experiência grandiosa em todos os sentidos — sinto que o Caos tem uma intensidade, exige física, mental e emocionalmente de quem faz acontecer e de quem participa”, conta Eli Iwasa.

Fango em sua apresentação irreverente no Caos – Foto: Image Dealers
Ainda relembrando momentos inesquecíveis do club, Eli prossegue. “A noite com Laurent Garnier teve um caráter épico e com gosto de realização de um grande sonho — era algo impensável há 12 anos, quando me mudei para cá. Dixon no comando do nosso amanhecer foi lindo, ver Nina Kraviz e Marcel Dettmann juntos também e a comemoração de um ano de Caos com Ben Klock foi muito especial, ele totalmente à vontade na cabine; a festa da Life and Death com DJ Tennis, Red Axes e Marvin & Guy foi algo que fizemos com todo carinho e vai permanecer como uma das noites mais especiais da nossa história”.

O amanhecer do Caos com Dixon – Foto: Image Dealers
Aliado à sua impressionante curadoria e ao sistema de som que deve ser obrigatoriamente sempre dos melhores do mercado, como L’acoustics (montado pela empresa CPro), a iluminação do Caos e suas constantes renovações acabaram por se tornar aspectos essenciais das noites do club. Desde sua inauguração para cá, a iluminação do Caos, dependendo da noite, teve bastões de LED, projeções especiais, decorativos selvagens da Life and Death e, mais recentemente, belíssimos globos espelhados que transformam o lugar em um céu eletrônico estrelado.

Nina Kraviz e Marcel Dettmann – Foto: Bill Ranier
Para viabilizar um projeto com tantas nuances dentro de um claro propósito de desenvolvimento da cena, Eli destaca que o apoio do público e dos amigos foi fundamental. “O público da região amadureceu muito e por isso um club como o Caos foi possível. Temos clubs na cidade há 12 anos e nunca investiríamos num projeto como este se não sentíssemos que era o momento. Ainda existem desafios, principalmente uma cultura de VIPs que é profunda e demanda muito esforço de todas iniciativas da região. Isso já está mudando, e hoje vejo muita gente que realmente compra seu ingresso, mesmo sendo amigo nosso, para apoiar e prestigiar nosso trabalho. Este é o maior gesto que nosso público pode dar”.

Corredor para o fumódromo – Foto: Image Dealers
Temos, por fim, explicado o sucesso deste espaço. Curadoria + espaço dedicado à verdadeira experiência clubber + qualidade dos serviços oferecidos como iluminação, ventilação e som é o combo do momento para Campinas e um presente divino aos amantes do house e do techno. “O desafio é manter-nos atualizados, questionadores e inspirar as pessoas, mantendo a proposta artística avançada e a qualidade do que oferecemos, que não é pouco e, ao longo do tempo, suprir as expectativas do público que se torna mais exigente — e com razão — tão exigente quanto nossas próprias cobranças internas. Com a economia, os cachês cobrados aqui que muitas vezes superam o que se cobra na Europa, tudo vale a pena porque o público confia no nosso trabalho”, conta Eli, já pensando nos próximos rolês.
Já conheceu o Caos? Está na hora. Confira o próximo evento do club aqui.
