Bassiani e ODD: unidade no grave, união na luta

Por Chico Cornejo

Foto de abertura: divulgação

Quando o acid house tomou o mundo e as raves surgiram como a manifestação de um movimento cultural que acolhia toda uma geração de jovens, a União Soviética ainda existia e um muro imenso ainda se interpunha entre os sonhos e perspectivas de conterrâneos que dividiam uma mesma nação e uma mesma cidade, cindidas pelos pecados de seus antepassados.

É difícil ler esse período sem notar a forte carga de ironia que acompanha os acontecimentos que nos trouxeram a este momento atual. Afinal, quem diria que viveríamos em tempos nos quais essa mesma Alemanha tornar-se-ia o ponto focal do turismo musical eletrônico europeu e Berlim a capital mundial do techno, sua Meca cosmopolita e permissiva; a Romênia ocupar o lugar de uma superpotência musical e a Georgia seria o mais novo destino para os hedonistas aficionados pelo pulsar ininterrupto das batidas dançantes?

O último caso é especial, pois ganhou notoriedade recentemente por se estabelecer como um bastião do techno contemporâneo, muito por conta dos méritos de seu principal club, o Bassiani (`uno com o Bass` na língua local). Um refúgio de sexualidades e criatividades que não possuem um lugar assegurado na vida cotidiana de um país de maioria cristã-ortodoxa e sediado no interior das entranhas de concreto de uma gigantesca arena esportiva, ele abriga o tipo de vibração carnal e musical que tornou célebres locais como o Berghain.

Mas não foi apenas o ethos, o pathos ou mesmo aquele ar industrial decadente da Europa oriental que este club nos Cáucasos herdou da fortaleza de Ostkreuz, sua profícua abordagem ao cultivo de talentos também inspirou o Bassiani em seus esforços, seja através de seus residentes ou da empreitada fonográfica homônima.

logo_500

O selo, que já conta nove números em seu catálogo, traduz de forma sônica o clima de liberdade e exploração de possibilidades que faz a grandeza de qualquer forma artística hedonista, congregando talentos nativos e internacionais que tenham afinidade com a proposta da casa. Este seleto grupo inclui novatos espetaculares como Héctor Oaks, nomes estabelecidos como Voiski, Dadub e Vril e, claro, os valorosos residentes Kancheli, NDRX e HVL.

Cada um deles possui um estilo bastante peculiar, mas igualmente eclético, que lida com o material sedimentado das tradições e inovações ocidentais do modo despojado e lúdico que apenas o distanciamento permite. E todas as possibilidades que se descortinam nesse panorama de descobrimento tão inocente aparecem de forma nítida tanto no álbum “Rhythmic Sonatas” de HVL, quanto nos sets de NDRX.

ndrx.
NDRX – Foto: divulgação

O primeiro, em seu album début, nos carrega por uma tour de force que trafega por inúmeras referências familiares, mas sutilmente transformadas e por vezes até aprimoradas. Ora somos transportados para 1991-1992, no auge da inventividade do techno rave e o vasto horizonte estético e comportamental que ali surgia, ora somos trazidos abruptamente de volta ao presente ou a uma versão bastante exótica dele, tonal e melodicamente falando.

Vale ouvir na íntegra a potência e originalidade de cada uma das faixas que compõem esta jornada sônica que tem tudo para permanecer em qualquer lista de melhores do ano ou mesmo, muito provavelmente, tornar-se um clássico daqueles que revisitaremos com gosto daqui a dez, vinte ou trinta anos. 

O segundo transita com leveza por ritmos e molda atmosferas de modo bastante natural, trunfos que serão devidamente testados e provavelmente aprovados nesta próxima ODD em que ele se apresentará no showcase de seu quartel-general.

É sintomático que afinidade entre esses os projetos, ainda que tão distantes geograficamente, se dê no que eles trazem de ousado e inovador não apenas conceitualmente, mas musicalmente. Afinal, até mesmo os europeus ocidentais que deram os primeiros passos ou mesmo aqueles que revolucionaram a linguagem dançante eletrônica na Motor City poderiam imaginar que lugares tão díspares como São Paulo e Tbisi pudessem carregar propostas tão parecidas.

Elas se encontram neste sábado, 15 de junho, no showcase do club na ODD, de volta à Fabriketa, e que ainda traz mais um dos mais talentosos eslavos do techno mundial, o fenomenal DVS1.

Saiba mais informações sobre Bassiani + ODD aqui

Fique por dentro