Por Nazen Carneiro, da coluna Tudobeats
Foto de abertura: Ivan Lavarini
Brasileira com mais de dez anos de carreira, apresentou-se em dezenas de países, mas foi no México onde encontrou terreno fértil para sua mente voltada ao trance. Ali plantou sua música, cresceu e alcançou os grandes festivais e ouvidos de artistas como Armin Van Buuren, Paul van Dyk e Paul Oakenfold.
Fiel ao trance, sua carreira poderia ter seguido outros ares já há muito tempo, mas recusou-se. Como revela nesta entrevista, Nathia Kate optou por manter os dois pés no estilo e recentemente teve sua escolha reconhecida com a indicação ao prêmio de Melhor Artista Feminino de Trance no 33º International Dance Music Awards, junto de Alok e Vintage Culture, únicos artistas a representar o Brasil na conceituada premiação realizada no Miami Music Week.
Fora do Brasil há muitos anos, Nathia Kate iniciou sua carreira já no exterior e nunca tocou em sua terra natal. Se por um lado os produtores nacionais ainda não “descobriram” a artista, por outro o público brasileiro já demonstra admiração pelas suas músicas através das redes sociais e dias atrás Nathia Kate foi convidada pela Jovem Pan FM para apresentar seu set em rede nacional, que você confere nesta matéria.

Foto: divulgação
A artista, que já falou à MTV e DJ Mag do México, concedeu entrevista a coluna Tudobeats, publicada com exclusividade pela House Mag, a artista aborda temas sensíveis como o preconceito por ser mulher e, infelizmente, o assédio. Mas, acima de tudo, destaca sua produção musical e comenta a parceria com Roger Shah, fala de Ultra, sobre a cena mexicana e sua participação em Ibiza e uma tour pelo Brasil que está por vir.
HM – Vamos começar sabendo mais sobre seu gosto musical? Que tal nos contar cinco músicas de artistas que você admira?
Difícil escolher só cinco!
HM – Tua história de envolvimento com a música eletrônica e a discotecagem é antiga e tanto quanto incomum. Comente esse processo!
Começou no final dos anos 90 com o dance, nas pistas mesmo. Depois veio ATB, (Paul) Oakenfold e Paul Van Dyk. Por eles viajei muito atrás de festas e festivais. Quando cheguei no México, já me interessava em estudar a discotecagem, então me inscrevi na escola que encontrei na Cidade do México, a DJ School, primeira escola do gênero no país. Aí foi natural que ao aprender a discotecar, fosse trance. O trance já era meu estilo favorito, eu conhecia os artistas e tudo mais.
HM – Sempre foi o trance dominando a sua case?
O trance me conquistou desde o início, eu nem sei explicar. O trance é tudo pra mim, apesar de muitos promotores tentarem mudar o foco da minha produção musical. Nestes onze anos eu vi “ups and downs“ no mundo do trance, e continuo nessa linha que é o que eu amo.
HM – Você saiu do Brasil logo no início da sua carreira. Comente essa decisão.
Eu queria viajar e aprender mais, assim visitei o México em 2005. Em 2007 fui para a Ásia, um lugar que sempre me fascinou muito. Fui para Singapura, fiquei uma temporada e depois fui para a Europa, mais precisamente Ibiza. Retornei ao México em 2007 decidida a começar minha carreira de fato. Foi uma decisão difícil deixar meu país e minha família para ir atrás de um sonho. Mas aqui estou!
HM – Na época que você foi para o México como estava a cena eletrônica por lá?
A cena de musica eletrônica estava muito forte na época, tivemos bons festivais por todo o país eu participei de quase todos.
HM – Hoje esta cena está maior na sua opinião?
A cena continua forte mas, como no Brasil, as vezes pintam aquelas guinadas “comerciais”. Eu sigo meu estilo e vou em frente pois acredito que isso é o que eu dou valor de verdade e que o meu público mais curte.
HM – Conte os festivais mais top (rs), os que mais valem a pena para o brasileiro conhecer.
Aqui no México não fala top, mas falam bastante ‘chingon’ (rs). Bom, com certeza existem eventos que vão ficar de fora pois é impossível citar todos, mas posso dizer o Carnaval de Mérida, Future Sound Of Egypt, Colors Festival en las Pirâmides de Teotihuacán, United, Armada Festival, Wish Festival, HHH Festival, Eurofest, e Ultra Music estão entre eles!

Foto: divulgação
HM – Hoje você tem uma ótima relação com o público mexicano, é convidada para os grandes eventos do país. Imagino que não tenha sido (e não seja) fácil dialogar com os diversos players envolvidos até chegar nesse ponto. Por gentileza, comente esse processo conosco.
Imagine você chegar sem saber o idioma do país, aprender a ser uma DJ de verdade ali no México e ter as portas abertas para expor o seu trabalho. Eu agradeço pelo fato do público mexicano ter gostado da minha música e graças a isso eu ser chamada para os principais festivais do país. Sem dúvida aqui é minha segunda casa, mas houve dificuldades, inclusive por eu ser mulher.
HM – Você citou que, além das dificuldades naturais do início de carreira, considera que enfrentou barreiras ainda maiores pelo fato de ser mulher. Podemos falar mais sobre isso?
Sim, isso tem que ser falado. Eu acho que todas as mulheres enfrentam algum tipo de problema em qualquer área profissional, entretanto, no mundo artístico ainda existe predominância masculina muito forte e existe sim preconceito e outras práticas que não estão de acordo.
Eu sempre comparo com dirigir. Homem sempre fala que mulher não sabe dirigir e não é verdade. Fala que mulher não sabe tocar, que é pior por ser mulher. E não é verdade.
Não é um problema exclusivo de DJS, não podemos deixar de falar de produtores de evento que também têm um comportamento que é sim abusivo. Jantares de negócios não tão de negócios as mulheres tem que se recusar e se levantar. Portas se fecham quando artistas mulheres se comportam como artistas homens.
HM – Do México para o mundo, qual outro lugar destaca?
É difícil dizer mas os que eu mais gostei até agora foram Suíça, Alemanha, Inglaterra. Mas as experiências mais marcantes para mim foram em Ibiza, onde tenho a honra de levar o trance a mais de dez anos.

Cream Ibiza – Foto: divulgação
HM – Deu certo esse convite para Ibiza né? Você foi uma vez e sempre voltou. Como é o trance na ilha espanhola?
Sempre falo para meus amigos que Ibiza é um lugar onde todos têm que ir pelo menos uma única vez na vida, esse lugar é mágico, a cena é super forte, eu vou para Ibiza já há 11 anos (seguidos). Tem pessoas de todo o mundo, festa 24 horas, diferentes gêneros para todos os gostos musicais. Amo Ibiza, ate gravei um videoclipe na Tropi Ibiza.
HM – Como foi para você dividir o palco com Paul van Dyk e outros ídolos em IBiza?
Foi maravilhoso, era tudo o que eu queria. Quando eu comecei minha carreira eu tinha um objetivo de um dia chegar a tocar com o Paul van Dyk e um dia tocar em Ibiza, mas nunca imaginei que esse dia fosse o mesmo. Quando o promotor do Amnesia me convidou para o aniversário do Cream, da Creamfields, eu fiquei imensamente feliz e, claro, nervosa, porque todos me perguntavam o que eu iria tocar depois do Paul van Dyk, Aly & Fila, Jordan Suckley e Paul Oakenfold. Como você segura a pista depois desses caras? Eu toquei “Tropi Ibiza” unreleased e a galera amou, estourei de felicidade. Foi sem dúvida uma noite inesquecível.
HM – Fala da Tropi Ibiza então.
Tropi Ibiza é um lugar que faziam as pré parties para o Amnesia, eu tocava lá todos os anos, conheci muita gente nesse lugar mágico que me inspirou muito, assim como inspirou essa track.
HM – Você, mesmo com sucesso mundo afora, nunca tocou no Brasil. Você tem planos para uma tour por aqui?
Todos sempre me perguntam isso. Eu quero muito tocar no meu Brasil, fim do ano estarei no país, estamos negociando. Tomara que os line ups abram espaço para mais mulheres!
HM – Comente por gentileza o seu processo criativo. Como começa, desenvolve e termina uma composição da Nathia Kate?
Não tem um segredo especial, normalmente as inspirações acontecem em lugares inusitados, gosto muito de trabalhar com vocalistas e sempre estou escrevendo alguma letra, o processo sempre é muito natural, sem tanto esforço de ficar 24 horas em frente ao computador. Gosto mais de deixar fluir a imaginação.
HM – Você e o Roger Shah lançaram a música ”Never Forget”, que foi um sucesso nas pistas e no Beatport inclusive. Há planos para outra colaboração com o artista?
Sim. Essa música tem também a participação de Amber e foi um sucesso que todos ouvem até hoje. Foi um orgulho o fato dela ter sido incluída na compilação de “Melhores de 2016”, feita pelo Armin van Buuren que é sem dúvida um dos maiores artistas do mundo. Eu e o Roger estamos finalizando uma faixa que será lançada em breve, fiquem ligados!
HM – Muito obrigado por dar o seu depoimento para nós, é engrandecedor poder conversar uma artista com tanto potencial e coragem para falar destes temas que são, sem dúvida, muito sensíveis, não somente às mulheres mas a todos os profissionais da área. Para finalizar, quais as próximas novidades que podemos esperar da Nathia Kate?
Obrigada pela oportunidade em falar mais sobre a minha carreira e a indústria. Já sobre as novidades, os brasileiros podem esperar pela minha nova track com o Roger Shah, vocês vão curtir muito e espero tocá-la na minha tour no Brasil ainda este ano, quem sabe? Em breve muitas novidades!
