Um DJ de outro planeta! Confira o bate-papo exclusivo com Glen

Por Marllon Gauche

Foto de abertura: divulgação

Não é novidade para ninguém que o Brasil é terra de um povo extremamente criativo, e é claro que isso também se reflete na música produzida em território nacional. DJ Glen, um dos frutos que nosso país revelou ao mundo, vem trilhando uma bela caminhada e mostrando seu talento para diversas partes do globo, principalmente após sua mais recente produção ao lado de Bruno Furlan, “Another Planet”.

A track, assinada pelo selo americano Dirtybird, de Claude VonStroke, foi lançada há menos de duas semanas e os resultados são surpreendentes. Além de grandes artistas do cenário underground tocando a faixa em suas apresentações, como Fisher e Green Velvet, por exemplo, ela também tem alcançado números muito expressivos de venda no Beatport. Falamos então com Glen e nossa conversa rendeu alguns assuntos bem interessantes. 

HM – Glen, muito obrigado por nos atender! Vamos começar falando sobre o início da sua carreira? Quais foram os principais obstáculos que você precisou superar para se firmar como um DJ profissional?

Adoro falar sobre o começo da minha carreira, era uma época bem sinistra para quem queria ser DJ e realmente eu nunca achei que seria possível crescer nesse meio, eu só curtia muito fazer barulho com aparelhos de som enormes. Os obstáculos maiores eram meio que padrão para qualquer profissão que não fosse as clássicas para um adolescente prestes a ir para o vestibular.

Tive que provar para minha família que poderia ser independente financeiramente e depois tive que provar para mim mesmo que poderia construir a vida em cima disso, foi quando me resolvi com relação a isso que pude encontrar as respostas para os problemas que, provavelmente, todos que estão começando conhecem, e cada um tem seu caminho, não existe solução fácil. De relance, o que mais lembro como dificuldade foi a falta de investimento, sem dinheiro tudo demora muito mais e é necessário criatividade e força de vontade para dar um jeito nas coisas.

HM – Boogie Mafioso, lançada em 2012, pode ser considerada como sua porta de entrada na Dirtybird Records, correto? Como surgiu a ideia de implementar essa identidade mais funky em algumas de suas produções?

Sim, essa track foi um marco na minha carreira obviamente por suas revoluções em timbragem dentro do estilo e, particularmente, por me dar um rumo a seguir no caminho artístico na época. Quando compus a track, em 2009, estava totalmente focado em me apresentar no formato live, a Akai tinha acabado de lançar a controladora Apc40, a Apple tinha acabado de lançar uma geração estável e inovadora de Macbook Pro e eu estava emocionado com todas as possibilidades que estavam por vir.

O ano foi artisticamente bem fraco, vivíamos a crise mundial e parece que os eventos e artistas não inovaram muito, o tech house que considero um som neutro dominava os festivais e clubs sem empolgar a pista e eu me recusava a entrar na onda do EDM, pois pessoalmente não me agrada nenhum pouco. Foi neste ano, com a aversão a tudo que via no raso, que dediquei um bom tempo à pesquisa musical, voltei às minhas origens e lembrei da primeira banda que me tocou no fundo do coração, o Rage Against the Machine, depois o primeiro techno que mexeu comigo, o Vitalic, depois o house underground como um todo, Chemical Brothers e Prodigy nunca saem da minha cabeça.

Um momento eureka me mostrou que eu deveria descobrir como eles chegaram naquelas sons, pesquisei todas as referências deles e assim pude misturá-las com o house e techno que eu já tocava para criar minha própria identidade. Se ouvir o “Boogie Mafioso” e logo em seguida “Bombtrack” do RATM vai encontrar a ideia do riff do baixo, o timbre eletrizante é o Vitalic (do jeito que consegui fazer), a quantidade de sampling antigos e extremamente processados é o Prodigy, a compressão bizarra que usei vem do Chemical Brothers e o arranjo é um house underground simples e eficaz, tinha que ser simples pois eu fazia ele ao vivo no live, e eficaz porque senão corria o risco de ser zoado no palco ou ser massacrado no Orkut caso não bombasse minha pista.

HM – Ano passado você participou do Campout da Dirtybird, na Califórnia. Essa foi a primeira vez que você tocou em um evento da DB fora do Brasil, certo? Você pode descrever como foi a experiência? O público americano já conhecia suas produções?

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Foto: Bruno Furlan

A experiência foi de certa forma inspiradora e aconteceu em um momento muito bom pra mim. Desde que eu oficialmente entrei para o mainstream brasileiro, por intermédio de uma grande agência, fiquei extremamente decepcionado pela falta de criatividade, inovação e falta de amor pela música. Isso me afetou profundamente, me fizeram acreditar que a música tinha que ser aquilo que era e se eu não me adaptasse tava fora. Mas algo sempre me disse que não era assim, que aquelas pessoas estavam erradas por pensar desse jeito e que daria pra trilhar outra história que não fosse bootlegs e EDM.

No festival da Dirtybird ficou bem claro pra mim que lá eles andam pelo amor, estando no país mais capitalista do mundo eles ligam o foda-se e fazem do jeito deles, vendem a ideia de uma maneira mais saudável, como se fossem jovens empolgados com o futuro (mesmo tendo quase todos passado dos 40). Todo aquele clima familiar, de amizade e de união era algo de um tamanho que me fez lembrar da época que comecei, dos meus amigos que corriam comigo não pelo dinheiro, mas pelo sonho de passar aquele sentimento adiante.

Foi depois desse festival que comprei os melhores monitores do mundo (Barefoot) e me internei no estúdio com vontade de fazer algo que pudesse tocar o mundo, alguma inovação, repetir o sucesso do “Boogie Mafioso” com novos amigos que estão juntos nesse sonho, como o Bruno Furlan. Sobre as produções serem conhecidas pelo público americano, digo que foi bem mais do que isso. Eles respeitam demais tudo o que acontece no Brasil, conhecem todas as produções, apoiam e estão abertos a ouvir coisas novas, muito mais do que os próprios brasileiros.

Encontrei grupos de Chicaco, Detroit e Miami – locais onde floresceram grandes estilos eletrônicos – com bandeiras do Brasil dizendo que eram fãs de brazilian bass. Mesmo sem saber como aquilo era possível, sei que temos a chance de ser a revolução, o Brasil é muito grande e forte artisticamente e depende exclusivamente de nós para criarmos nossa própria visão da dance music, independente do gênero e nome usado. Aqui é a pista mais difícil de se tocar no mundo, se conseguirmos fazer um som (sem caminhos comerciais óbvios) que faça as pessoas dançarem, ele vai conquistar qualquer lugar do mundo, até mesmo Detroit ou Chicago.

HM – “Hold Your Pants” foi a primeira colaboração do Bruno Furlan com você e agora vocês estão prestes a lançar uma faixa original juntos. O que você pode nos contar em relação a parceria entre vocês dois?

Na nossa trip aos EUA, eu e Furlan desenvolvemos muita coisa, acredito que ele seja um daqueles irmãos de outra mãe que a gente encontra pelo mundo. O remix que Bruno fez da “Hold Your Pants” foi o primeiro passo para trabalharmos juntos, foi um pedido que fiz a ele justamente por ser uma track muito querida por mim e por estar sendo relançada por uma gravadora de outro irmão de outra mãe, só que da Inglaterra, o Erik Christiansen.

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DJ Glen e Bruno Furlan – Foto: Image Dealers

Entre o tempo de responder essa entrevista, nosso EP foi lançado pela Dirtybird, neste momento ele já circula entre as top 100 faixas mais vendidas do Beatport com pouquissímos dias de vendas. O Bruno é um cara que me sinto à vontade tanto para trabalhar quanto pra sair e falar besteira, a gente se reúne frequentemente, já temos muita coisa produzida e acredito que é só o começo.

HM – Segundo o próprio Vonstroke, líder da Dirtybird, “Another Planet” tem tudo para ser a track do ano. Vocês já testaram ela na pista e isso se comprova. O que você acha que a música tem de tão especial? Ela é realmente de outro planeta? [risos]

Eu atualmente estou estudando o fenômeno “Another Planet”. Comprei livros que explicam a teoria por trás dos hits e analiso tudo que acertamos, não quero que seja apenas sorte, apesar que também não quero ser o cara que faz música sem sentir, digamos que ando achando tudo muito interessante.

Contando um pouquinho das ideias por trás da track, estávamos pesquisando um tema para mais uma das músicas que fizemos especialmente para tocar no festival Só Track Boa, em setembro de 2018, e lembro que conversávamos sobre o que as pessoas gostariam de ouvir na pista. Naquele momento, da extrema excitação, onde estaria o pensamento delas, logo abri o Instagram e fui pesquisar os comentários que as pessoas fazem depois de uma boa festa e alguém soltou essa: “Minha cabeça foi pra outro planeta”. Parei e achei aquilo GENIAL. Tínhamos a ideia principal da track e o resto fluiu em algumas horas. A versão de teste foi a aprovada pela gravadora sem alterações e até a master seguiu a linha, isso é muito raro.

HM – Quais são os planos futuros do DJ Glen para 2019? O foco será em novas produções ou apresentações na pista? Muito obrigado por falar com a gente!

Gosto muito de me posicionar contra a cultura, ser o antídoto para um mal comum, me emociona antecipar tendências, só que com o tempo, descobri que não é bom antecipar muito (duas das tracks citadas na entrevista criei a uma década atrás e ainda toco elas). Vou continuar me divertindo no estúdio, comprando novos “gears”, testando, errando e eventualmente uma vez ou outra acertando. Vou ouvir muita gente falando que meu som é ruim, mas depois vou ver as minhas referências tocando tracks minhas, aí aqueles que disseram que eram ruins provavelmente também vão tocar, isso vai me equilibrar, dar forças pra continuar e a vida seguirá em equilíbrio.

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