Por Jonas Fachi
Fotos: Gustavo Remor e Ebraim Martini
O mês de janeiro é sempre o mais cheio no calendário de eventos do Warung Beach Club. O auge do verão esquenta o interesse de turistas de toda América do Sul em nosso esplendido litoral catarinense e, nada mais justo, do que abrir a casa todos os finais de semana do mês. Ao contrário do que se imagina, as noites se tornam excelentes em questão de quantidade de pessoas presentes no Templo, afinal, o enorme público se divide e as pistas acabam ficando na medida. Para os amantes do velho house progressivo, assistir um nome do calibre de Guy J sem lotação é a perfeição, afinal, é um tipo de clubber que é caracterizado pela vontade intrínseca de ouvir muitas horas de um mesmo DJ, sempre no mesmo lugar e de preferência com os mesmos amigos.

O israelense chegava ao Templo após dois longsets em São Paulo (D-Edge) e Curitiba (Vibe), respectivamente. Com as seis horas prometidas para o Warung, ele estaria completando mais de 20 horas de DJling em menos de 72 horas! Não preciso dizer que o “baixinho’’ está no auge da carreira, arrastando multidões de fãs de seu estilo singular por todos os países que passa.
Cheguei cedo ao club para poder assistir Marvin & Guy. A primeira impressão em ouvir apenas um deles se apresentando (não soube o motivo da falta do segundo integrante) foi de uma sonoridade completamente sintonizada com o que eles produzem no estúdio, e isso era ótimo. No entanto, por ser um estilo levemente ácido com camadas viajantes, encarei com certo ceticismo se era a sonoridade ideal para o warm up. Já conhecia o trabalho dos italianos através de ótimos lançamentos pela Life and Death e Kompakt, e agora conferir comandando uma pista sendo construída do zero, até lotar, seria uma boa oportunidade para saber se existia qualidade equivalente ao que sai do estúdio. Até a pista encher, ele jogou músicas com certo grau de dificuldade para ouvir-se, ainda que ótimas, pareciam vazias dando um tom de desperdício musical. Somente quando o Garden estava tomado por corpos em cada metro quadrado é que a música de Marvin ou Guy, passou a ser realmente interessante. Destaco as ótimas mixagens finas e rápidas entre linhas de baixos distintas como marca a se lembrar, pois sei que exigem alguns anos de treinamento.

Marvin & Guy
Subi a meia noite para conferir como estava o warm up de Mandi. O DJ da casa conhece em detalhes o Inside e mais uma vez me surpreendeu com uma rica pesquisa musical pensada estrategicamente para levar a pista até o som de Guy J. Vejo muitos DJs pecarem na hora da pesquisa por pensar demasiadamente excessivo em como se aproximar do headliner. Acabam assim por fazer escolhas que vão lembrar demais o nome da noite e muitas vezes até escolhendo músicas que não são apropriadas para o horário. O warm up deve ser uma preparação discreta do ambiente para a estrela poder começar conforme suas características. Isso é básico, mas é sempre bom lembrar. Mandi é um DJ que entende tudo isso e seu set cumpriu o difícil papel lhe conferido. Apenas próximo às 1h que a pista encheu, porém, ainda dando bons espaços para dançar.

Mandi
Guy J iniciou lembrando-me de Sir John Digweed em 2013, quando o mesmo resolveu resetar a pista com uma introdução em downtempo – batidas quebradas e sem qualquer ritmo. Esse já era o primeiro sinal de que ele imaginou previamente como iria dar os passos ao longo de seis horas de música.
Guy J vem se especializando cada dia mais em exibições estendidas – característica que é uma das grandes exigências do tipo de público que sua música abraça. Para ser um DJ verdadeiramente respeitado, é preciso saber conduzir uma pista de dança por várias horas sem deixar que esse mesmo público exigente, se canse. Guy J difere de seus mestres, pois veio do estúdio para as pistas. Nos anos 90, os DJs de porões nos grandes centros de inovação cultural saiam das pistas para o estúdio afim de criar novas músicas para jogar no final de semana. Hoje, funciona de forma inversa, a identidade musical é criada antes mesmo de conhecer quem são os expectadores.

Guy J
Até às 3h ele manteve a pista em um mesmo ritmo. A faixa “Ahora”, de Matias Vila com remix de Eran Aviner & Hermanez, marcou uma transição para uma linha mais emotiva e profunda. Em todos os seus sets, o público espera que ele entre em climas imersivos, afinal, é o maior produtor dessa modalidade no mundo. Sempre destaquei que ele pouco foge de sua identidade musical, porém, agora tem conseguido organizar melhor a construção do set, não apenas jogando músicas progressivas, mas também tocando progressivamente ao longo do tempo. “Synthonia’”, um de seus clássicos, entra para contrapor e dar um momento mais eufórico. Em seguida, outra que considero entre as melhores de 2018 e se encaixa na proposta com perfeição – “Upperground”, de Artbat. Outro destaque vai para “Domestic”, de Ziger com remix de Alex O`Rion – anestesiante e ao mesmo tempo extremamente dançante, essa é daquelas que coloca uma pista inteira no mesmo balanço. Outra faixa que é impossível não mencionar é “Random Notes Orchestra”, de Adriatique, uma música que não esperava ver sendo tocada pelo israelense e que caiu como uma luva no set.

Guy J
No meio do set surge a música que mais me marcou na noite, entrando definitivamente para a coleção de favoritas e o melhor, de um artista que era uma novidade para mim – “Boxer”, de Verde. Quando ninguém esperava, aparece uma melodia singular que todos já conheciam muito bem; “Lanarka”, música que seria lançada dentro de alguns dias de Sébastien Léger foi a redenção.
Desde que começou a se apresentar regularmente no Templo, é nítido o crescimento em como conduzir a pista e, para mim, foi sua melhor construção de set no Warung, ainda que musicalmente Guy J já tenha feito exibições mais complexas. É evidente que isso não diminui em nada o tamanho da satisfação do público ao final de sua apresentação que, insisto, foi extremamente bem elaborada. Em nenhum momento Guy J deixou que a intensidade intrínseca de suas músicas atropelasse os horários programados para evolução e desdobramento musical.
Após duas horas de aceleração noturna com influencias de techno e muita energia, Guy J adentra a manhã sem baixar a guarda. A faixa “Pistolwhip” de Joshua Ryan com remix do próprio foi o limite de até aonde a insanidade rítmica pode ir. Ver a pista toda em euforia pelo auge da progressão ser alcançada já na manhã do Templo foi engrandecedor demais para o israelense. Pela primeira vez me dei conta que não estava só assistindo um dos meus produtores favoritos e sim um dos DJs mais capazes de fazer história que já vi! Independente da genialidade que sai do estúdio, ir vê-lo tocar é certamente a garantia de uma aula sonora com ideias muito bem estabelecidas de como ganhar o coração e a mente de todos os expectadores.

Guy J
Às 6h45 Guy J entra sem avisar em uma sinfonia de sintetizadores viajantes, e da mesma forma como iniciou, por sete minutos manteve-se anestesiando toda a pista até que a força dos raios solares adentrasse e fizesse um despertar coletivo. Em apenas sete minutos saímos de uma pista escura e entramos para claridade dando um novo clima de finalização. Tanto tempo sem ritmo não era por acaso, na sequência entra a linha de baixo mais famosa de todas. Inconfundivelmente “Nirvana” é seu mais famoso trabalho e sempre irá arrancar as emoções mais contidas, ainda que ele já tenha tocado essa música em momentos diferentes da noite, sempre dará um tom de surpresa, afinal, ultrapassa qualquer marca pessoal. Sua expressão de satisfação ao ver todos em completa reverência foi simbólica.
Após a euforia e já passando das 7h, ainda deu tempo para um encerramento com “Phoebe” de George Bloom. Destaco que minha curiosidade em vê-lo tocar com os CDJs após anos usando uma controladora e o traktor estava enorme. Para minha surpresa, suas mixagens continuam exatamente no mesmo estilo único, provando que não se trata de qual setup, mas do conhecimento em como mesclar um estilo que é tão complexo. Houve um tempo em que eu sentia medo do que iria acontecer quando chegasse a hora dos mestres dos anos 90 se aposentarem. Diante da enorme disparidade que há entre suas qualidades técnicas e conhecimento de pista contra uma nova geração de grandes produtores. Hoje, sei que alguns poucos nomes podem alcançar o mesmo nível de excelência dos pais fundadores da cena clubber global, e Guy J é um deles.

Guy J
