Eli Iwasa fala sobre ser empreendedora e DJ no Brasil e a boa fase do Caos

Por Luiza Serrano 

Foto de abertura: Antonio Wolff

Ela acabou de ser anunciada no line do DGTL São Paulo, que acontece no dia 4 de maio desse ano. Como bem sabemos, o DGTL é um dos festivais mais importantes da comunidade techno/house mundial e é a segunda vez que Eli aporta seus cases no evento. A primeira foi em 2017, no dia em que recebemos o festival holandês pela primeira vez no Brasil.

Esse fato, aliado ao ano poderoso que a japa teve em 2018, com agenda cheia e duas turnês internacionais, poderíamos concluir que sua carreira de DJ está crescendo mais do que nunca – e isso é uma verdade – e que não lhe sobra tempo para mais nada. Porém, seu outro lado também está em plena ascensão. Com um club consolidadíssimo no interior paulista, o premiado Club 88, e o Caos completando um ano de sucesso absoluto, a Eli empreendedora se mostra cada vez mais consistente e relevante, fomentando a crescente cena do interior paulista ao lado de seus sócios e de outros clubs como o Laroc/Ame, e ajudando a consolidar a região como um grande pólo da música eletrônica.

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HM – Oi Eli! Obrigada por essa entrevista. 2018 foi um ano importantíssimo não só para a sua carreira de DJ, como qualificando sua importância empresarial na cena. De quando você se tornou sócia do Kraft até a consolidação do Club 88 e do Caos, quais foram suas maiores dores e alegrias nesta caminhada?

Escolher ter um club no Brasil é viver uma montanha russa emocional (rs)!

Hoje eu e meus sócios estamos num momento de muita realização, mas nem sempre foi assim. Vim para Campinas há 12 anos, reabrimos o Club Kraft em 2007, que encerrou suas atividades no final de 2009, e nos vimos sem energia, sem vontade de continuar e sem dinheiro. 2010 foi um dos anos mais difíceis da minha vida. Só com o Pianno Club no Jockey Club Campineiro, que se tornou o Club 88 depois de um ano de funcionamento, que começamos a nos estruturar novamente, com uma trajetória de sucesso que nos trouxe até aqui, e nos permitiu abrir o Caos. Sair de São Paulo para trabalhar em uma cena que conhecia apenas de tocar aqui, entender suas peculiaridades, seus desafios, tudo serviu de lição e experiência. O mais importante de tudo foi encontrar em meus sócios não apenas uma sintonia forte de trabalho, mas apoio nas horas difíceis e, principalmente, a vontade de realizar muitos desejos e sonhos nossos juntos. Sei como muitas sociedades são difíceis, e me considero uma privilegiada por ter o Salin, o Toca e o Juka como grandes parceiros e amigos nesta jornada. Nada disso é possível sem eles, o Caos e o Club 88 não rodam sem eles.

HM – 2019 já começou cheio de novidades, uma delas é que as noites eletrônicas do Caos acontecerão duas vezes por mês. Por que vocês sentiram essa necessidade de acentuar as duas aberturas mensais, e como serão os conceitos de ambas as noites?

O Caos abriu com um potencial gigantesco para nossos padrões, que permitiu viabilizar tantos artistas que nunca conseguiríamos num espaço para 450 pessoas como o Club 88. Todos os projetos do 88 migraram para o Caos, em versões maiores, desde o techno até o hip hop, e as noites voltadas para o público LGBTQI+. Ao final do primeiro ano do Caos, já com a noite de eletrônico consolidada, pensamos que estávamos prontos para abrir o club mais vezes.

A experiência no Caos é muito diferente das noites no Club 88; são intensas, sempre com grandes artistas, potencializadas pelo soundsystem e pela iluminação que preenchem nosso galpão. É praticamente uma imersão sonora, musical, visual – e que não poderia ficar limitada a quem gosta de techno e house underground. Nossos clubs sempre foram muito democráticos, trabalhando com diversas vertentes dentro da música eletrônica, o que permite um fluxo dos frequentadores entre os projetos, e que, de uma maneira muito legal, acabavam fortalecidos por este trânsito de diferentes públicos. Quando conseguimos chegar a um formato que acreditamos estar alinhado com o que o Caos é, começamos a abrir duas vezes – uma noite que incorpora a corajosa visão artística do club e representa nosso espírito, e outra voltada a um público mais jovem, com uma proposta musical mais acessível. Vale falar que isto não é uma regra. As aberturas do Caos funcionam muito em função da disponibilidade e agenda dos artistas, e a preocupação em manter um calendário saudável para nós e outras boas iniciativas da região.

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Eli tocando na festa da Life and Death no Caos, o primeiro showcase do label italiano no Brasil – Foto: Image Dealers

HM – Na sua opinião, qual foi a principal razão que fez com que o Caos se tornasse um dos principais clubs do país em apenas um ano?

A curadoria, o espaço simples mas funcional, o soundsystem, a iluminação, o serviço, mas, principalmente, a reunião de pessoas que são apaixonadas por música, de todas partes do estado e do país, de diferentes backgrounds, que se encontram a cada abertura do Caos. A relação de nosso público com o club é realmente especial, este elo afetivo é o segredo de nosso sucesso, e talvez um dos principais diferenciais do Caos – que enxergo nos clubs que permanecem em nossa memória e realmente fizeram história.

HM – Vamos falar um pouco sobre a nova identidade visual do Caos, que tem sido algo muito importante desde a inauguração do club. Recentemente vocês assinaram com o Yusuf, do estúdio esponja, que agora começou a fazer parcerias com outros artistas e trará para a próxima abertura Eli Sudbrack, assinando algo mais tropical. Conte pra gente sobre como você vê a importância do trabalho visual, e como você acha que o público recebe esta comunicação?

Uma das grandes preocupações que tivemos quando começamos a pensar no Caos foi ter uma identidade visual que provocasse, que instigasse, que causasse incômodo às vezes. Que não fosse algo comum. É muito mais fácil produzir algo que seja eficiente comercialmente, que “venda” os artistas – mas que talvez nunca emocione. Trabalhar com a esponja tem sido um baita aprendizado, tem nos ensinado a comunicar de outra maneira, de maneira mais sutil – ali tudo tem um significado, cada imagem, cada detalhe, cada milímetro entre as fontes na diagramação tem um porquê. A arte e a música são instrumentos para transmitir uma mensagem, representam a visão e os ideais de nosso club, então ter uma pessoa como o Etiman não só faz sentido, mas como também é um grande privilégio.

HM – Sendo hoje uma das principais vozes do interior paulista, que definitivamente se transformou em um pólo da música eletrônica, qual sentimento você tem sabendo que foi e é agente transformadora da região?

Vim para Campinas para morar com meu namorado na época, hoje um grande amigo e meu sócio nos clubs. Nunca imaginei naquela época que teria uma trajetória como esta na cidade e, hoje, vejo que a mudança para cá permitiu algumas das minhas maiores realizações profissionais e pessoais. Eu não me sinto uma agente transformadora, eu simplesmente faço o que sei e amo fazer, que é promover música que acredito, artistas que respeito, através de noites que espero que proporcionem momentos especiais para quem acompanha nosso trabalho. Que inspirem, tragam alegria, conforto, como tantas noites que vivi na pista. Mas fico feliz de saber que nosso trabalho e nossos clubs contribuem para fomentar e fortalecer a cena do interior de SP. Ver Campinas e região tornar-se um destino para quem gosta de música eletrônica e receber todos estes DJs que gostamos tanto me deixa muito feliz. Eu sei que o que fazemos emociona muita gente, eu vejo isso quando estou no club, e percebo que é grande parte de nosso papel – e me emociono também. Cada uma da pessoas que formam nosso público vivem suas próprias batalhas, suas próprias conquistas, e de alguma maneira nos tornamos parte da vida delas – às vezes a gente só precisa ir para um pista de dança para deixar de lado os problemas por algumas horas, ou para celebrar algo muito especial, ou se sentir inspirado através da música que compartilhamos ali, como aconteceu comigo tantas e tantas vezes. Para mim, isto basta.

HM – Você continua com uma agenda de gigs bem cheia, mas com todo esse crescimento dos clubs, como fica sua carreira artística? Ta dando tempo de desenvolver da forma que você gostaria?

Vou ser bem honesta: não consigo fazer tudo que gostaria, da maneira que gostaria. O maior desafio da minha vida é equilibrar estes diversos papeis, DJ, empresária, vocalista do Bleeping Sauce, filha, amiga, mãe da Paçoca (minha viralata!), e acima de tudo, mulher. Sempre tem um lado que sofre, e geralmente, é a vida pessoal e algum dos projetos. 2018 foi um ano de foco total no Caos e em minha carreira de DJ, enquanto o Marco AS gravava e finalizava seu álbum solo – espero que a gente consiga gravar mais coisas em 2019 e passar mais tempo no estúdio. 

HM  – Ficamos sabendo que tem muitas surpresas ainda esse semestre. Algo que você possa compartilhar com a gente?

Sim, tenho boas notícias para dar. Além da minha confirmação no Warung Day Festival, retorno ao DGTL em São Paulo este ano, em um b2b com Valesuchi. Vou para Buenos Aires agora em março para uma gig no Zef, e finalmente toco em Bogotá no Baum Festival em maio.

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Foto: Antonio Wolff

HM  – Para finalizar, você tocou na primeira edição do DGTL São Paulo e hoje foi anunciada no line da edição de 2019! Como você se sente sendo convidada para tocar duas vezes em um dos festivais que mais cresceram por aqui? E o que podemos esperar desse b2b inédito com a Valesuchi?

Tenho uma relação de muito carinho com o DGTL. Minha apresentação em 2017 permanece como uma das minhas gigs favoritas de toda minha carreira – o set é um dos mais compartilhados até hoje, e sempre me falam dele. Quando estou na Europa, gosto muito de ir ao festival para curtir e dançar, porque é um dos mais sólidos em termos de curadoria, dentro do que mais gosto de ouvir. Estou muito feliz em tocar mais uma vez, não só pela relevância do evento, figurando num line up ao lado de nomes como Bonobo e Jeff Mills (mestre!), e especialmente de um número expressivo de artistas mulheres (e em horários de destaque). Também porque é bom demais estar ao lado de um grupo de pessoas que me fizeram sentir acolhida desde nosso primeiro contato. Amei que a Valesuchi topou o b2b comigo, ela é uma artista que respeito muito e fez um set super elogiado no Caos. Ótima DJ, versátil, experiente, tenho certeza que vai ser muito divertido tocar com ela.

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