Por Cecília Bastos – edição Gabriela Loschi – Matéria publicada na House Mag impressa #50
Foto de abertura: divulgação
A música eletrônica mainstream vem se aproximando do pop em vários aspectos, entre eles, sonoridade, grandes contratos com gravadoras, cachês milionários e os objetivos que artistas, escritórios e labels perseguem: os charts. A matemática é simples, quanto mais gigs e mais famoso o artista, mais popular nos charts. Com o crescimento das plataformas digitais muita coisa mudou, mas charts já foram responsáveis pela ascensão e queda de artistas, como o da Billboard, que até hoje é referência nos Estados Unidos.
Colocar música em uma rádio não é tarefa fácil. Estamos falando do famoso e institucionalizado jabá. Quem já teve acesso à lista de valores de jabás das principais rádios do Brasil sabe que não estamos falando de poucos dígitos. Além disso, não basta pagar, os programadores têm que querer tocar sua música, e a fila de espera é grande. Então querido artista independente, se você não tem bala na agulha e bons contatos em rádio, pra você só resta o que um tempo atrás surgiu como a salvação da lavoura: o digital.
Quantos textos achamos na rede há poucos anos falando que “agora o artista indie é livre para lançar sua música como quiser”? “Acabou o tempo das amarras das labels!”. “Você é responsável pelos seus lançamentos!”. Mas um tempo se passou, as plataformas se multiplicaram, o Spotify virou referência, toda mídia é paga, seus posts no Facebook e no Instagram têm poucas curtidas orgânicas e, ao ver aqueles 5 mil plays da sua faixa lançada há seis meses, você deve se perguntar: “onde foi que eu errei?”. Não deveria ser fácil gerenciar seus lançamentos? Não precisar mais de suporte de uma gravadora e lançar sua faixa por onde você quiser?
“Muita gente se perguntou: quanto se paga para colocar um artista na capa de uma playlist oficial do Spotify? E agora vem a resposta que ninguém espera: nada. Não se paga nada”.
Ninguém joga pra perder numa grande indústria e plataformas como Spotify, Deezer, Apple Music e agora o YouTube Music, que estão preocupadas em ganhar milhões e manter sua relevância e independência editorial. Recentemente, o rapper Drake lançou um álbum que rapidamente virou o mais vendido do mundo. Quem abriu o Spotify em qualquer lugar do mundo naquela semana viu a imagem do Drake como capa de várias Playlists. Muita gente se perguntou: quanto se paga para colocar um artista na capa de uma playlist oficial do Spotify? E agora vem a resposta que ninguém espera: nada. Não se paga nada.

Foto: divulgação Spotify
Mas então o que você precisa fazer para estar na capa das playlists?
É uma soma de fatores. O tamanho do artista, a qualidade do lançamento, o relacionamento do escritório ou da label com o Spotify e se o editor das playlists gostou da faixa. Além disso, vem a vontade do Spotify em criar um case de sucesso no seu território. Com certeza, o Spotify quis provar um ponto colocando o Drake em dezenas de capas e mostrando um resultado descomunal pra esse lançamento. Desconheço esse ponto relativo ao Drake, acredito que o serviço quis bater recordes de streams para apenas um artista em um fim de semana. Mas conheço o case que o Spotify Brasil mais se orgulha. Chama-se Alok.

Foto: divulgação Spotify
O Brasil é top #5 mercados em qualquer lugar do mundo por seus números monstruosos. O top #200 Brasil joga um artista no top #200 Global. Todas as gravadoras do mundo estão ligadas no efeito Brasil nos charts. Enquanto países como Portugal colocam um artista em primeiro lugar no chart nacional com 40 mil streams, no Brasil, em um dia comum, você precisa de 500 mil streams para pegar o primeiro lugar. E esse é um número muito alto quando os números oficiais do Spotify são de 83 milhões de assinantes no mundo inteiro. As maiores playlists do serviço no Brasil têm entre um e quase três milhões de seguidores e ser adicionado em uma delas muda a trajetória de uma música, que pode triplicar os plays orgânicos. E o Alok é o DJ brasileiro que mais se beneficia disso no Spotify. Como ele foi o primeiro artista brasileiro a entrar no chart global com “Hear Me Now” e o Spotify Brasil sentiu o gostinho de seu poder em quantidade de streams, não existe uma música do artista que não tenha total suporte do serviço em todos os canais possíveis: newsletters, mídia paga em redes sociais e todas as playlists possíveis dentro da plataforma.
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Não estamos discutindo o papel do escritório nem do tamanho do investimento do próprio artista, e sim a força do suporte do Spotify em si, que pode jogar um artista pro alto ou pra baixo. E a música eletrônica é universal. Por mais que a Marília Mendonça seja a rainha do primeiro lugar nos charts, a chance dela ser ouvida em outros países fora do Brasil é menor que as chances do Alok virar um artista global. O que explica perfeitamente por que, embora de nicho, ele seja a maior aposta dentro do serviço. O Spotify sabe que a música eletrônica-pop é global, mas o sertanejo não.
O que mais conta para entrar numa playlist do Spotify?
A liberdade dos editores das playlists oficiais é super respeitada. A maior playlist de música eletrônica do Spotify, a “mint”, é tão famosa que deixou seu editor famoso. Austin Kramer é requisitado nas redes sociais, com mais de 50 mil seguidores no Twitter. A “mint” muda a história de uma música. Qualquer DJ mainstream ou underground, porque quase ninguém dispensa stream, quer ver sua música inserida na maior playlist especializada do serviço. Os artistas agradecem em suas redes a Austin Kramer pela inserção da música, e o rapaz virou referência seguida pelos maiores DJs do mundo: Calvin Harris, Martin Garrix, Marshmello, etc.
“Existem muitas formas de comprar mídia dentro do Spotify para impulsionar seu lançamento, mas o lugar na playlist é sagrado e tem que ser conquistado”.
Embora no Spotify Brasil não exista um editor especializado em música eletrônica, você que é artista gostaria de ser notado por eles. E talvez isso seja tão difícil quanto cair nas graças de uma estação de rádio famosa. Mas pelo menos é de graça. O Spotify não aceita jabá. Você pode até duvidar disso, mas eles realmente não aceitam. Existem muitas formas de comprar mídia dentro do serviço para impulsionar um lançamento, mas o lugar na playlist é sagrado e tem que ser conquistado. Os motivos que levam sua música a ser inserida numa playlist serão variados, e conseguir isso pode mudar sua trajetória dentro da plataforma.
E as playlists não oficiais?
Poucos reparam na procedência das playlists que seguem. Além das oficiais do Spotify, é comum achar grandes playlists de influencers e de labels. Algumas usam seus nomes, outras um codinome, dando a entender que seria apenas uma empresa curadora de playlists. Nenhuma playlist de label tem 100% de seu conteúdo com os próprios artistas, mas para descobrir quem é a label por trás, basta ver a quem pertence a maioria das faixas e saberá quem está seguindo. Lembrando que o Spotify não permite monetização fora de seus canais comerciais oficiais, os banners e pop-ups dentro do aplicativo, então playlists que vendem lugares são ilegais e podem ser derrubadas se o esquema for descoberto.
O número de consumidores de playlists é bem maior que o número de produtores de playlists. E as pessoas buscam música para combinar com seus sentimentos. Se está alegre, procuram uma playlist feliz. Num dia ruim, talvez prefiram uma mais triste. As playlists de novidades definem o que você vai ouvir? Talvez! Colocar um artista como capa de várias playlists, como foi o caso do Drake, afeta o seu consumo? Talvez te deixe mais curioso sobre aquele lançamento. Se você tem o hábito de toda sexta-feira checar a “Novidades da Semana”, você saberá o que o Spotify considerou relevante naquela semana. Mas uma colocação errada numa playlist também derruba uma faixa em poucos dias, afinal, nenhuma plataforma de streaming quer perder seguidores porque seu conteúdo não condiz com o que o usuário quer ouvir. Então sim, é sobre skip rate. Mas também é sobre o que você espera ouvir quando escolhe uma playlist e não quer se decepcionar. E o Spotify tem um compromisso com você e suas playlists.
YouTube
Embora extremamente importante, o Spotify ainda é um serviço de elite, com usuários concentrados no sudeste e não necessariamente atende as expectativas de quem procura música eletrônica para ouvir. O brasileiro padrão ainda se recusa a pagar para ouvir música e aqui entra o bom e velho YouTube.
É no YouTube que o DJ pode brilhar. Além de postar músicas autorais, remixes, bootlegs e sets completos, ele ainda pode investir em anúncios de forma muito mais barata que no Spotify. O YouTube funciona como um Facebook. Se não existir nenhuma questão autoral impedindo a publicação do seu conteúdo, você pode ser feliz direcionando sua música para um público selecionado, chegando aos ouvidos de quem você quer que se torne seu fã. De acordo com a Google, 82 milhões de pessoas ouvem música digital no Brasil e 80% delas ouve pelo YouTube. Isso é uma média de 64 milhões de pessoas. O primeiro lugar dos charts no Spotify tem em média 500 mil streams. Faça as contas e se pergunte: quem ganha nessa disputa? E onde você vai preferir investir?
Está chegando no Brasil o tão falado YouTube Music, que promete reunir as melhores funções de um serviço como o Spotify com todo o conteúdo gigantesco do YouTube. O fã de música eletrônica que ama ouvir sets de seus artistas favoritos vai poder fazer isso agora fechando o app sem se preocupar se a música vai parar. O YouTube massacra qualquer concorrente devido a quantidade de conteúdo exclusivo que pode armazenar. Making of, behind the scenes, shows ao vivo, sets completos. Diga o que você procura e encontre no YouTube. Essa é uma briga de plataformas que vai ser maravilhoso de ver. Que vença o melhor, para o amante da música em geral.
Esse texto não pretende ser um manual de como fazer o artista independente bombar sua track no Spotify ou no YouTube. Não existe fórmula de sucesso, senão seria muito simples. As grandes gravadoras estão há décadas competindo entre si por market share e influência e a cada ano gêneros como o funk e o sertanejo estão bagunçando a vida das grandes labels, enfiando artistas nos charts sem nenhum tipo de grande acordo e investimento de marketing. A palavra da vez é a viralização, e às vezes, basta ser adotado por um grupo de criadores de memes para que sua música chegue ao top #10. Gravadoras têm dinheiro para gastar em marketing e contatos cheios de influência, mas elas não podem garantir que uma música será um hit. Ninguém pode. Alguns projetos apenas viram grandes buracos negros de investimento e não dobram a esquina, muito menos viram um sucesso.
Então, na hora de fazer aquele textão nas suas redes sociais culpando as plataformas de streaming pelo fracasso de uma faixa, lembre que alguns dos maiores DJs do Brasil começaram suas carreiras com bootlegs não autorizadas e ainda assim tiveram suas músicas cantadas por pistas lotadas. O reconhecimento desse trabalho os levaram a finalmente lançarem um trabalho autoral que refletiu em seus números nas plataformas. Mesmo tendo suas músicas lançadas no Spotify, nenhum artista deixa de colocar um vídeo estático que seja com sua música rodando no YouTube. Os números de seguidores no SoundCloud ainda são importantes na hora de vender shows. O seu fã vai ser seu fã nas pistas, no Soundcloud, no YouTube e no Spotify. Se o seu sonho como DJ é virar um pop star, realmente você precisa se preocupar com sua performance no Spotify e no YouTube. Mas estamos agora na fase Spotify, como já estivemos na fase iTunes há alguns anos e a fase CD há algumas décadas. Tudo muda o tempo todo, só o que não muda é a necessidade de se criar e ouvir música boa. Não importa onde.
