Direto de Barcelona, Lucas Freire chega para tour no Brasil. Confira a entrevista exclusiva!

Por Igor Gontarski

Foto de abertura: divulgação

O paulistano Lucas Freire foi um dos primeiros a realizar festas de techno no Brasil e contribuiu para o desenvolvimento do gênero no interior de São Paulo, sendo o fundador do lendário club Kraft em Campinas e também residente do histórico Lov.e Club.

Há mais de uma década morando em Barcelona, Lucas é um dos nomes por trás do selo Devotion Records, por onde lançará seu último EP do ano, “Light It Up”, na semaa que vem. Lucas está retornando ao Brasil para uma turnê onde tocará na Moving do D-Edge e no aniversário do Caos, com Ben Klock, dia 7; e na festa PRETO em São Paulo, dia 13. Na mesma data, ele também oferecerá um workshop de discotecagem avançada na DJ Ban, através do Doe Dance, onde a renda é revertida para instituições de caridade. O valor é simbólico e a entrada pode ser adquirida aqui.

Batemos um papo para saber sobre a indústria europeia, desafios enfrentados em mais de uma década fora do país e as vantagens de se morar em Barcelona, uma das cidades mais badaladas do mundo. Confira!

HM – Olá Lucas! Você teve um papel fundamental no crescimento da cena underground no interior de São Paulo há mais de uma década e depois embarcou para uma vida e carreira na Europa. Quais foram os maiores desafios nesta longa temporada fora do país?

As dificuldades foram muitas. Tive de deixar a família e amigos e sabemos o quanto isso é importante na vida de qualquer pessoa. Deixei uma empresa que eu estava desenvolvendo há mais de 10 anos. Ficou para trás um trabalho de desenvolvimento da cena eletrônica na minha região, realizado durante muitos anos e com muito amor. Eu era residente do Lov.e Club que, sem dúvida, foi um dos clubs mais importantes da história do país e também tive de deixar quando decidi me mudar. Ficou para trás o tão amado club Kraft, que foi a realização de um sonho de muita gente e que marcou a vida de tantas pessoas. Deixei para trás uma base de fãs grande que tive que trabalhar por muito tempo para conseguir. De um dia para o outro, ter que desenvolver um trabalho sem esse apoio e essa base sólida, foi algo que senti muito, sem falar no simples e puro fato que eu deixava o meu país. A comida, os costumes, o idioma, a alegria do brasileiro e tudo mais que torna o nosso país tão especial.

Estava indo para um lugar onde eu praticamente não tinha contatos dentro da indústria da música eletrônica, com uma cena muito mais antiga que a nossa, portanto muito mais profissional e competitiva. Tive que aprender o idioma e lidar com muitas variáveis e aspectos novos que, hoje, consigo ver que me fortaleceram como pessoa. Pude estudar engenharia de áudio e teoria musical em duas boas escolas daqui, o que sem dúvida foi muito importante para minha formação profissional e pessoal. Pouco a pouco fui construindo uma carreira internacional sólida e assim comecei a conhecer países e pessoas através da música. Conquistei muitos dos meus objetivos. No fim das contas, foi muito positivo e sou agradecido pelas oportunidades que tive e tenho na vida e por como tudo tem se desenvolvido.

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HM – Conte mais sobre sua cidade, quais são as vantagens e as desvantagens de se morar em Barcelona, uma das cidades do mundo onde mais se respira cultura em diversos aspectos?

A cidade é inspiradora. Aqui se vê e se respira arte e cultura dando um passeio pela rua. A energia é super especial. O clima, a iluminação, a gastronomia. A cidade tem uma história com a música e o esporte muito forte, e esses são dois dos principais pilares da minha vida. Barcelona é uma cidade incrível, a cena eletrônica aqui é bem forte. Tem vários clubs reconhecidos internacionalmente. Os profissionais da indústria aqui são fortíssimos, tornando uma dificuldade fazer parte disso tudo. Grande parte da indústria do entretenimento aqui é focada em coisas mais comerciais, já que Barcelona é uma cidade que precisa muito do turismo. Isso deixa um mercado mais reduzido para o que seria uma programação eletrônica de mais qualidade e underground. Isto faz com que aconteça uma certa falta de espaço no mercado, gerando um excesso de competitividade entre os promotores e artistas locais, o que resulta em uma cena bastante fechada e dividida. É uma cidade com uma cena forte, não quero me explicar mal. Mas o fato de ser forte não significa que seja uma cidade fácil de se trabalhar. A competitividade e o nível dos profissionais aqui são muito altos, o que é bom para muita coisa mas não tanto para outras!

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HM – Você tem tido grande destaque nos últimos anos com apresentações em importantes festivais e clubs e um número expressivo de gigs. Quais foram as experiências mais marcantes que você já teve por aí?

Essa é uma pergunta sempre difícil de responder. Cada apresentação é especial e pode marcar um artista de diferentes maneiras. Quando eu ainda morava no Brasil, eu tinha vários sonhos e lugares onde queria tocar e, sem dúvida, quando fui realizando alguns desses sonhos que para mim pareciam muito distantes, foram momentos que considero muito especiais. Tocar na Tresor (na antiga e original) em Berlim para mim foi muito emocionante. Clubs como o Florida 135 aqui na Espanha, que está aberto e gerenciado pela mesma família há mais de 75 anos; La Real, no norte da Espanha, que marcou uma época na região e no país; Industrial Copera, que é um ícone do techno no sul da Espanha; Fabrik Madrid, que chega a ser algo beirando o surrealismo pelo tamanho, estrutura e potência que tem como club; o Lehmann de Stuttgart, que hoje em dia é um dos templos do techno na Europa. Aqui em Barcelona, o Razzmatazz e o Apolo são dois clubs míticos na cidade. Grandes festivais como Awakenings na Holanda, Nature One na Alemanha, Monegros Desert Festival, Aquasella Festival, Dreambeach Festival todos aqui na Espanha. Na verdade, a lista é grande. Olhando para trás, chego a me emocionar quando vejo todo o caminho que já percorri e tudo que foi sendo conquistado durante anos de trabalho e dedicação. O desafio agora é continuar perseguindo os sonhos, crescendo, aprendendo e principalmente continuar conseguindo me conectar com cada vez mais pessoas através da música.

HM – Você foi um importante colaborador da cena do techno no Brasil, dono de club e festas do gênero, e tem longo know-how em sua empreitada na Espanha, agora dono de label também. Trazendo toda sua noção de mercado, empreendedorismo e música para cá: como você vê a evolução da cena techno nos próximos anos, tanto para quem empreende quanto para quem faz música (já que você está dos dois lados)?

Vendo de fora, o techno parece estar vivendo um grande momento no Brasil. Tem uma quantidade grande de artistas internacionais visitando o país com frequência, o que demonstra que tem uma boa quantidade de promotores capacitados e muitos profissionais envolvidos com o estilo. O país conta com clubs muito bons e com reconhecimento internacional, além de realizar uma quantidade cada vez maior de festivais grandes e relevantes. Algo muito importante é que em paralelo a tudo isso, vejo uma cena underground muito viva e com uma base super sólida. Um trabalho realizado por gente que sabe o que é o techno e que vive o estilo com muita paixão e entusiasmo, e isso é importantíssimo para que o estilo siga se desenvolvendo.

Temos vários artistas brasileiros muito bem preparados com competitividade, dinamismo e exigência do mercado internacional, o que é muito importante para o país. Alguns dos produtores que mais se destacam em várias vertentes do techno hoje em dia são do Brasil. Sempre tivemos DJs brasileiros se destacando fora, e isso não mudou, o que é muito positivo. Começamos a ter alguns selos no nível do que vejo aqui fora. É bem importante reconhecermos isto e nos estimularmos mais para esse crescimento. Quanto ao público, o que tenho visto tem me agradado muito. Gente interessada no estilo e em se informar sobre o que tem acontecido fora e dentro do país.

 “Um público onde se mistura novas pessoas que chegam curiosas e com muita energia com pessoas já mais antigas de cena, com um bom nível de conhecimento e compreensão do que é a cultura techno”.

É uma mistura saudável e que me faz ser otimista quanto ao futuro do techno no Brasil. Eu acho que se o estilo for bem trabalhado e respeitado, tem tudo pra seguir crescendo e se desenvolvendo. É claro que espero poder fazer parte de todo esse processo!

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Foto: divulgação

HM – Da última vez que você veio ao Brasil, você disse ter encontrado uma cena muito mais madura e variada. Você sente que sua música tem cada vez mais espaço no país?

Sem dúvida. Com o crescimento do estilo no país, o interesse pelas diferentes vertentes do techno, a diversidade de sons, texturas, velocidades, potência e “cores” que o gênero oferece também cresceu, e eu notei um aumento significativo de pessoas interessadas na minha linha de som. Vejo uma cena mais desenvolvida e mais aberta às diferenças. Me estimula ver essa curiosidade e essa abertura do público quanto ao diferente. Estou super ansioso em tocar por aí de novo e espero passar com certa regularidade ao país. Quero ver, viver e fazer parte desse processo de desenvolvimento!

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HM – Dentro da sua carreira você já trabalhou na frente de diversos selos. Hoje, sua atenção é depositada ao seu Devotion Records. Quais foram as conquistas neste ano e o que podemos esperar da Devotion em 2019? Teremos brasileiros entre as novidades?

Tanto eu quanto a Fernanda Martins, que é minha sócia no selo, estamos muito felizes com o desenvolvimento. Os passos estão sendo dados e os objetivos vão se realizando pouco a pouco. Tem muitas horas de trabalho, dedicação e amor por trás desse projeto. As recompensas e conquistas vêm de diferentes formas. Existe um crescimento e reconhecimento real do selo no cenário internacional. Temos assinado com artistas que admiramos sem deixar de dar espaço para gente nova que é algo que acho super importante ser feito. Tem sido especial para gente ver e escutar cada vez mais o que  lançamos sendo tocado e servindo de condutor para essa conexão tão importante que se deve gerar entre artista e público. É um processo muito gratificante e seguiremos trabalhando duro pra que isso siga se desenvolvendo.

Nosso próximo passo agora é desenvolver uma série especial dentro do selo com lançamentos também em vinil. Temos sentido que devemos retomar o contato com o formato físico e estimular a cultura do vinil que é tão importante para nossa profissão, indústria e cultura. É claro que teremos brasileiros no selo. Se o nível dos artistas continuar subindo como vem acontecendo, teremos cada vez mais.

HM – Muitos brasileiros têm o desejo e sonham em morar na Europa e ter uma carreira por aí. O que você pode compartilhar para ajudar essa galera?

Converso com muita gente sobre isso desde quando vim morar aqui, em uma época que pouca gente tinha se aventurado. Meu conselho é o de analisar bem as possibilidades e de vir o mais bem preparado possível. O mercado aqui é muito competitivo e é super difícil conseguir o próprio espaço. Se vier sem oportunidades, apoio e a base que se pode ter no próprio país, pode chegar a ser até perigoso. Sempre digo isso porque muita gente vê que tem muita coisa acontecendo na Europa e acha que aqui vai ter as oportunidades que não têm tido no Brasil, e a realidade não é bem assim. Se você puder vir com uma certa base estabelecida, com bons contatos, profissionalmente bem preparado e pronto para a exigência e competitividade do mercado europeu, sempre é melhor e mais provável que as coisas possam dar certo. Mas independente desses fatores de risco, eu me guio na vida pela seguinte frase: “faça dos seus sonhos o seu futuro”. Então eu acho que as pessoas devem sim perseguir seus sonhos. Lutem pelo que vocês querem, trabalhem muito e coloquem o coração e a alma em tudo que fizerem. Com muito trabalho, coragem, e porque não, um pouquinho de sorte, os sonhos e os objetivos podem ser alcançados. Vivam seus sonhos!!!

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